Artigo rejeitado pelo periódico: e agora?
Rejeição de artigo é parte normal da carreira científica, não sinal de fracasso. Entenda como processar o feedback, o que fazer a seguir e como transformar rejeição em progresso.
A parte da carreira científica que ninguém conta antes
Quem decide entrar na vida acadêmica e publicar ciência frequentemente aprende uma versão romantizada do processo: você faz a pesquisa, escreve o artigo, submete, revisores dão feedback construtivo, você revisa, publica. Contribuição feita.
A versão real é diferente. Rejeições fazem parte do processo de publicação de qualquer pesquisador. Pesquisadores que você admira, com currículos que parecem impecáveis, têm gavetas cheias de rejeições que não aparecem no Lattes.
Isso não é segredo guardado. É simplesmente algo que raramente é dito com clareza durante a formação.
Os tipos de rejeição e o que cada um significa
Entender o tipo de rejeição que você recebeu é o primeiro passo para saber o que fazer.
Desk rejection
O artigo foi rejeitado pelo editor sem ser enviado para revisores. Geralmente acontece por uma razão prática: o artigo não está dentro do escopo do periódico, está fora do formato exigido, ou há um problema óbvio na qualidade que o editor identifica antes de sobrecarregar os revisores.
Desk rejection não significa necessariamente que o trabalho tem problema grave. Frequentemente significa que houve erro de alvo: o artigo foi submetido ao periódico errado para o tipo de trabalho que é.
Rejeição após revisão
O artigo foi avaliado por revisores e a decisão foi de não publicar. Aqui existe um espectro amplo: desde “rejeição com incentivo a resubmeter após revisões extensas” até “rejeição sem perspectiva de reapreciação neste periódico”.
Os comentários dos revisores, nesse caso, são o dado mais valioso da rejeição. Mesmo quando a decisão foi dura, o feedback sobre o que está faltando ou o que precisa melhorar é informação que pode transformar o artigo.
O que fazer nas primeiras horas
A rejeição chega por e-mail. Você lê. Dói.
Isso é normal. A pesquisa representou tempo, esforço, investimento emocional. Rejeição é uma resposta negativa a algo em que você se empenhou, e reagir com algum nível de frustração é humano.
O que você não deve fazer nas primeiras horas: responder ao editor com questionamentos ou contestações. Tomar qualquer decisão sobre o que fazer com o artigo. Tirar conclusões definitivas sobre a qualidade da pesquisa.
O que você deve fazer: fechar o e-mail e voltar mais tarde, quando a reação inicial passar.
Lendo o feedback com olhos de pesquisador
Depois que a reação emocional inicial assentou, chegou a hora de ler o feedback de forma analítica.
Algumas perguntas para guiar a leitura:
Há críticas ao problema de pesquisa ou à pergunta? Se sim, são válidas? Há argumentos nos comentários dos revisores que você não havia considerado?
Há críticas à metodologia? São questões de execução (você fez algo diferente do que deveria) ou de adequação (a metodologia não serve à pergunta)? A diferença tem implicações muito diferentes para o que precisa mudar.
Há críticas à apresentação e ao texto? Problemas de clareza, organização, tamanho? Esses são geralmente os mais fáceis de resolver.
Os revisores identificam algo que está faltando? Um aspecto da literatura que você não cobriu, uma limitação que você não reconheceu, uma análise adicional que fortaleceria as conclusões?
Decidindo o próximo passo
Com o feedback processado, você tem algumas opções:
Revisar e submeter ao mesmo periódico
Quando a rejeição veio com indicação de que o trabalho pode ser reconsiderado após revisões substanciais, e você concorda que as revisões pedidas melhorariam o artigo, vale considerar essa rota. Implica fazer revisões alinhadas aos comentários e uma carta de resposta detalhada explicando o que foi feito.
Revisar e submeter a outro periódico
Quando a rejeição foi definitiva ou quando você avalia que o periódico não é o mais adequado para o trabalho, o próximo passo é identificar outro periódico adequado e adaptar o artigo para ele. As revisões sugeridas pelos revisores do primeiro periódico, mesmo que o artigo não vá mais para lá, frequentemente melhoram o trabalho para onde ele for.
Revisar substancialmente antes de qualquer submissão
Quando o feedback indica problemas fundamentais que vão além de ajustes de apresentação, pode ser o caso de fazer uma revisão mais profunda antes de submeter a qualquer periódico. Isso é mais raro, mas acontece, especialmente em trabalhos mais complexos.
O que não fazer
Não envie o artigo sem modificações para outro periódico com a esperança de que outros revisores não verão os mesmos problemas. Problemas estruturais aparecerão para qualquer revisor competente.
Não abandone o artigo na gaveta por meses porque a rejeição foi dolorosa. O tempo de rejeição em rejeição é tempo em que o trabalho não está contribuindo para o campo. O artigo que nunca foi publicado não tem impacto.
Não personalize a rejeição. Os revisores estão avaliando o trabalho, não você. Feedback duro sobre um argumento não é julgamento sobre sua inteligência ou capacidade como pesquisador.
Rejeição como parte do processo, não exceção
Pesquisadores que publicam regularmente não são aqueles que não recebem rejeições. São aqueles que aprenderam a processar rejeições de forma produtiva: extrair o que é útil do feedback, fazer as revisões necessárias e continuar submetendo.
A persistência no processo de publicação, mais do que o talento excepcional, é o que distingue pesquisadores com currículo de publicações de pesquisadores que tentaram publicar algumas vezes e desistiram.
Para entender o processo de escolha de periódico, que pode reduzir rejeições por inadequação de escopo, o post sobre como escolher o periódico certo para o seu artigo vai aprofundar esse passo. E para quem está numa fase anterior e quer entender como transformar um TCC em artigo que tenha chances reais de publicação, o post sobre como transformar seu TCC em artigo científico oferece um guia prático.