Artigo em Ciências Agrárias: Como Escrever e Publicar
Guia prático para escrever e publicar artigos científicos em Ciências Agrárias: estrutura, periódicos nacionais e internacionais, e dicas de revisão.
O campo que alimenta o país — e precisa de ciência para isso
Olha só: Ciências Agrárias é uma das áreas com maior volume de pesquisa aplicada no Brasil. Faz sentido — somos uma potência agrícola, com um agronegócio que movimenta parcela expressiva do PIB e com desafios sérios de sustentabilidade, mudanças climáticas e segurança alimentar que precisam de respostas científicas.
Mas produzir ciência de qualidade nessa área tem suas especificidades. A maioria dos artigos é baseada em experimentos — com delineamento, tratamentos, coleta de dados, análise estatística. E publicar bem exige entender não só a parte técnica do campo, mas também as convenções da escrita científica da área.
Este post é para quem está no mestrado ou doutorado em Agrárias e quer entender como estruturar e publicar um bom artigo. Vamos do básico ao que realmente faz diferença.
A estrutura padrão: IMRAD adaptado ao campo
Artigos em Ciências Agrárias seguem a estrutura IMRAD (Introduction, Material and Methods, Results and Discussion), com algumas adaptações comuns na área.
Título. Deve ser descritivo o suficiente para indexação, mas conciso. Inclua: a cultura ou espécie estudada, a variável principal e, quando relevante, as condições do experimento. Exemplo: “Produtividade de soja sob diferentes doses de adubação nitrogenada em Latossolo Vermelho no Cerrado”. Longo? Sim. Mas indexável e preciso.
Resumo/Abstract. 150-250 palavras. Deve conter: objetivo, delineamento, principais resultados e conclusão. Em Agrárias, o resumo costuma ser mais sintético que em ciências sociais — o leitor quer saber rápido o que foi feito e o que foi encontrado.
Introdução. Apresenta o problema, justifica a relevância do estudo, revisa brevemente a literatura e termina com o objetivo claro. Em Agrárias, a introdução costuma ser mais curta que em outras áreas — 3 a 5 parágrafos bem construídos são suficientes. O foco é justificar a lacuna que seu trabalho preenche.
Material e Métodos. Esta é a seção mais crítica em Agrárias. A reprodutibilidade é central. Você precisa descrever: localização geográfica e período do experimento, caracterização do solo (tipo, análise química e física), condições climáticas do período, delineamento experimental (blocos casualizados, fatorial, etc.), tratamentos e cultivares utilizados, práticas de manejo adotadas, variáveis avaliadas com os métodos de coleta e análise, e análise estatística usada (software, testes). Se um pesquisador em outra região não consegue replicar seu experimento a partir da sua descrição de Material e Métodos, essa seção está incompleta.
Resultados e Discussão. Alguns periódicos separam, outros integram. A tendência em Agrárias é integrar, apresentando cada resultado já contextualizado com a literatura. Use tabelas e figuras para apresentar os dados — o texto deve interpretar, não repetir o que já está na tabela. Compare seus resultados com os da literatura, discuta as possíveis explicações para o que foi encontrado e aponte limitações.
Conclusão. Curta e objetiva. Responde diretamente ao objetivo enunciado na introdução. Não é lugar para novidades — é o fechamento do argumento.
Referências. Cada periódico tem seu estilo. As revistas brasileiras geralmente usam ABNT; as internacionais variam entre APA, Vancouver e estilos próprios. Confira as normas do periódico alvo antes de formatar.
Material e Métodos: onde a maioria erra
Vou gastar mais tempo nessa seção porque é onde a maioria dos artigos em Agrárias apresenta problemas.
O erro mais comum é ser vago onde precisava ser preciso. “O experimento foi conduzido em solo argiloso” não é suficiente. Qual solo, qual textura, qual análise química? “Foram aplicados fungicidas conforme necessidade” não permite replicação. Quais fungicidas, quais doses, em quais estádios fenológicos?
Outro erro frequente: omitir o delineamento experimental. Delineamento de Blocos Casualizados com 4 repetições? Esquema fatorial 4x3? Isso precisa aparecer com clareza, junto com o número de repetições e o tamanho das parcelas.
