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Artigo Científico Pode Usar Primeira Pessoa? Entenda

A resposta honesta sobre o uso da primeira pessoa em artigos científicos: quando é permitido, quando é preferido e por que a norma está mudando.

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A primeira pessoa no artigo científico: uma discussão que precisa de honestidade

Poucas perguntas sobre escrita acadêmica geram tanto conflito quanto essa. E a maior parte do conflito vem de uma confusão entre convenção e regra.

Primeira pessoa em artigos científicos é um recurso de escrita cuja aceitação varia por área do conhecimento e por normas do periódico ou programa. Não existe norma da ABNT que vede essa escolha. A restrição que muita gente escuta de orientadores é uma convenção disciplinar, não uma regra oficial.

De onde vem a ideia de que a primeira pessoa é proibida

A tradição de evitar a primeira pessoa nos textos científicos vem de uma concepção particular de objetividade: a ideia de que o conhecimento científico deve ser impessoal, universal, independente do pesquisador que o produziu.

Dentro dessa lógica, dizer “eu analisei os dados” seria inadequado porque introduz o sujeito num texto que deveria ser sobre o objeto. A solução foi a voz passiva: “os dados foram analisados”.

Essa convenção ainda é dominante em muitas áreas, especialmente nas ciências exatas, biológicas e da saúde no Brasil. Não está errada dentro dessas tradições. Mas é uma escolha, não uma obrigação universal.

O que a APA diz (e por que isso importa)

A American Psychological Association, responsável pelo sistema de referências mais usado internacionalmente nas ciências humanas e sociais, recomenda o uso da voz ativa e da primeira pessoa em textos acadêmicos.

O argumento da APA é direto: a voz ativa é mais clara, mais direta e mais honesta sobre quem realizou cada ação. “Nós coletamos os dados entre março e julho de 2025” é mais informativo do que “os dados foram coletados entre março e julho de 2025”, porque indica que os próprios autores realizaram a coleta.

A APA também aponta que a voz passiva excessiva pode criar ambiguidades problemáticas em pesquisas com múltiplos agentes. Quem analisou os dados? Quem conduziu as entrevistas? Com a primeira pessoa, isso fica claro.

Primeira pessoa do singular ou do plural?

Quando o artigo tem um único autor, o uso é “eu”. Quando tem dois ou mais autores, o uso é “nós”.

Um erro comum é usar “nós” como plural de modéstia, o pesquisador solitário se referindo a si mesmo como “nós” para soar mais científico. Esse uso é considerado inadequado tanto pela APA quanto por muitos editores de revistas internacionais.

Quando a primeira pessoa é mais frequentemente usada

O uso da primeira pessoa tende a ser mais comum em determinadas situações e seções do artigo.

Na descrição de procedimentos metodológicos: “Conduzimos entrevistas semiestruturadas com 20 participantes” é mais claro do que a versão na voz passiva.

Na discussão: quando o pesquisador está interpretando dados, posicionando seu argumento ou comparando com outros estudos, o “eu argumentei que…” ou “nós sugerimos que…” deixa explícito que é uma posição autoral, não um fato estabelecido.

Em artigos de perspectiva, opinião e revisão: a primeira pessoa é quase sempre preferível porque esses textos são, por natureza, o ponto de vista do autor.

Em relatos de experiência: a primeira pessoa é normalmente o padrão.

Quando a terceira pessoa ainda é mais adequada

Algumas situações ainda chamam a terceira pessoa ou a voz passiva.

Quando você descreve um procedimento amplamente padronizado na sua área e o foco é no procedimento, não em quem o realizou: “A análise estatística foi conduzida com o software SPSS 28.0”.

Quando o estilo da revista exige. Revistas indexadas publicam suas instruções aos autores com diretrizes de estilo. Se a instrução diz “use a terceira pessoa”, use a terceira pessoa. Não é hora de discutir convenções.

Quando o programa de pós-graduação tem uma norma clara. Se o manual do programa estabelece o uso da terceira pessoa, siga o manual, e questione formalmente se discordar.

A consistência é mais importante que a escolha

Um texto que mistura “eu realizei” com “foi realizado” e “o pesquisador executou” dentro do mesmo parágrafo parece confuso e mal revisado.

A orientação mais prática é: escolha uma abordagem antes de começar a escrever e mantenha-a ao longo do texto. A consistência transmite profissionalismo. A inconsistência, independentemente de qual “regra” você está seguindo, passa impressão de descuido.

O que diz o Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente)

Uma das premissas do Método V.O.E. é que escrever bem envolve fazer escolhas conscientes, não seguir regras cegamente. O uso da primeira ou da terceira pessoa é uma dessas escolhas.

O que importa é que a escolha serve ao texto, que ajuda o leitor a entender quem fez o quê, qual é a posição autoral e onde está a contribuição do pesquisador. Clareza é o critério, não tradição.

O que fazer na prática

Se você está escrevendo um artigo e não sabe qual abordagem usar, siga esta ordem de prioridade:

  1. Consulte as normas da revista onde pretende submeter. A maioria das revistas internacionais tem instruções claras sobre estilo.
  2. Consulte o orientador ou as normas do programa.
  3. Leia artigos já publicados naquela revista ou naquele programa. O padrão dos textos publicados é sempre o melhor guia prático.

E se após tudo isso ainda houver liberdade de escolha, prefira a clareza. Use a primeira pessoa quando ela torna o texto mais direto e honesto sobre quem fez o quê.

Para continuar

A página de recursos tem materiais sobre formatação, redação acadêmica e outros aspectos do artigo científico. E se quiser aprofundar na discussão sobre escrita acadêmica com clareza, o Método V.O.E. foi desenvolvido justamente para isso.

