Atlas.ti para Iniciantes: Tutorial Completo e Prático
Aprenda a usar o Atlas.ti do zero: criação de projetos, importação de dados, codificação e análise qualitativa passo a passo explicados com clareza.
Por que a maioria das pesquisadoras começa o Atlas.ti do jeito errado
Você abre o software pela primeira vez, vê uma interface cheia de painéis e abas, tenta criar um projeto, e em vinte minutos fecha tudo sem entender o que estava fazendo. Isso é quase universal entre quem começa sem uma introdução clara ao Atlas.ti.
Atlas.ti é um software de análise qualitativa de dados que permite importar documentos, entrevistas, vídeos e imagens, aplicar códigos a trechos específicos, criar relações entre esses códigos e construir interpretações organizadas a partir do material bruto. Você traz seus dados para dentro do software, marca os trechos relevantes e atribui significados a eles.
O problema não é o software. A maioria das pesquisadoras começa tentando usar o Atlas.ti como se fosse um editor de texto avançado, sem entender a estrutura de projeto que está por baixo. Esse equívoco gera horas de retrabalho.
A estrutura de projeto no Atlas.ti: o que você precisa entender primeiro
Antes de qualquer coisa, o Atlas.ti trabalha com o conceito de projeto (ou hermeneutic unit nas versões antigas). Um projeto é o container que guarda tudo: seus documentos, seus códigos, suas anotações e suas relações.
Essa é a distinção mais importante pra quem está começando: o Atlas.ti não salva arquivos individuais, ele salva projetos. Quando você importa um documento para o Atlas.ti, o software faz uma cópia interna desse documento dentro do projeto. Você pode alterar o arquivo original no seu computador que o Atlas.ti continua com a versão que foi importada.
Isso tem implicações práticas. Se você perceber que cometeu um erro nas transcrições depois de importar, precisa reimportar o documento corrigido. Não adianta editar o arquivo original e esperar que a mudança apareça no projeto.
A estrutura básica de um projeto no Atlas.ti tem três camadas que você vai usar desde o início. Os documentos são seus dados brutos: transcrições em Word ou PDF, arquivos de áudio, vídeos ou planilhas. Os códigos são os rótulos que você atribui a trechos específicos desses documentos, e é na criação e organização deles que a interpretação acontece. E os memos são anotações livres vinculadas ao projeto, não a um arquivo separado no seu computador. Pesquisadoras experientes usam memos o tempo todo. Quem ignora no começo chega na escrita sem conseguir reconstruir o raciocínio que a levou a determinado código.
Como criar seu primeiro projeto no Atlas.ti
Quando você abre o Atlas.ti pela primeira vez, o caminho mais direto é:
Clique em New Project na tela inicial e dê um nome descritivo ao projeto. Use algo que indique claramente o que é: “Pesquisa_Experiencia_Doutorandas_2025” é melhor do que “Pesquisa1”. Você vai abrir esse projeto dezenas de vezes, em contextos diferentes, e o nome precisa ser autoexplicativo.
Depois de criar o projeto, o próximo passo é importar os documentos. No painel esquerdo, procure a aba Documents e use o botão de adicionar. O Atlas.ti vai perguntar se quer adicionar os documentos à biblioteca interna ou apenas referenciar um caminho externo. Para projetos de pesquisa que você vai mover entre computadores ou compartilhar com orientadora, sempre escolha adicionar à biblioteca interna. O arquivo fica embutido no projeto e você não depende de caminhos de pasta que podem mudar.
Depois de importar, cada documento aparece listado no painel. Clique em um deles para abrir no editor central. É aqui que começa a codificação.
Como codificar: a parte que define sua análise
Codificar no Atlas.ti significa selecionar um trecho do documento e atribuir um código a ele. A mecânica é simples: selecione o texto com o cursor, clique com o botão direito e escolha Code. Você pode criar um código novo ou usar um já existente.
O que não é simples é decidir quais códigos criar e como nomeá-los. Esse é o trabalho intelectual da análise e o Atlas.ti não faz por você, mas pode facilitar bastante se você entender duas abordagens distintas:
Codificação indutiva: você começa sem lista de códigos predefinidos e vai criando à medida que o material sugere. O nome do código geralmente é próximo do que o participante disse, às vezes a frase literal da entrevista. Esse processo é chamado de codificação in vivo e é central na teoria fundamentada.
Codificação dedutiva: você parte de uma lista de categorias analíticas baseadas no seu referencial teórico e vai aplicando aos trechos. O código já existe antes de você ler o material; o trabalho é identificar onde no texto ele se aplica.
A maioria das pesquisas usa uma combinação dos dois. Você começa com algumas categorias do referencial e deixa o material criar outras que você não havia previsto. O Atlas.ti permite misturar os dois modos livremente.
Uma orientação prática: quando criar um código, escreva imediatamente um memo explicando o que aquele código significa e como você decidiu aplicá-lo. Isso parece excessivo quando você tem 5 códigos. Quando você chegar a 80, vai agradecer por ter feito desde o início.
Grupos de códigos: como organizar sem perder o controle
O problema que aparece em torno da terceira entrevista codificada é a proliferação de códigos. Você criou 40, alguns claramente se sobrepõem, e você não sabe mais o que cada um captura.
O Atlas.ti tem o recurso de Code Groups (grupos de códigos) que resolve essa situação. Um grupo é uma pasta lógica onde você reúne códigos com relação entre si. Você pode ter um grupo chamado “Estratégias de escrita” com os códigos “planejamento prévio”, “escrita contínua”, “revisão por seções”. Os grupos não mudam os códigos, apenas criam uma camada de organização.
