Autorizar Publicação da Dissertação: Aberto ou Sigilo?
Como decidir se sua dissertação terá acesso aberto ou restrito no repositório, o que é embargo, quando faz sentido e o que você perde ao restringir.
Uma decisão que parece pequena e não é
Olha só: na hora de depositar a dissertação no repositório, tem uma pergunta que aparece no formulário e que muita gente responde sem pensar muito. A pergunta é, basicamente: você autoriza a divulgação pública deste trabalho?
As opções costumam ser: acesso aberto imediato, acesso restrito por determinado período (o embargo), ou sigilo indefinido em casos específicos.
A maioria das pesquisadoras não foi orientada a pensar sobre isso com cuidado. Marcam uma opção, mandam o formulário, e seguem em frente. Algumas marcam acesso aberto porque parece o mais natural. Outras marcam restrição porque alguém disse que “é melhor esperar para publicar artigos antes”.
Nenhuma dessas abordagens é necessariamente errada, mas nenhuma delas é bem fundamentada se você não entende o que está em jogo.
Esse post explica o que é cada opção, o que você ganha e o que você pode perder em cada uma, e como fazer essa decisão com mais consciência.
Acesso aberto: o padrão e o porquê
Acesso aberto significa que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo com acesso à internet, pode ler, baixar e usar sua dissertação. Sem senha, sem pagamento, sem aprovação.
Esse é o padrão recomendado por boa parte das políticas de ciência aberta, pelos órgãos de fomento públicos e pelas próprias universidades. A lógica é simples: pesquisa financiada com dinheiro público deve ser acessível ao público.
Além da dimensão ética, há uma dimensão estratégica. Trabalhos em acesso aberto são mais citados, mais lidos e mais fáceis de encontrar. Quando alguém pesquisa sobre o tema da sua dissertação, seu trabalho aparece nos resultados de buscas acadêmicas. Quando outros pesquisadores trabalham na área, têm acesso ao que você fez.
Uma dissertação que fica restrita por anos é uma dissertação que dificilmente vai ser citada. E a citação, no mundo acadêmico, é uma das formas principais de reconhecimento.
Se você está pensando em construir presença na sua área, o acesso aberto trabalha a seu favor.
Embargo: quando faz sentido e quando não faz
O embargo é uma restrição temporária. Você decide que o trabalho ficará inacessível por um período, tipicamente 6 meses, 1 ano ou 2 anos, e depois passa para acesso aberto.
Os casos em que o embargo tem sentido real são estes:
Quando você vai submeter artigos derivados para revistas que exigem ineditismo. Algumas revistas, especialmente na área de ciências exatas e biológicas, têm políticas que exigem que o material não tenha sido publicado antes, nem mesmo em repositório aberto. Nesses casos, o embargo protege a possibilidade de publicação naquele veículo específico.
Quando a dissertação contém dados de participantes de pesquisa que precisam de proteção adicional. Informações sensíveis sobre pessoas reais, mesmo que anonimizadas, às vezes precisam de um período maior de cuidado antes de ficarem totalmente públicas.
Quando há pesquisa com potencial de registro de patente. Se a pesquisa tem aplicação tecnológica com potencial comercial, o embargo protege o período de registro.
Esses são os casos legítimos. O que não é um caso legítimo para o embargo é o medo de que o trabalho não seja bom o suficiente. Esse medo é compreensível, mas embargar por insegurança significa esconder por anos um trabalho que passou pela avaliação da banca, o que é um desperdício de tempo e visibilidade.
Como verificar a política das revistas antes de decidir
Se a sua preocupação com o acesso aberto é a possibilidade de publicar artigos, a forma correta de tomar essa decisão é verificar a política de cada revista onde você pretende submeter, antes de decidir sobre o embargo.
A ferramenta mais usada para isso é o SHERPA/RoMEO, um banco de dados que reúne as políticas editoriais das principais revistas científicas em relação a autoarquivamento e repositórios. Você busca a revista pelo nome ou pelo ISSN e vê o que a política diz sobre manuscritos em repositórios institucionais.
