ABNT NBR 6023: O Que Mudou nas Referências Bibliográficas
Entenda as mudanças na norma ABNT NBR 6023 para referências bibliográficas e o que isso significa na prática para o seu TCC, dissertação ou artigo.
Referências na ABNT: a parte que todo mundo adia
Vamos lá. Formatação de referências é uma das tarefas mais universalmente odiadas da vida acadêmica. Não porque seja impossível — é porque as regras são muitas, os casos específicos são intermináveis, e o prazo de entrega costuma estar próximo quando você resolve fazer a lista de uma vez.
A NBR 6023 é a norma da ABNT que rege como as referências bibliográficas devem ser formatadas. Entender o que ela exige — e o que mudou na versão mais recente — é o que separa uma lista de referências bem feita de uma cheia de inconsistências que o revisor ou a banca vão apontar.
Esse post explica o que é a norma, o que mudou na versão de 2018, e como aplicar os pontos mais importantes na prática.
O que é a NBR 6023 e para que serve
A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) produz normas para padronizar procedimentos em diversas áreas. No contexto acadêmico, as normas mais relevantes são: a NBR 14724 (formatação do trabalho), a NBR 10520 (citações no texto) e a NBR 6023 (referências bibliográficas).
A NBR 6023 define como cada tipo de documento deve ser referenciado: quais elementos precisam estar presentes, em qual ordem e como formatados. Sem ela, cada pesquisadora criaria seu próprio formato — o que tornaria impossível a padronização de bases de dados e o reconhecimento de fontes entre pesquisas.
A versão atualmente vigente é a NBR 6023:2018, que substituiu a versão de 2002 depois de 16 anos. As mudanças foram significativas o suficiente para que referências formatadas conforme a versão antiga estejam incorretas segundo a atual.
O que mudou na versão de 2018
Negrito saiu
A versão de 2002 usava negrito no título do documento para destaque. A versão de 2018 eliminou o negrito. O título pode ser destacado em itálico, negrito ou sublinhado — mas a convenção que prevaleceu nas universidades brasileiras é o itálico.
Isso parece detalhe, mas é o tipo de inconsistência que aparece quando você usa referências de fontes diferentes sem checar.
Elementos digitais e DOI
A versão de 2018 incorporou de forma mais sistemática a referenciação de documentos digitais. O DOI (Digital Object Identifier) passou a ser elemento obrigatório quando disponível. A URL completa e a data de acesso são exigidas para documentos acessados exclusivamente online.
O formato correto para indicar data de acesso é: “Disponível em: URL. Acesso em: DD mês AAAA.”
Localidade do editor não é mais obrigatória para documentos antigos sem essa informação
Quando a localidade do editor não está disponível, usa-se a expressão “sine loco” abreviada como “[S.l.]”. Quando o editora não está identificada, usa-se “[s.n.]”. Quando ambas estão ausentes, “[S.l.: s.n.]”.
Isso já existia, mas a versão de 2018 trouxe mais clareza sobre quando e como usar essas convenções.
Supressão de autores
Quando a lista de autores é longa (mais de três autores), a norma permite usar apenas o primeiro autor seguido de “et al.” — mas na versão de 2018, todos os autores podem ser listados também. O critério virou uma escolha do autor do trabalho, desde que mantida a consistência.
Como referenciar os tipos mais comuns
Livro (obra com autoria)
O formato básico é:
SOBRENOME, Nome. Título do livro: subtítulo. Edição. Local: Editora, Ano.
Exemplo: MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014.
Artigo de periódico
SOBRENOME, Nome. Título do artigo. Nome do periódico, Local de publicação, volume, número, páginas, mês e ano.
Para artigos online, acrescenta-se: DOI ou URL e data de acesso.
Dissertação ou tese
SOBRENOME, Nome. Título. Ano. Tipo de trabalho (Mestrado em…) — Programa, Instituição, Cidade, Ano.
Exemplo: SILVA, Ana Paula. A produção científica em pós-graduação. 2022. Dissertação (Mestrado em Educação) — Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2022.
