Abstract: Como Escrever um Resumo Científico de Qualidade
Aprenda a escrever um abstract eficaz para artigos, teses e dissertações. Estrutura, elementos obrigatórios, erros comuns e exemplos comentados.
O abstract é a primeira e às vezes única coisa que o leitor vai ler
Olha só. Antes de abrir um artigo, o pesquisador lê o abstract. Antes de decidir baixar uma tese, ele lê o resumo. Antes de citar um estudo, muitas vezes ele precisa do abstract para avaliar se vale a leitura completa.
Isso significa que um abstract mal escrito pode fazer com que sua pesquisa seja ignorada, mesmo que o estudo seja excelente. E um abstract bem escrito funciona como um convite: resume o essencial de forma que o leitor certo diz “preciso ler esse trabalho por inteiro”.
Este guia vai te mostrar como escrever um abstract que cumpre essa função.
Os elementos obrigatórios de qualquer abstract
Independentemente da área, da revista ou do tipo de trabalho, um abstract eficaz precisa responder a quatro perguntas:
1. Qual é o problema ou objetivo? Por que este estudo existe? O que motivou a pesquisa? Essa informação contextualiza o leitor e sinaliza a relevância.
2. Como foi feito? Qual foi o desenho metodológico? Quem foram os participantes (ou quais foram os dados)? Que procedimentos principais foram usados? Essa parte deve ser suficiente para o leitor avaliar o rigor sem precisar ler o texto completo.
3. O que foi encontrado? Os resultados principais. Não todos os resultados, os mais importantes em relação ao objetivo. Dados concretos quando possível.
4. O que isso significa? A conclusão principal ou implicação mais relevante. O que o estudo contribui para a área?
Esses quatro elementos precisam estar presentes, nessa ordem lógica, em 150 a 250 palavras.
Abstract estruturado versus não estruturado
A maioria dos periódicos de ciências da saúde, biomédicas e psicologia exige o abstract estruturado, com subtítulos explícitos:
- Objetivo: (às vezes “Background/Contexto” + “Objetivo”)
- Métodos: (ou “Materiais e Métodos”)
- Resultados:
- Conclusão: (ou “Conclusões e Implicações”)
Esse formato facilita a leitura rápida, especialmente em bancos de dados como PubMed, e torna mais difícil omitir um elemento essencial.
Em humanidades, ciências sociais, educação e algumas áreas de engenharia, o abstract não estruturado é mais comum. Você escreve um texto corrido que cobre os mesmos elementos, mas sem divisões visíveis. Exige mais domínio de síntese porque a estrutura precisa estar implícita.
Verifique as normas do periódico ou programa onde vai submeter. Quando não há especificação, o não estruturado é aceito nas duas vertentes.
Como escrever o abstract passo a passo
Passo 1: Escreva o abstract por último
O abstract descreve o que o trabalho faz, e você só sabe o que o trabalho faz depois de tê-lo escrito. Escrever o abstract antes é trabalho perdido porque você vai reescrever depois de qualquer alteração relevante no texto.
Escreva o trabalho completo. Depois escreva o abstract.
Passo 2: Responda as quatro perguntas em frases separadas
Antes de redigir o abstract final, anote uma resposta direta para cada pergunta:
- Qual é o problema/objetivo? (1-2 frases)
- Como foi feito? (2-3 frases)
- O que foi encontrado? (2-3 frases)
- O que isso significa? (1-2 frases)
Esse rascunho vai ter mais palavras do que o limite. Tudo bem. Você vai comprimir depois.
Passo 3: Comprima sem perder substância
Olhe para cada frase e pergunte: “essa informação é necessária para que o leitor avalie o estudo?” Se não for, corte. Se for, comprima.
Algumas técnicas de compressão:
- Substituir “o objetivo desta pesquisa foi investigar” por “investigou-se” ou “este estudo investigou”
- Eliminar qualificadores desnecessários: “muito importante”, “extremamente relevante”
- Usar termos técnicos da área (que o leitor certo vai entender) em vez de explicações longas
Passo 4: Verifique se o abstract é autocontido
Leia o abstract isolado, como se nunca tivesse lido o trabalho. As informações fazem sentido sem precisar do texto completo? Se você menciona “o grupo experimental” sem ter explicado que o estudo tem grupos, há uma lacuna.
