A IA Vai Acabar com o TCC? Minha Posição
A IA vai acabar com o TCC? Entenda o que muda de verdade, o que nenhuma ferramenta substitui e qual é a posição da Dra. Nathalia sobre o futuro do TCC.
O medo por trás da pergunta
Olha só: toda vez que uma nova ferramenta aparece, alguém declara a morte de alguma coisa.
Com a IA, não foi diferente. A pergunta “a IA vai acabar com o TCC?” chegou nas minhas mensagens, nos comentários, nos grupos de estudantes. E ela carrega mais ansiedade do que curiosidade. É menos uma pergunta sobre tecnologia e mais um medo disfarçado de pergunta: meu esforço ainda vai valer alguma coisa?
Essa pergunta merece uma resposta honesta, não tranquilizadora. Vou dar a minha posição.
O que a IA de fato muda no TCC
Antes de responder se a IA vai acabar com o TCC, preciso ser precisa sobre o que ela já mudou. Porque algumas coisas mudaram sim, e fingir que não mudou nada seria desonesto.
A IA mudou o acesso à linguagem acadêmica. Estudantes que antes travavam na escrita formal agora conseguem sair do rascunho. Isso é real.
A IA mudou a velocidade de organização bibliográfica. Ferramentas integradas a gerenciadores de referência ajudam a organizar e formatar citações com muito menos esforço manual.
A IA mudou a possibilidade de revisão textual. Um texto pode ser verificado quanto a clareza, coesão e gramática em segundos.
Mas aqui está o ponto que muita gente ignora: nenhuma dessas mudanças é sobre pensar. São mudanças operacionais. E o TCC sempre foi muito mais sobre pensar do que sobre operar.
O que é o TCC, de verdade
O TCC não é um documento. Isso é o que a maioria das pessoas entende errado quando olha para essa discussão.
O TCC é o registro de um processo de aprendizagem. É a prova de que o estudante conseguiu identificar um problema, situar esse problema em um campo de conhecimento, escolher uma forma de investigá-lo, coletar ou analisar evidências, e construir uma resposta fundamentada.
Esse processo não pode ser terceirizado. Não para uma IA, não para um assessor, não para um amigo que escreve bem.
Posso ajudar alguém a organizar as ideias? Sim. Posso ajudar a revisar um texto? Sim. Mas não posso substituir o raciocínio que levou à pergunta de pesquisa. E uma IA também não pode.
Por que as universidades não vão eliminar o TCC
A resposta curta: porque o problema que o TCC resolve não mudou.
As universidades criaram o TCC (ou monografia, ou trabalho de conclusão, dependendo da área) para garantir que o estudante demonstrasse capacidade de síntese, argumentação e pesquisa. Esse objetivo continua válido. O mercado de trabalho, as pós-graduações, os programas de formação continuada continuam valorizando alguém que sabe construir um argumento com evidências.
O que pode mudar, e já está mudando em algumas instituições, é o formato. Avaliação mais centrada na defesa oral. Trabalhos com etapas de processo verificadas. Propostas de portfólio em vez de um único documento final. Mas essas mudanças indicam que o TCC está se adaptando, não desaparecendo.
Faz sentido? A pressão da IA pode até fortalecer a defesa oral como instrumento avaliativo. Porque ali, na frente da banca, não tem ferramenta que responda por você.
O que as universidades estão, de fato, fazendo
Algumas universidades brasileiras já implementaram ou estão implementando políticas sobre uso de IA em trabalhos acadêmicos. Muitas ainda não têm política formal. E esse vácuo regulatório é real.
O que observo no campo é que a resposta institucional está sendo lenta, mas está acontecendo. Alguns cursos passaram a exigir diários de pesquisa, registros de processo, entrevistas com o orientador sobre o desenvolvimento do trabalho. Outros aumentaram o peso da defesa oral.
Nenhuma dessas respostas é “proibir a IA”. Porque proibir é ineficaz e ingênuo. A questão que os cursos sérios estão se fazendo é: como garantir que o estudante pensou, mesmo usando ferramentas?
Essa é a pergunta certa.
O que a IA não consegue fazer no seu TCC
Vamos ser diretos. A IA não tem acesso ao campo. Se você foi a uma escola fazer observação participante durante seis meses, a IA não sabe o que você viu. Se você entrevistou quinze profissionais de saúde no interior do Nordeste, a IA não ouviu aquelas entrevistas.
A IA não tem posição autoral. Ela produz texto estatisticamente provável, não argumento com ponto de vista. Você pode usar o texto da IA como ponto de partida, mas se não tiver um argumento próprio, o que você vai defender na banca?
