ABNT NBR 6023:2024: O Que Mudou nas Referências
Entenda as mudanças da norma ABNT NBR 6023:2024 para referências bibliográficas e como adaptar sua dissertação, tese ou TCC ao padrão atualizado.
Por que toda revisão da NBR 6023 causa confusão
Vamos lá. Toda vez que a ABNT atualiza alguma norma, acontece a mesma coisa: alguns professores ainda usam a versão velha, alguns orientadores já cobram a nova, e o estudante fica no meio sem saber qual seguir. Com a NBR 6023, que trata de referências bibliográficas, não é diferente.
A norma passou por atualizações em 2002, depois em 2018, e a versão mais recente é de 2024. Cada ciclo trouxe ajustes, especialmente no que diz respeito a fontes eletrônicas, o que faz sentido: o mundo digital muda mais rápido do que qualquer comitê técnico consegue acompanhar.
O ponto prático é este: a norma que vale é a que está em vigor no momento em que você entrega ou defende seu trabalho. Se o seu orientador não especificou, pergunte. Mas para quem está começando agora, as orientações de 2024 são o ponto de partida.
O que a NBR 6023 regula
A ABNT NBR 6023 estabelece os elementos essenciais e complementares para a elaboração e apresentação de referências bibliográficas. Ela não cobre citações no texto (isso é a NBR 10520), e sim o que vai na lista de referências no final do trabalho.
A norma se aplica a todos os tipos de documentos que você cita: livros, artigos de periódicos, capítulos, teses, dissertações, legislação, materiais audiovisuais, documentos eletrônicos, redes sociais, e por aí vai.
O objetivo é padronizar as referências para que o leitor possa localizar a fonte original. Isso parece óbvio, mas é o princípio que justifica cada detalhe da norma.
O que mudou na versão de 2024
A atualização de 2024 trouxe alguns ajustes relevantes, especialmente para quem produz trabalhos com forte base em fontes digitais. Os principais pontos são:
Tratamento de DOI mais claro. O DOI (Digital Object Identifier) passou a ter orientação mais objetiva: deve ser incluído como URL completa no final da referência, no formato https://doi.org/XXXXXX. Não se usa mais apenas o número do identificador. Isso resolve uma inconsistência comum em que cada trabalho formatava o DOI de um jeito.
Conteúdos em redes sociais e plataformas digitais. A versão atualizada incluiu orientações para referenciar publicações em plataformas como Instagram, YouTube, Twitter (agora X), podcasts e outros formatos digitais. O padrão base mantém: autor, título do conteúdo, plataforma, data de publicação, URL e data de acesso.
Prazo de acesso para fontes online. A indicação de data de acesso para páginas web sem estabilidade de conteúdo foi reforçada. Para artigos com DOI, a data de acesso pode ser dispensada, já que o DOI garante persistência do link. Para páginas sem versão estável (blogs institucionais, notícias, por exemplo), a data de acesso continua obrigatória.
Ajustes em formatos específicos. Houve revisões em exemplos de vídeos, entrevistas, documentos oficiais e materiais audiovisuais. O espírito é o mesmo: garantir que o leitor encontre o que você consultou.
Estrutura básica de uma referência: o que não mudou
Antes de focar no que é novo, vale lembrar o que permanece estável, porque a base da NBR 6023 não muda de versão para versão.
Uma referência é composta por elementos essenciais e complementares. Os essenciais são os que identificam o documento de forma inequívoca. Os complementares acrescentam informação útil mas não obrigatória.
Para um livro, os elementos essenciais são: autor, título, edição (se houver), local de publicação, editora e ano. Para um artigo de periódico: autor, título do artigo, nome do periódico, local, volume, número, páginas e data. Para uma dissertação ou tese: autor, título, ano, descrição do trabalho (tipo, nível e programa), instituição e local.
A ordenação das referências é alfabética pelo sobrenome do primeiro autor, ou por título quando não há autor identificado.
