Como É Revisar um Artigo como Parecerista
Entrar no lado de dentro da revisão por pares muda sua relação com o processo de publicação. Veja como funciona e o que ninguém te conta antes.
O outro lado da mesa de revisão
Vamos lá. Quando você submete um artigo, o processo de revisão parece uma caixa preta. O manuscrito entra, você espera semanas ou meses, e daí chega um documento com comentários de pessoas que você não sabe quem são, falando sobre o seu texto numa linguagem que pode parecer clínica ou, dependendo do dia, um pouco brutal.
O que muda quando você está do outro lado? Quando é você quem está com o manuscrito na tela e tem que decidir se ele merece ir adiante?
Fui parecerista pela primeira vez ainda no doutorado. Não sabia muito bem o que estava fazendo, levei muito mais tempo do que devia, e escrevi um parecer provavelmente longo demais. Mas essa experiência mudou permanentemente minha relação com o processo de publicação.
Como começa: o convite do editor
A maioria das revistas opera com um sistema em que o editor identifica pareceristas possíveis para cada manuscrito, com base na área de pesquisa declarada, nas publicações recentes e no histórico de revisões anteriores em plataformas como Publons ou ORCID.
Você recebe um e-mail. Geralmente tem título do artigo, área temática, e prazo para responder ao convite. Não recebe o manuscrito inteiro antes de aceitar. A ideia é que você decida se tem tempo e competência para revisar antes de ver o texto.
O que raramente fica explícito nesse convite: revisar artigos é trabalho voluntário, não remunerado, que consome horas reais da sua semana. Revistas com fins lucrativos ganham dinheiro com o sistema, enquanto pesquisadores revisam de graça. Essa é uma discussão importante na ciência aberta, mas não é sobre o que estou escrevendo agora.
O primeiro contato com o manuscrito
Quando você aceita e o manuscrito chega, a primeira leitura é diferente de tudo que você já leu como estudante ou pesquisadora.
Você não está lendo para aprender. Está lendo para avaliar. Isso ativa uma postura diferente: você busca coerência entre o problema declarado e a metodologia usada. Observa se os resultados respondem de fato às perguntas propostas. Verifica se as conclusões vão além do que os dados permitem afirmar. Repara em omissões que a autora provavelmente não percebe porque está perto demais do próprio texto.
É uma leitura que exige distância e, ao mesmo tempo, familiaridade suficiente com a área para saber o que está faltando. Não é simples.
A primeira coisa que eu faço é uma leitura rápida do artigo inteiro, do início ao fim, sem parar para anotar. Quero entender a estrutura geral, o argumento central, o que o texto tenta fazer. Só então volto ao início para a leitura detalhada com caneta na mão, digital ou física.
O que você efetivamente avalia
O escopo do parecer varia com a revista, mas de modo geral você avalia algumas dimensões centrais.
Pertinência e originalidade. O artigo contribui com algo novo para a área? Não precisa ser revolucionário, mas precisa ir além do que já foi publicado. Replicação com variações menores pode ser válida em algumas áreas, mas precisa ser justificada.
Qualidade metodológica. A metodologia é adequada para responder às perguntas do estudo? Se é uma pesquisa qualitativa, a fundamentação teórica está presente e é coerente com a análise? Se é quantitativa, os procedimentos estatísticos são apropriados? Há ameaças à validade que não foram discutidas?
Fundamentação na literatura. A revisão bibliográfica é atual e relevante? Há lacunas importantes que o artigo ignora? Referências clássicas da área foram citadas?
Clareza e coerência textual. Isso inclui estrutura, progressão do argumento, qualidade da escrita. Não é função do parecerista revisar gramática linha a linha, mas problemas sérios de clareza afetam a avaliação.
Adequação ao escopo da revista. Às vezes o artigo é bom, mas não é para aquela revista em específico. O editor precisa saber disso.
O que ninguém conta: a parte difícil
Aqui entra a parte que não aparece em nenhum tutorial de como ser parecerista.