A IA inventa referências. Isso não é sugestão, é fato documentado. Modelos de linguagem têm o problema técnico conhecido como alucinação. Dados fabricados, referências inexistentes, citações erradas. No TCC, isso é eliminatório.
A IA não conhece o seu problema de pesquisa específico. Ela conhece padrões gerais de problemas de pesquisa. Seu objeto de investigação é singular. Nenhuma ferramenta vai criar relevância e especificidade por você.
O risco real que a IA traz para os estudantes
Aqui está o que me preocupa de verdade: estudantes que usam IA sem senso crítico podem chegar à banca sem entender o que escreveram.
Isso não é hipótese. Professores e orientadores relatam cada vez mais situações em que o estudante apresenta um trabalho que não consegue explicar. As palavras estão lá. A estrutura está lá. Mas quando a banca pergunta “por que você escolheu esse referencial teórico?” ou “o que você quer dizer com esse conceito?”, o estudante não sabe responder.
Esse é o risco concreto. Não é que a IA vai acabar com o TCC. É que o estudante pode usar a IA de um jeito que acaba com a própria aprendizagem.
A minha posição
A IA não vai acabar com o TCC. O TCC vai se transformar, como já vinha se transformando antes da IA existir.
O que a IA faz é revelar uma tensão que já existia: o TCC como cumprimento de requisito formal versus o TCC como experiência real de pesquisa. Essa tensão existia muito antes do ChatGPT. A IA só deixou ela mais visível.
Estudantes que usam a IA como atalho para não pensar vão cada vez mais ter dificuldade em espaços que exigem pensamento real. Mestrados, defesas, processos seletivos, posições que exigem análise.
Estudantes que usam a IA como ferramenta para pensar melhor, para organizar o que já sabem, para revisar o que já escreveram, para buscar referências que depois verificam, esses estudantes têm vantagem.
A distinção não é entre “usar” ou “não usar” IA. É entre usar com ou sem pensamento crítico.
O que ninguém conta: a IA revelou um problema antigo
O TCC mal feito não é invenção da IA. Trabalhos copiados de outros, comprados em sites de assessoria, montados às pressas na última semana antes da entrega: isso tudo existia muito antes de qualquer modelo de linguagem.
A IA não criou o problema. Ela deixou o problema mais barato, mais rápido e mais difícil de detectar. E isso força a academia a rever práticas que precisavam ser revistas há muito tempo.
Nesse sentido, a IA pode estar fazendo um favor que a academia não pediu: forçando uma conversa sobre o que o TCC realmente avalia e como avaliar isso de modo mais robusto.
Os cursos que resistem a essa conversa vão continuar com TCCs ruins, com ou sem IA. Os que abraçam a conversa podem sair dessa crise com instrumentos avaliativos mais honestos.
Como usar IA no TCC de forma que não te prejudique
Não é minha posição dizer “não use IA”. Essa posição é indefensável em 2026. Mas há formas de usar que protegem sua aprendizagem e formas que a comprometem.
Usos que fazem sentido: pedir para a IA explicar um conceito teórico que você leu em inglês e não entendeu bem. Pedir para revisar a gramática de um trecho que você escreveu. Usar IA para verificar se um argumento está claro antes de enviar para o orientador. Pedir exemplos de estruturas de parágrafo acadêmico para entender o padrão.
Usos que comprometem sua aprendizagem: pedir para a IA escrever sua justificativa. Usar texto gerado por IA sem ler, entender e reescrever com suas palavras. Aceitar referências sugeridas pela IA sem verificar se elas existem e dizem o que a IA afirma.
A diferença é simples: você está usando a IA para pensar melhor ou para não precisar pensar?
Se quiser ir mais fundo na questão do uso ético de IA na escrita acadêmica, tenho um material que trata exatamente disso no Método V.O.E..
O que isso muda na sua relação com o TCC
Se você está no processo do TCC agora, a pergunta útil não é “a IA vai acabar com o TCC?”. A pergunta útil é: o que eu estou realmente aprendendo enquanto faço esse trabalho?
Se a resposta for “estou aprendendo a pesquisar, a argumentar, a desenvolver um raciocínio sobre um problema real”, você está no caminho certo, com ou sem IA.
Se a resposta for “estou aprendendo a fazer a IA gerar um texto que pareça acadêmico”, aí sim você tem um problema. E o problema não é a IA.
Vamos lá: o TCC existe porque existe uma crença, ainda que imperfeita, de que o processo de fazer pesquisa muda quem pesquisa. Isso é o que vale. E isso é o que nenhuma ferramenta substitui.
Minha posição é essa. E estou disposta a defender.
Se você quiser conversar mais sobre como usar IA de forma responsável na sua vida acadêmica, o espaço certo é o blog. Tem muito conteúdo honesto por aqui sobre isso.