Anglicismo na Pesquisa: Pensar em Inglês Pra Quê?
Por que a academia brasileira está cada vez mais anglicizada, o que isso diz sobre colonialismo epistêmico e quando o inglês faz ou não faz sentido na pesquisa.
Quando o inglês virou sinônimo de seriedade
Olha só uma cena comum na academia brasileira: uma pesquisadora defende sua tese sobre educação quilombola no sertão baiano. A pesquisa é excelente, rigorosa, com implicações reais para políticas públicas locais. A banca a parabeniza. E um dos primeiros conselhos do orientador depois da defesa? “Agora você precisa publicar isso em inglês.”
Precisa mesmo?
Existe uma pressão crescente na academia brasileira para que tudo seja anglicizado. Não apenas publicações, mas a própria forma de pensar a pesquisa. Conceitos que têm equivalentes precisos e consolidados em português viram empréstimos anglófonos porque soam mais científicos. Textos são redigidos num inglês pasteurizado que parece mais um Google Translate corrigido do que escrita acadêmica de verdade. E quando alguém questiona, a resposta vem rápida: “é assim que funciona o campo”.
Mas vale a pena parar e perguntar: funciona para quem?
A lógica por trás da pressão
A pressão pelo inglês na academia não caiu do céu. Ela tem uma estrutura de incentivos bem definida.
Os programas de pós-graduação no Brasil são avaliados pela CAPES usando um sistema que, historicamente, valorizou mais publicações em revistas internacionais do que em revistas nacionais. Revistas internacionais de alto impacto, na maioria das áreas, são anglófonas. Quem publica em inglês no exterior tem mais pontos no Qualis. Quem tem mais pontos no Qualis tem mais financiamento, mais bolsas, mais prestígio.
A conta fecha. O problema é que essa conta foi montada com premissas que fazem sentido em algumas áreas e não fazem sentido em outras.
Para pesquisa em física de partículas, neurociência computacional, bioquímica molecular: sim, o campo é global, o inglês é o idioma compartilhado, publicar internacionalmente faz sentido científico e não apenas estratégico.
Para pesquisa em educação do campo, políticas públicas de saúde indígena, história oral do Brasil, linguística de línguas brasileiras em risco de extinção: publicar em inglês em revista estrangeira não é aproximar a pesquisa do seu campo. É afastá-la das pessoas que precisam dela e daquelas que poderiam contribuir.
O anglicismo como sintoma
O uso excessivo de termos em inglês dentro de textos em português é um sintoma de algo maior. Não é só preguiça ou esnobismo. É a materialização de uma hierarquia epistêmica que coloca o conhecimento produzido no Norte Global como referência e o conhecimento produzido aqui como derivativo, subsidiário, sempre em busca de validação externa.
Quando uma pesquisadora escreve “stakeholders” onde caberia “partes interessadas”, ou “feedback” onde caberia “retorno”, ou “empoderamento” (esse anglicismo já tão incorporado que parece nativo), ela está operando dentro de uma lógica que equipara prestígio científico com proximidade linguística ao inglês.
Isso não é neutro. É uma escolha com consequências.
A mais imediata é a exclusão. Textos acadêmicos em português que misturam inglês gratuitamente são menos acessíveis para quem tem inglês limitado, o que no Brasil ainda é a maioria da população, incluindo muitos dos sujeitos das próprias pesquisas.
A menos óbvia é a limitação do pensamento. Quando você pensa em conceitos que só existem em inglês, sem tradução possível ou sem esforço de tradução, você está importando junto um conjunto de pressupostos epistemológicos que podem ou não ser adequados para o que você está estudando.
Quando o inglês faz sentido de verdade
Isso não é um argumento contra publicar em inglês. Publicar em inglês tem valor real quando o objetivo é dialogar com um campo que é genuinamente internacional.
Se você pesquisa metodologias de análise de dados genômicos, o campo relevante é global e o inglês é o idioma de trabalho desse campo. Faz sentido publicar em inglês, participar de conferências internacionais, usar os termos técnicos na sua forma original quando não há tradução estabelecida.
Se você pesquisa práticas pedagógicas em escolas quilombolas no Pará, o campo primário é brasileiro. Publicar em inglês pode ter valor estratégico para sua carreira acadêmica dentro do sistema de incentivos atual. Mas se a única versão da sua pesquisa é em inglês, você tomou uma decisão sobre quem pode acessar o seu trabalho. Isso merece ser reconhecido como escolha, não naturalizado como obrigação.