A convenção por área de conhecimento

A prática varia bastante conforme a disciplina. Vale conhecer o padrão da sua área antes de tomar qualquer decisão.

Nas ciências humanas e sociais, o uso da primeira pessoa singular é amplamente aceito. Em história, filosofia, educação, comunicação e sociologia, o pesquisador é entendido como sujeito situado, alguém com perspectiva, posição e comprometimento intelectual. Omitir o “eu” nessas áreas às vezes obscurece justamente o que importa: a autoria de uma interpretação.

Nas ciências da saúde, como medicina, enfermagem e fisioterapia, a norma ainda tende à terceira pessoa ou à voz passiva, especialmente em ensaios clínicos e estudos quantitativos. A ideia é que o protocolo deve ser replicável independentemente de quem o executou. Ainda assim, nas seções de discussão e limitações, a primeira pessoa aparece com mais naturalidade.

Nas ciências exatas e tecnológicas, o plural majestático (“desenvolvemos”, “propusemos”, “observamos”) é muito comum, mesmo quando há apenas um autor. Essa convenção funciona como um marcador de communidade científica, não de grandiosidade. Você não está dizendo que é grande; está dizendo que fala como parte de um grupo.

Nas ciências biológicas e ambientais, a variação é maior ainda: depende do periódico, do orientador, da subárea. Artigos de ecologia e biologia molecular seguem convenções diferentes.

O ponto é que não existe uma resposta universal. Existe a convenção da sua área, do seu programa, da sua revista. E saber qual é essa convenção já é metade da resposta.

O que a ABNT diz sobre isso

A resposta curta: a ABNT não regulamenta a questão diretamente.

As normas mais usadas, NBR 14724 (trabalhos acadêmicos), NBR 6022 (artigos científicos) e NBR 6028 (resumos), estabelecem estrutura, formatação, citações e referências. Não há prescrição sobre uso de primeira ou terceira pessoa.

O que costuma aparecer em manuais de pós-graduação é uma recomendação derivada de interpretação institucional, não de norma técnica. Quando o coordenador do programa diz “a ABNT manda escrever na terceira pessoa”, está provavelmente interpretando uma convenção da área como se fosse norma obrigatória.

Isso não significa que a recomendação institucional deva ser ignorada. Significa que ela pode ser questionada com base em evidências, artigos publicados em boas revistas da área usando primeira pessoa, quando a rigidez não fizer sentido para o texto.

Dito isso, em contexto de avaliação, a banca e o orientador têm a última palavra. Não vale a pena tomar uma posição ideológica sobre isso quando o que está em jogo é aprovação.

Dicas práticas para manter consistência

Independentemente de qual abordagem você escolher, consistência é inegociável.

Se optar pela primeira pessoa do singular: Use “realizei”, “analisei”, “observei”, “proponho” de forma consistente. Evite alternar com “o pesquisador realizou” no meio do texto.

Se optar pelo plural de modéstia: Use “realizamos”, “analisamos”, “observamos” mesmo em artigo solo. Essa é uma convenção estabelecida, não é mentira, é marcador estilístico.

Se optar pela voz passiva: Use “foi realizado”, “foram analisados”, “observou-se” de forma consistente. O reflexivo (“analisou-se”) é forma válida e elegante de evitar a voz passiva tradicional.

Sinais de inconsistência que aparecem na revisão:

  • Mudança de pessoa entre seções (introdução na primeira, metodologia na terceira)
  • Mistura de voz passiva e ativa no mesmo parágrafo
  • Uso do “a autora” ou “o pesquisador” para se referir a si mesmo enquanto também usa “eu” em outras passagens

A dica prática: antes de submeter, faça uma busca por “eu”, “nós”, “foi”, “foram” e “pesquisador” no documento. Isso revela inconsistências rapidamente.

Quando revisar e atualizar

Se você escreveu sua dissertação na terceira pessoa por orientação do programa e agora vai adaptar para artigo de revista internacional, provavelmente precisará revisar a voz ao longo do texto. Essa transição, de dissertação para artigo, envolve não só cortar conteúdo, mas também ajustar o tom e a pessoa verbal conforme o público-alvo.

O mesmo vale para relatórios de pesquisa que viram artigos, ou pré-prints que são submetidos depois para revisão por pares. Verifique sempre as normas do veículo de destino antes de fazer qualquer ajuste.

A escrita acadêmica boa é aquela que serve ao leitor. E o leitor, na maioria dos casos, agradece quando sabe exatamente quem fez o quê, seja pela escolha da primeira pessoa, seja pela clareza das atribuições no texto.

Perguntas frequentes

É permitido usar a primeira pessoa em artigos científicos?
Sim, o uso da primeira pessoa em artigos científicos é aceito e, em muitas áreas, recomendado. Organizações como a APA e muitas revistas científicas internacionais incentivam o uso de 'eu' e 'nós' para maior clareza e responsabilidade autoral. A proibição da primeira pessoa é uma convenção, não uma regra universal.
Qual a diferença entre usar 'eu realizei' e 'foi realizado' em artigos?
A diferença é de clareza e responsabilidade. 'Eu realizei' indica que o próprio autor executou a ação. 'Foi realizado' (voz passiva sem sujeito) oculta quem fez o quê, o que pode criar ambiguidade em trabalhos coletivos ou multietapa. A American Psychological Association recomenda a voz ativa por ser mais clara.
Meu orientador proíbe o uso da primeira pessoa. O que faço?
Siga a orientação do seu orientador ou da revista onde pretende publicar. As regras variam por área, programa e periódico. O que importa é a consistência: escolha uma abordagem e mantenha-a ao longo do texto, em vez de misturar voz ativa e passiva sem critério.

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