O abstract deve funcionar como uma unidade independente.
Passo 5: Ajuste para o idioma e a audiência
Se o abstract vai em inglês (o que é exigido na maioria dos programas de pós-graduação brasileiros), não use tradução automática sem revisão cuidadosa. Termos técnicos têm equivalentes específicos em inglês que podem não ser a tradução literal.
Se você domina bem o inglês, escreva o abstract direto em inglês em vez de traduzir do português. O resultado tende a ser mais natural.
O que não colocar no abstract
Citações: Abstract não cita. As informações precisam ser apresentadas como conclusões do estudo, não como referências a outros autores.
Abreviações não explicadas: Se você precisar usar uma abreviação, defina na primeira ocorrência, mesmo no abstract. O leitor pode não conhecê-la.
Informações que não estão no texto: O abstract não é lugar para conclusões que você não chegou a desenvolver no trabalho.
Promessas que o estudo não cumpre: “Este estudo vai revolucionar…” quando o trabalho é uma pesquisa exploratória inicial vai irritar qualquer revisor com experiência.
Linguagem excessivamente técnica sem necessidade: O abstract deve ser acessível para um especialista da área. Não precisa ser popularizado, mas jargão sem função comunicativa específica obscurece mais do que impressiona.
Exemplos comentados
Abstract fraco: “Este trabalho trata da relação entre ansiedade e desempenho acadêmico em estudantes de pós-graduação. Foram realizadas entrevistas e verificou-se que há relação entre os dois. Isso é importante para a área.”
Problemas: não especifica o tipo de estudo, número de participantes, tipo de análise. O resultado é vago (“há relação”). A conclusão não diz o que, especificamente, é importante.
Abstract mais forte: “Este estudo investigou associações entre sintomas de ansiedade e desempenho acadêmico em pós-graduandos. Por meio de estudo transversal com 142 estudantes de mestrado e doutorado de uma universidade federal brasileira, aplicou-se a Escala de Ansiedade de Beck e uma medida de desempenho acadêmico baseada em autorrelato e avaliação de pares. Análise de correlação revelou associação negativa significativa entre ansiedade moderada a severa e desempenho (r = -0,47, p < 0,001). Alunos com sintomatologia elevada relataram maior dificuldade de concentração e maior frequência de procrastinação. Os resultados apontam para a necessidade de serviços de saúde mental integrados às políticas de pós-graduação.”
Esse abstract especifica: quem, como, quantos, o que encontrou (com dado numérico), e o que significa.
Abstract de dissertação e tese: especificidades
Dissertações e teses costumam ter abstract mais longo do que artigos, chegando a 350 palavras em alguns programas. A estrutura é a mesma, mas há espaço para:
- Contextualizar melhor o campo teórico em que o estudo se insere
- Detalhar um pouco mais a metodologia
- Apresentar mais de um resultado principal
Muitos programas exigem o resumo em português e o abstract em inglês como documentos separados. Nesse caso, não são traduções mecânicas um do outro: podem ter ênfases ligeiramente diferentes dependendo do leitor esperado.
Palavras-chave: o que vem depois do abstract
A maioria dos periódicos e programas de pós-graduação exige de 3 a 6 palavras-chave após o abstract. Elas têm função de indexação em bases de dados, não de complementar o abstract.
Escolha termos que representem os conceitos centrais do estudo, que outros pesquisadores usariam para buscar trabalhos sobre esse tema. Evite repetir palavras do título (redunda no sistema de busca) e prefira termos padronizados pelos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) ou pelo Tesauro da área.
Fechando: o abstract como teste de clareza
Aqui vai uma forma diferente de pensar sobre o abstract: ele é um teste do quanto você mesmo entende o que fez.
Quando você consegue explicar seu estudo em 200 palavras de forma que um especialista da área entenda o problema, o método, os resultados e as conclusões, você demonstra que tem controle sobre a própria pesquisa.
Quando você não consegue comprimir porque “é complicado demais para caber no resumo”, o problema quase sempre não é o tamanho do resumo. É que ainda falta clareza sobre o que o estudo realmente fez e o que encontrou.
O abstract é a última coisa que você escreve e é um bom diagnóstico do estágio em que está o trabalho. No Método V.O.E., usamos essa lógica desde o início: clareza sobre o que você está fazendo antes de escrever, não depois.