O que você vai descobrir é que boa parte das revistas aceita versões previamente depositadas em repositórios institucionais, especialmente quando o artigo publicado representa um desenvolvimento substancial do conteúdo original. O “ineditismo” que as revistas exigem geralmente não é violado por uma dissertação em repositório aberto, especialmente quando você vai publicar apenas capítulos específicos como artigos e com análise mais aprofundada.
Mas isso varia. Há revistas que têm políticas mais restritivas. Por isso vale verificar antes de assumir.
Sigilo: o caso mais específico
O sigilo completo existe como opção em situações muito específicas. Pesquisas com informações estratégicas para o Estado, pesquisas envolvendo tecnologia sensível, ou pesquisas com dados classificados de instituições parceiras que exigem confidencialidade por contrato.
Esse não é o caso da esmagadora maioria das dissertações. Se você não se enquadra claramente em uma dessas situações, sigilo não é a opção para você.
O sigilo indefinido torna o trabalho praticamente invisível para o mundo acadêmico. Não pode ser citado, não pode ser acessado, não contribui para o campo. Em termos de construção de carreira, é como se a dissertação não existisse além da aprovação.
O que você perde ao restringir sem necessidade
Vale ser direta aqui: cada mês que uma dissertação fica em acesso restrito sem uma razão sólida é um mês de invisibilidade acadêmica.
Nos primeiros anos depois de concluída, uma dissertação está no seu pico de relevância. A pesquisa é recente, a metodologia é nova no contexto, as perguntas que você respondeu ainda estão vivas no campo. Esse é o momento em que mais pessoas vão encontrar e usar seu trabalho, se ele estiver disponível.
Depois de dois ou três anos com embargo, quando o trabalho finalmente abre, a janela de maior relevância já passou em parte. Artigos foram publicados por outras pessoas sobre temas similares. O campo se moveu.
Isso não significa que o trabalho perdeu valor. Significa que o momento de maior impacto possível pode ter passado.
Se você está construindo sua trajetória de pesquisa, especialmente se está pensando em carreira acadêmica, onde citações e visibilidade importam para seleções de bolsas e vagas, essa conta vale ser feita com cuidado.
A decisão é sua, com informação
Nenhuma dessas escolhas é universal. O que é certo para uma pesquisadora numa área específica pode não ser para outra.
O que muda quando você toma essa decisão com informação em vez de impulso ou ansiedade é que você consegue defender sua escolha. Você sabe o que está optando e por quê.
No Método V.O.E. trabalhamos esse tipo de decisão estratégica sobre valorização da produção científica, sobre como pensar a divulgação do próprio trabalho não como uma burocracia final, mas como parte da pesquisa em si.
Repositórios institucionais e visibilidade além da universidade
Depositar no repositório da sua universidade é o primeiro passo, mas não o único caminho para dar visibilidade à dissertação.
Plataformas como o BDTD (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações), mantida pelo IBICT, indexam automaticamente dissertações de muitas universidades brasileiras. Isso significa que quem pesquisa no BDTD pode encontrar seu trabalho mesmo que não conheça o repositório específico da sua instituição.
Há também o Open DOAR, diretório internacional de repositórios de acesso aberto, e a Scielo, que não indexa dissertações diretamente mas frequentemente recebe artigos derivados delas. Cada um desses ambientes tem audiências diferentes, e estar presente no maior número possível aumenta as chances de seu trabalho ser encontrado e usado.
Quando você escolhe acesso aberto no repositório da sua universidade, está automaticamente habilitando essa visibilidade ampliada. Quando você escolhe restrição sem necessidade, está fechando essas portas também.
Uma última coisa sobre essa decisão: conversar com seu orientador antes de definir é sempre uma boa ideia. Quem tem experiência na área conhece os hábitos das principais revistas do campo e pode te ajudar a avaliar se o embargo é realmente necessário para os seus planos específicos de publicação.
A dissertação que você passou anos construindo merece mais do que uma resposta marcada às pressas num formulário de depósito. Faz sentido?