Capítulo de livro
SOBRENOME DO AUTOR DO CAPÍTULO, Nome. Título do capítulo. In: SOBRENOME DO ORGANIZADOR, Nome (org.). Título do livro. Local: Editora, Ano. p. primeira-última página.
Esse é um dos tipos que mais gera erro, especialmente a confusão entre autoria do capítulo e autoria do livro.
Documento online e sites
SOBRENOME, Nome (se houver). Título da página ou documento. Local: Nome do site, data de publicação (se disponível). Disponível em: URL completa. Acesso em: DD mês AAAA.
Legislação
BRASIL. Lei n. XXXX, de DD de mês de AAAA. Ementa da lei. Diário Oficial da União, Brasília, DF, data, Seção X, p. XX.
O que a norma não resolve
A NBR 6023 estabelece o padrão geral, mas situações específicas exigem interpretação. Quando você encontra um documento sem autoria clara, um ebook sem DOI, um podcast acadêmico, ou uma postagem de mídia social usada como fonte, a norma oferece princípios, mas não um modelo exato para cada caso.
Nesses casos, o critério é fornecer os elementos que permitiriam ao leitor localizar a fonte — autoria (quando identificável), título, data, e forma de acesso. A consistência dentro do trabalho é tão importante quanto seguir a norma: se você escolheu um formato para um tipo de documento, mantenha para todos os documentos daquele tipo.
Casos que a norma não cobre diretamente
Algumas fontes surgidas com a internet e com novos formatos de publicação não têm um modelo exato na NBR 6023. Nesses casos, os princípios gerais da norma se aplicam: incluir os elementos que permitem ao leitor localizar a fonte.
Postagens em redes sociais (usadas como fonte primária de pesquisa): Inclua o nome do autor ou perfil, o conteúdo da postagem (entre aspas se for texto curto), a plataforma, a data de publicação e o link de acesso com data de acesso.
Podcasts e vídeos acadêmicos: Tratados como documentos audiovisuais. Os elementos principais são: autor ou responsável, título do episódio ou vídeo, nome do programa ou canal, duração (quando relevante), plataforma, data e link de acesso.
Preprints e repositórios: Como arXiv, bioRxiv e SciELO Preprints. Seguem a lógica de artigo de periódico eletrônico, com indicação de que é preprint (ainda não revisado por pares) — o que é importante para a transparência científica.
Conjuntos de dados (datasets): Cada vez mais usados como fontes primárias em pesquisas. Inclua o autor ou organização responsável, o nome do conjunto de dados, o repositório onde está hospedado, a data de publicação ou atualização, o DOI ou URL e a data de acesso.
Em todos esses casos, a consistência dentro do trabalho é fundamental: decida um formato para cada tipo e use o mesmo em todas as ocorrências.
Ferramentas que ajudam
Gerenciadores de referência como Zotero e Mendeley têm estilos ABNT disponíveis e podem automatizar boa parte da formatação quando os dados da fonte são inseridos corretamente. O problema mais comum é que os metadados importados automaticamente — via DOI, ISBN ou importação de PDFs — às vezes chegam incompletos ou incorretos.
Usar essas ferramentas como base e revisar cada referência manualmente é o caminho mais eficiente: você ganha velocidade na geração, mas não abre mão da revisão de qualidade.
Por que isso importa mais do que parece
Referências bem formatadas não são formalismo burocrático. Elas permitem que quem lê seu trabalho localize e verifique as fontes que você usou. Isso é parte do que torna a ciência verificável.
Além disso, uma lista de referências cheia de inconsistências sinaliza descuido — e isso afeta a percepção do trabalho como um todo. Não é justo que a qualidade da pesquisa seja julgada pela formatação, mas é o que acontece.
Conhecer a norma e aplicá-la com consistência é uma das partes mais mecânicas — e por isso mesmo mais gerenciáveis — do trabalho acadêmico. Com o padrão claro, é possível verificar referência por referência e garantir que a lista está correta antes de entregar.