Faz sentido?
Traduzir ou não traduzir: onde a linha é razoável
Existe uma distinção que ajuda a pensar esse problema de forma mais precisa: há termos que precisam ser importados do inglês porque não têm equivalente em português, e há termos que são importados por hábito ou por sinalizar pertencimento a um campo.
Na primeira categoria estão termos técnicos de campos onde o desenvolvimento conceitual aconteceu principalmente em inglês e a tradução perderia precisão. “Software”, “hardware”, certos termos de biologia molecular, nomenclaturas de protocolos de pesquisa internacionais. Aqui, o anglicismo é funcional.
Na segunda categoria estão palavras como “approach”, que poderia ser “abordagem”. “Framework”, que poderia ser “quadro teórico” ou “estrutura analítica”. “Gap”, que poderia ser “lacuna”. “Outcome”, que poderia ser “resultado”. “Engagement”, que poderia ser “engajamento” (que sim, já é um anglicismo incorporado, mas pelo menos está em português).
Usar o termo em inglês nesses casos não torna o texto mais preciso. Torna o texto mais exclusivo. E a pergunta que vale fazer é: a quem você quer que seja acessível?
O problema das métricas e o que muda
Há uma boa notícia nessa discussão, que raramente é mencionada: as métricas de avaliação da CAPES estão mudando. Nas últimas revisões do Qualis, houve reconhecimento de que a desvalorização automática de periódicos brasileiros e em português era um problema, e alguns ajustes foram feitos.
Não está resolvido. A pressão pelo inglês e pela publicação internacional ainda é muito forte, especialmente em áreas com histórico de avaliação mais rígida. Mas o debate existe, está avançando, e pesquisadores que argumentam pela relevância da produção em português têm cada vez mais base para defender essa posição.
Isso importa para você porque significa que publicar em boas revistas brasileiras, em português, com impacto real, não é necessariamente uma escolha ruim para a carreira. Depende da área, do programa, do momento. Mas a dicotomia “inglês = prestígio / português = irrelevância” está sendo questionada de dentro da própria academia.
O paradoxo da pesquisa que não chega onde precisa
Tem um paradoxo interessante que raramente é discutido abertamente: a pesquisa sobre populações vulneráveis brasileiras é frequentemente inacessível para essas populações.
Pesquisas sobre saúde de comunidades ribeirinhas publicadas em inglês em revistas europeias. Estudos sobre violência de gênero no Brasil disponíveis apenas atrás de paywalls em inglês. Análises sobre impactos de políticas públicas em periferias urbanas que chegam a pesquisadores australianos antes de chegar a gestores municipais brasileiros.
Não estou dizendo que esses estudos não deveriam existir em inglês. Estou questionando se deveriam existir só em inglês, e se os pesquisadores que os produzem estão refletindo sobre essa escolha ou apenas seguindo o caminho de menor resistência dentro do sistema de incentivos.
O que isso tem a ver com a sua pesquisa de mestrado
Se você está no mestrado ou doutorado e lendo isso, provavelmente já sentiu essa pressão. “Você precisa publicar em inglês”, “esse periódico tem Qualis A”, “no exterior eles já estão discutindo isso há anos”.
Minha posição é a seguinte: publique em inglês quando fizer sentido para a sua pesquisa. Publique em português quando fizer sentido para a sua pesquisa. E, se possível, faça os dois.
O que não aceito é a equiparação automática entre “publicar em inglês” e “fazer pesquisa de qualidade”. Pesquisa de qualidade é pesquisa rigorosa, relevante, honesta, com impacto real. O idioma é um meio, não um fim.
A academia brasileira produz ciência excelente. Parte dela precisa chegar ao mundo em inglês. Mas parte dela precisa, urgentemente, chegar ao Brasil em português. E a gente não pode continuar fingindo que essas são escolhas equivalentes dentro de um sistema que recompensa uma delas muito mais que a outra.
Pensar em inglês pra quê? Para ser mais rigoroso, talvez. Para ter mais impacto na realidade que você está estudando, provavelmente não.
Essa tensão não tem uma resposta fácil. Mas ela merece ser nomeada, discutida, e levada em conta quando você toma decisões sobre para onde vai o seu trabalho.