Exemplos práticos com a norma atualizada
Olha só como ficam algumas referências comuns no padrão 2024:
Artigo com DOI:
SILVA, J. A.; FERNANDES, M. R. Escrita científica em programas de pós-graduação: desafios contemporâneos. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 28, n. 3, p. 45-62, 2023. https://doi.org/10.1590/S1413-24782023000300004
Artigo sem DOI, acesso eletrônico:
CARVALHO, L. T. Metodologias qualitativas em educação. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 52, n. 184, p. 88-104, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/exemplo. Acesso em: 10 mar. 2026.
Livro:
MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. Fundamentos de metodologia científica. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2022.
Capítulo de livro:
RODRIGUES, P. H. Análise qualitativa em ciências da saúde. In: MINAYO, M. C. S. (org.). Pesquisa social. 30. ed. Petrópolis: Vozes, 2023. cap. 3, p. 68-89.
Tese de doutorado:
CAVALCANTI, R. M. Produção acadêmica e identidade docente em programas de pós-graduação stricto sensu. 2021. Tese (Doutorado em Educação) — Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.
Vídeo no YouTube:
CANNEL NOME. Título do vídeo. Publicado em: 15 jan. 2025. 1 vídeo (18 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XXXXXXXX. Acesso em: 5 abr. 2026.
Publicação em rede social:
NOME, A. B. [Descrição do conteúdo]. [S. l.]: Instagram, 3 mar. 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/p/XXXX/. Acesso em: 5 abr. 2026.
Erros comuns ao formatar referências ABNT
Mesmo quem já conhece a norma comete alguns deslizes. Os mais frequentes:
Usar ponto final após o URL. A orientação da norma é não colocar ponto após o endereço eletrônico, para não gerar confusão sobre o endereço terminar ali ou continuar.
Misturar negrito e itálico. O título de um livro deve estar em itálico. O título de um artigo vai sem destaque tipográfico, entre aspas ou sem nada. Não negrito.
Esquecer a data de acesso em fontes sem DOI. Para qualquer página web sem versão estável, a data de acesso é obrigatória.
Usar “et al.” sem critério. A norma orienta que “et al.” é usado quando houver mais de três autores. Com até três autores, todos devem ser mencionados.
Colocar “Disponível em:” sem URL completa. O endereço precisa ser funcional e completo, com http:// ou https://.
Como saber qual versão da norma minha instituição exige
A regra prática é simples: consulte o manual de normalização da sua instituição. A maioria das universidades disponibiliza esse documento no site da biblioteca. Alguns programas de pós-graduação têm normativas próprias que especificam qual versão da ABNT adotar.
Se o manual não for claro, pergunte ao seu orientador. Se o orientador também não souber, procure a biblioteca acadêmica. Eles geralmente sabem.
Uma dica: gerenciadores de referências como o Zotero e o Mendeley têm estilos ABNT que são atualizados pela comunidade. Mas esses estilos nem sempre acompanham imediatamente cada nova versão da norma. Vale conferir se o estilo instalado está na versão mais recente e checar manualmente os pontos onde a norma mudou.
Se você usa o Método V.O.E. na sua produção acadêmica, a fase de Revisão é o momento ideal para passar por todas as referências e verificar a aderência à norma vigente. Deixar essa checagem para o final, junto com outras revisões, é mais eficiente do que corrigir referências enquanto ainda está escrevendo o texto.
A lógica por trás da norma
Faz sentido? A ABNT NBR 6023 pode parecer burocrática quando você está formatando a décima referência de um capítulo. Mas a lógica central é sólida: permitir que qualquer leitor, em qualquer lugar, encontre o documento que você consultou.
Com fontes digitais, isso fica mais desafiador. Páginas somem, links quebram, conteúdo muda sem aviso. O DOI resolve parte desse problema para artigos científicos. Para outros formatos digitais, a data de acesso é o recurso que sinaliza ao leitor “é isso que eu vi, nessa data, nesse endereço”.
Não é perfeito. Mas é o que temos, e conhecer as regras ajuda a produzir trabalhos que resistem ao escrutínio formal e facilitam a vida de quem os lê depois.