A caracterização do local também é frequentemente negligenciada. Em agricultura, o ambiente importa muito. Dois experimentos com o mesmo tratamento podem ter resultados bem diferentes em solos ou climas distintos. Por isso a caracterização detalhada é parte do resultado, não apenas contexto.
Por fim: cite todos os métodos analíticos com referência. Se você usou o método de Kjeldahl para determinação de nitrogênio, cite a metodologia padrão. Se usou um kit de ELISA para diagnóstico viral, cite o fabricante e o protocolo.
A análise estatística — e como apresentar
A maioria dos artigos em Agrárias usa ANOVA (análise de variância) com algum teste de comparação de médias. Os mais comuns são Tukey (mais conservador, indica diferença mínima significativa) e Scott-Knott (agrupa médias, evita erros de tipo I). Duncan é usado, mas está saindo de moda em periódicos mais rigorosos.
Ao apresentar os resultados:
- Tabelas devem ter cabeçalho completo com as unidades e os tratamentos
- Médias seguidas de mesma letra na coluna ou linha não diferem pelo teste escolhido ao nível de significância indicado
- Indique sempre o CV (coeficiente de variação) — em Agrárias, CVs acima de 30-35% podem levantar questões sobre a qualidade experimental
- Para variáveis contínuas, gráficos de regressão com equação e R² são padrão
Se você usa R, os pacotes ExpDes.pt e agricolae facilitam bastante a análise de experimentos com delineamentos clássicos.
Escolhendo o periódico certo
Isso faz diferença enorme no tempo de publicação e na visibilidade do seu trabalho.
Para publicação nacional, os principais são:
- Pesquisa Agropecuária Brasileira (PAB) — da Embrapa, abrange toda a área, acesso livre
- Revista Brasileira de Ciência do Solo — especializada, alta credibilidade
- Ciência Rural — ampla, boa visibilidade, acesso livre
- Scientia Agricola — publicação em inglês, vinculada à USP-ESALQ, boa indexação
Para publicação internacional, avalie o escopo com cuidado. Um artigo sobre adubação de cana-de-açúcar no Brasil pode ter boa aderência em Field Crops Research ou Sugar Tech, mas não necessariamente em Nature Plants (que é mais mecanístico/molecular).
Verifique o Qualis CAPES da revista (para fins de produção acadêmica) e o fator de impacto (para visibilidade internacional). Para o mestrado, publicar em um bom periódico nacional com Qualis A2 ou B1 já é uma excelente contribuição.
Evite predadores: revistas que cobram APC (Article Processing Charge) sem peer review real. Se um periódico aceitou seu artigo em menos de uma semana com revisores que só elogiaram, desconfie.
O processo de submissão
Cada periódico tem normas específicas — leia com atenção antes de submeter. Pontos que sempre aparecem:
- Extensão máxima de palavras ou páginas
- Número máximo de tabelas e figuras
- Estilo de referências
- Formato de submissão (arquivo Word, PDF, LaTeX?)
- Declaração de conflito de interesse e ética na pesquisa (com número de aprovação, quando necessário)
Em Agrárias, a maioria dos experimentos com animais exige aprovação do CEUA (Comitê de Ética no Uso de Animais). Alguns experimentos com aplicação de produtos fitossanitários também exigem registros específicos. Verifique isso antes de submeter — a ausência dessas informações pode resultar em rejeição imediata.
Da tese ao artigo: o processo de condensação
Se você está transformando um capítulo de dissertação ou tese em artigo, o principal trabalho é condensar. Um capítulo de dissertação tem 40-60 páginas; o artigo correspondente provavelmente terá 10-15 páginas no periódico.
O que fica de fora geralmente é: parte da revisão teórica (que no artigo vira introdução concisa), resultados secundários ou exploratórios que não sustentam o argumento central, e discussões periféricas.
O que nunca pode sair: Material e Métodos completo, todos os resultados que embasam a conclusão, e as referências que fundamentam a discussão.
Esse exercício de condensação é bom — obriga você a identificar o que é essencial no trabalho. Se você não consegue dizer em dois parágrafos qual o problema, o que foi feito e o que foi encontrado, a articulação do trabalho precisa ser revista.
Faz sentido? Ciências Agrárias tem muito a contribuir para os desafios alimentares e ambientais do país. Publicar bem é parte de garantir que essa contribuição chegue a quem precisa.