Às vezes você recebe um artigo ruim. Metodologicamente fraco, conclusões infladas, revisão bibliográfica defasada ou superficial. E você precisa escrever sobre isso de um jeito que seja útil para a autora, mesmo que a recomendação final seja de rejeição.
Isso é genuinamente difícil. Você está criticando o trabalho de alguém que claramente investiu meses ou anos naquele texto. A tentação de ser brando existe. A tentação de ser desnecessariamente duro também. Encontrar o tom certo, que seja honesto e específico mas não condescendente, é uma habilidade que se desenvolve com o tempo.
Também existe a situação oposta: um artigo excelente de uma área adjacente à sua, mas que você não domina totalmente. Nesses casos, você precisa ser honesta com o editor sobre os limites do seu parecer.
E existe o conflito de interesses. Às vezes você reconhece o artigo de uma apresentação em congresso, ou suspeita de quem é a autora pela escrita, metodologia, ou referências. Às vezes você está revisando algo que compete diretamente com um artigo seu em revisão em outra revista. Todos esses casos precisam ser comunicados ao editor, e em alguns deles você deveria declinar a revisão.
Quanto tempo isso realmente leva
A expectativa das revistas é que o parecer chegue em 3 a 4 semanas. A realidade é que pareceristas são pesquisadores com outras obrigações, e atrasos acontecem.
Um parecer bem feito de um artigo de pesquisa original leva, na minha experiência, entre 5 e 8 horas. Isso inclui as duas leituras, as anotações, e a redação do parecer em si. Artigos mais curtos ou metodologicamente mais simples levam menos. Artigos longos com metodologia complexa levam mais.
Não é pouco. E é trabalho que não aparece no seu Lattes de forma direta, embora plataformas como Publons permitam que você registre as revisões e inclua no currículo.
O que a revisão me ensinou sobre minha própria escrita
Aqui está o ganho que ninguém menciona quando fala em tornar-se parecerista: ler criticamente o trabalho de outros pesquisadores muda a maneira como você escreve.
Você começa a ver seu próprio texto com outros olhos. Percebe quando está inflando conclusões além do que os dados sustentam. Repara quando a metodologia está descrita de forma imprecisa. Nota quando a revisão bibliográfica é rasa.
Depois das primeiras revisões que fiz, voltei para um artigo meu que estava em preparação e reescrevi a seção de discussão quase do zero. Não porque estava errada, mas porque percebi que estava fazendo exatamente o que eu havia criticado em outros artigos: afirmando mais do que os dados permitiam.
Essa é talvez a melhor formação prática em escrita científica que existe, mais do que qualquer curso.
Vale aceitar os convites?
Sim. Com alguns caveats.
Revise quando você tem tempo real para fazer bem. Um parecer apressado e superficial não ajuda ninguém, nem a autora do artigo, nem a revista, nem a área.
Revise dentro da sua competência. Se o artigo usa uma metodologia com a qual você não tem familiaridade suficiente para avaliar com segurança, avise o editor. Você pode recusar ou oferecer um parecer parcial com essa limitação explicitada.
Revise com generosidade. Não no sentido de aprovar tudo, mas no sentido de que um bom parecer, mesmo de rejeição, orienta o pesquisador sobre o que melhorar. Pareceres que apenas enumeram problemas sem indicar caminhos são legítimos, mas menos úteis.
E sim: registre suas revisões. Publons, Reviewer Credits, ORCID, todos permitem que você documente esse trabalho. Com o tempo, isso faz parte do seu perfil como pesquisadora.
Uma prática que vale mais do que parece
Revisar artigos parece um serviço à comunidade científica, e é. Mas é também uma prática de formação contínua que modifica como você pensa sobre pesquisa e sobre escrita.
Quando você está do outro lado da mesa, entende melhor por que alguns pareceres chegam com o tom que chegam. Entende o processo. Entende que por trás daquele documento há uma pessoa que também estava apertada de tempo, que tentou ser cuidadosa, que provavelmente quis ajudar mesmo quando o texto foi duro.
Isso não torna os pareceres ruins mais fáceis de engolir. Mas dá contexto. E contexto, na academia, é sempre útil.