Além dos grupos, o Atlas.ti permite criar redes de relações entre códigos (o recurso se chama Networks). Você pode indicar que um código está relacionado a outro, que um é subtipo de outro, que um contradiz outro. Essa funcionalidade é poderosa para análise temática e para apresentar resultados visualmente, mas é mais avançada. Na fase inicial, foque na criação e organização básica de códigos antes de ir para as redes.
Memos: o recurso que a maioria ignora
Os memos no Atlas.ti são diferentes das anotações que você escreve no Word. Eles ficam dentro do projeto, podem ser vinculados a documentos específicos, a trechos codificados, a códigos individuais, e são recuperáveis na fase de escrita.
Eu sugiro dois tipos de memo desde o início: o metodológico e o de código. O metodológico é uma entrada única que você vai atualizando ao longo do processo, registrando decisões sobre método, o que mudou na sua abordagem e por quê. É o diário de campo da análise. O de código fica vinculado a cada código relevante e explica o que aquele código captura, como você o diferencia de outros parecidos.
Tem um terceiro tipo que aparece naturalmente: quando você percebe algo importante durante a leitura, um padrão inesperado ou uma contradição entre entrevistas, você abre um memo e registra antes de esquecer. Esses memos acabam se tornando a base dos seus resultados.
A pesquisadora que usa memos sistematicamente chega na escrita dos resultados com a interpretação já organizada. A que pulou os memos chega na escrita tentando reconstruir o raciocínio a partir dos códigos soltos.
Buscas e relatórios: extraindo o que você codificou
Depois de codificar várias entrevistas, você vai querer recuperar todos os trechos de um determinado código de uma vez. No painel Code Manager, clique com o botão direito em qualquer código e escolha Browse Coded Segments. O software lista todos os trechos marcados com aquele código em todos os documentos do projeto.
Para exportar, o Atlas.ti gera relatórios em Word ou Excel. Você seleciona os códigos e o software monta uma lista com os trechos, identificação do documento e número da entrevista. Na prática, isso acelera muito a escrita dos resultados porque você não precisa caçar as citações manualmente no meio das transcrições.
O Query Tool, disponível nas versões mais recentes, permite buscas cruzadas: trechos codificados com dois códigos ao mesmo tempo, ou trechos que aparecem em um grupo de entrevistas mas não em outro. Para pesquisas comparativas entre perfis de participantes, essa função faz diferença.
Os erros mais comuns de quem está começando
Depois de acompanhar pesquisadoras usando o Atlas.ti, alguns padrões aparecem com regularidade:
- Criar códigos demais e organizá-los de menos: é fácil chegar a 150 códigos sem nenhum grupo, sem memos explicativos, sem hierarquia. Na fase de escrita, o material vira um labirinto. A solução é parar periodicamente, olhar para o que você tem e fazer uma limpeza: fundir os que se sobrepõem, criar grupos, renomear o que ficou vago.
- Importar documentos sem revisar as transcrições antes: o Atlas.ti vai codificar exatamente o que está escrito. Se a transcrição tem erros, os trechos codificados terão erros. Isso parece óbvio, mas muita pesquisadora descobre só na análise.
- Tentar usar o Atlas.ti para fazer a interpretação por você: o software organiza e recupera, mas quem interpreta é você. Pesquisadoras que ficam esperando que o software “encontre os temas” estão confundindo análise de conteúdo automatizada com análise qualitativa. Os temas emergem da sua leitura, não do agrupamento automático de palavras.
Como o Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução inteligente) se conecta ao uso do Atlas.ti
No Método V.O.E., antes de começar a codificar, é útil ter clareza sobre o que você está procurando nos dados. Isso não significa chegar com categorias fechadas, mas significa saber qual é a sua pergunta e o que conta como evidência relevante para responder a ela.
O Atlas.ti funciona muito melhor quando você chega com essa clareza. Sem ela, a tendência é criar códigos pra tudo que parece interessante e depois não saber distinguir o que é central do que é periférico.
Na etapa de Organização, o Atlas.ti tem mais a contribuir: criar grupos de códigos, escrever memos, construir redes de relações. É quando o software para de ser armazenamento e vira ferramenta analítica de verdade.
Faz sentido? O software não substitui o método, ele executa dentro de uma estrutura que você traz. Chegar no Atlas.ti sem uma lógica analítica definida é como usar o Excel sem saber o que você quer calcular.
Para começar hoje
Se você está no início e quer se familiarizar com o Atlas.ti sem pressão, comece com um único documento curto, talvez uma entrevista piloto ou um texto de campo. Não tente importar todas as entrevistas de uma vez. Explore a mecânica de codificação, crie 10 a 15 códigos, escreva alguns memos, exporte um relatório.
Quando essa mecânica estiver fluida, aí você importa o restante do material. O tempo gasto aprendendo o software com calma no começo economiza muito retrabalho depois.
O site oficial do Atlas.ti tem tutoriais em vídeo em inglês para cada versão. A comunidade no YouTube tem bastante material em português, de qualidade variável. Uma boa hora para assistir a esses tutoriais é depois de ter explorado o software por conta própria, porque aí você tem perguntas concretas e aproveita melhor o que está sendo explicado.
E se você está na fase de análise qualitativa da dissertação ou tese, vale conferir os recursos em /metodo-voe para entender como integrar a análise no processo de escrita sem deixar as duas partes do trabalho desconectadas.
Perguntas frequentes
O Atlas.ti é gratuito para estudantes?
Qual a diferença entre Atlas.ti e NVivo para análise qualitativa?
Posso usar o Atlas.ti para análise temática?
Leia também
Receba estratégias de escrita acadêmica direto no seu feed
Siga a Dra. Nathalia no YouTube e Instagram para conteúdo gratuito sobre o Método V.O.E.