Artigo científico: quantas páginas deve ter de verdade?
O tamanho do artigo científico não é fixo: depende do periódico, da área e do tipo de estudo. Saiba o que realmente define o número de páginas.
A pergunta que não tem uma resposta simples
Todo semestre alguém pergunta: quantas páginas deve ter um artigo científico? E a resposta honesta é: depende. Não é evasão. É o que é.
Artigo científico não tem tamanho universal porque as normas variam por periódico, por área do conhecimento e pelo tipo de estudo. O que existe são padrões que se repetem dentro de cada área e cada formato de publicação. Conhecer esses padrões evita retrabalho.
A pesquisadora que termina o artigo e só então vai checar as instruções aos autores do periódico vai frequentemente descobrir que precisa cortar um terço do texto. Isso acontece o tempo todo. Não porque a pesquisa é ruim, mas porque o tamanho foi definido pela intuição, não pela norma.
O que os periódicos realmente pedem
A maioria dos periódicos não especifica número de páginas, mas sim número de palavras. Isso é importante porque o número de páginas varia conforme a formatação: fonte, espaçamento, margens e número de figuras influenciam muito. Dois artigos com 5.000 palavras podem ter 10 ou 18 páginas dependendo do template.
Para artigos originais de pesquisa, os limites mais comuns ficam entre 3.000 e 8.000 palavras, excluindo referências. Algumas revistas pedem entre 4.000 e 6.000 palavras. Revisões sistemáticas costumam ter limite maior, entre 5.000 e 10.000 palavras, porque a seção de métodos é mais extensa. Cartas ao editor e comunicações breves ficam entre 500 e 1.500 palavras.
Essas são tendências, não regras universais. O único número que importa é o do periódico específico que você está mirando. As instruções aos autores (geralmente chamadas de “Author Guidelines” ou “Instructions for Authors”) têm essas informações e precisam ser lidas antes de começar a escrever, não depois.
Por que a área do conhecimento muda tudo
Um artigo de humanas e um artigo de bioquímica têm estruturas diferentes, extensões diferentes e convenções diferentes, mesmo sendo ambos artigos científicos.
Nas ciências exatas e biológicas, o formato IMRaD (Introdução, Métodos, Resultados e Discussão) é quase universal. A introdução é curta e direta, os métodos são detalhados o suficiente para replicação, os resultados apresentam dados sem interpretação, e a discussão interpreta. Artigos nesse formato costumam ser mais enxutos, entre 3.000 e 5.000 palavras.
Nas ciências humanas e sociais, o referencial teórico tem peso maior e a discussão é mais longa. O argumento precisa ser construído com mais contextualização histórica, conceitual e bibliográfica. Artigos nessas áreas costumam ser mais longos, entre 6.000 e 10.000 palavras, e alguns periódicos aceitam artigos ainda maiores quando o tema exige.
Nas áreas de saúde, o tipo de estudo influencia muito: ensaio clínico randomizado tem checklist próprio (CONSORT), estudo observacional tem outro (STROBE), revisão sistemática tem o PRISMA. Cada um define o que precisa estar reportado e isso afeta a extensão.
O que cada seção precisa ter
Em vez de pensar em páginas totais, é mais útil pensar no que cada seção precisa para ser adequada. O tamanho final vai emergir disso.
A introdução deve contextualizar o problema, mostrar o que já se sabe, indicar a lacuna que o estudo endereça e terminar com objetivo claro. Não precisa ser um capítulo de revisão bibliográfica. Entre 400 e 800 palavras costuma ser suficiente para a maioria dos artigos originais.
A seção de métodos precisa ser detalhada o suficiente para que outro pesquisador possa replicar o estudo. Não para que seja longa. Se o método é simples, a seção é curta. Se é complexo, é longa. Cortar métodos para economizar espaço é um erro que compromete a avaliação pelos revisores.
Os resultados apresentam o que foi encontrado, sem interpretar. Tabelas e figuras contam aqui: uma boa tabela pode substituir dois parágrafos de texto. Se o periódico permite material suplementar, dados secundários podem ir para lá.
A discussão interpreta os resultados à luz da literatura, aponta limitações e indica implicações. É a seção que mais varia em tamanho entre áreas. Em ciências exatas, costuma ser relativamente curta. Em humanas, pode ser a seção mais longa.
O que infla o artigo sem precisar
Alguns padrões de escrita aumentam o tamanho do artigo sem adicionar conteúdo. Reconhecê-los ajuda quando você está tentando entrar no limite.
Introduções que viram mini-revisões bibliográficas são comuns em primeiros artigos. A pesquisadora leu muito, quer mostrar o que leu, e o resultado é uma introdução de 2.000 palavras para um artigo que deveria ter 4.000 no total. A introdução é para enquadrar o problema, não para exibir a leitura.
Discussões que repetem os resultados antes de discuti-los também são frequentes. “Os resultados mostraram X. Isso indica que X.” Sim, os resultados já mostraram X na seção anterior. A discussão parte de onde os resultados chegaram, não recomeça.
Redundância entre seções é outro padrão. O que está no resumo não precisa estar palavra a palavra na introdução. O que está nos métodos não precisa ser recontado na discussão.
Cortar esses padrões não empobrece o artigo. Em geral melhora a leitura e a clareza do argumento.
Uma técnica útil quando o artigo está acima do limite é imprimir e circular cada parágrafo da discussão com uma pergunta: esse parágrafo adiciona algo novo ao argumento, ou reformula o que já foi dito? Parágrafos que reformulam sem adicionar costumam ser os primeiros candidatos ao corte. Não é perda: é edição.
Como o Método V.O.E. organiza a escrita do artigo
O Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) tem aplicação direta na escrita de artigos, especialmente na fase de Organização.
Antes de escrever qualquer seção, definir a estrutura: qual é o argumento central, o que cada seção vai fazer para sustentar esse argumento, e qual a extensão estimada de cada parte com base nas normas do periódico alvo. Esse mapa não precisa ser longo, mas precisa existir. Pesquisadoras que começam a escrever sem ele costumam descobrir no meio do processo que a distribuição ficou desequilibrada.
A Execução Inteligente na escrita do artigo é saber que nem toda seção precisa ser escrita na ordem em que vai aparecer. Métodos costuma ser mais fácil de escrever primeiro porque é mais descritivo. Resultados vêm a seguir. Introdução e discussão ganham quando são escritas com o resto do artigo em mãos.
O tamanho certo é o que o periódico aceita
Não existe virtude em artigo longo. Não existe problema em artigo curto se ele cobre o que precisa cobrir. O critério é adequação ao periódico e completude do relato, não número de páginas.
Uma observação prática sobre artigos para TCC no formato de artigo: a maioria das instituições define o tamanho nas normas do trabalho de conclusão, geralmente entre 10 e 20 páginas com formatação ABNT. Esse limite é interno à instituição e não tem relação direta com o limite de periódicos. Se a intenção é submeter o artigo do TCC para um periódico depois, vai precisar adaptar para as normas da revista.
A melhor pergunta antes de começar a escrever não é “quantas páginas?” mas sim “qual periódico estou mirando e o que ele pede?”. Com essa resposta, o tamanho se resolve sozinho.
Se você quer entender o processo completo de escrita e submissão de artigos, a página /recursos tem materiais sobre cada etapa, do rascunho à resposta aos revisores.
Perguntas frequentes
Quantas páginas deve ter um artigo científico?
Artigo de TCC tem tamanho diferente do artigo de doutorado?
O que fazer quando o artigo está maior do que o limite do periódico?
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