Método

Como escrever a cover letter para periódicos científicos

A carta de submissão é o primeiro texto que o editor lê. Saiba o que incluir, o que evitar e como escrever uma cover letter que não prejudique seu artigo.

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O texto que o editor lê antes do seu artigo

Vamos lá. Você passou meses escrevendo um artigo, semanas revisando, e finalmente chegou ao momento da submissão. Preencheu os metadados no sistema do periódico, fez o upload do manuscrito, e então aparece um campo que muitos pesquisadores ignoram ou preenchem de qualquer jeito: a cover letter, a carta de submissão.

Essa carta não faz parte do artigo. Ela não vai para revisão. A maioria dos leitores do artigo nunca vai vê-la. Mas o editor vai.

E essa é a questão: o editor lê sua carta antes de decidir se o artigo vai sequer para revisão por pares, ou se vai ser rejeitado desk rejection, ou seja, sem sequer passar pelos revisores. Uma carta de submissão bem escrita não garante que o artigo será aceito. Mas uma carta mal escrita pode criar uma impressão desfavorável antes que o trabalho tenha qualquer chance.

O que é e o que não é a cover letter

A carta de submissão é uma comunicação direta entre você e o editor do periódico. Ela serve para contextualizar o manuscrito, apresentar sua relevância para o escopo do periódico e confirmar aspectos formais da submissão.

Ela não é um resumo do artigo. O editor já vai ler o abstract para isso. Não é uma lista das metodologias utilizadas. Não é uma declaração de que seu trabalho é o mais importante da área. E definitivamente não é um espaço para elogios ao periódico (“é com grande honra que submetemos este trabalho ao prestigioso Journal of…”).

A clareza sobre o que a carta não é ajuda a evitar os erros mais comuns, que geralmente vêm de tentar fazer ela fazer coisas que ela não deve fazer.

O que o editor precisa saber

O editor está processando dezenas ou centenas de submissões. Ele quer saber três coisas muito rapidamente ao ler sua carta: qual é o problema que o artigo aborda, por que o artigo é relevante para o escopo daquele periódico específico, e se há algum elemento formal que precisa de atenção especial.

A primeira parte, o problema e a contribuição, deve ser apresentada em dois ou três parágrafos curtos. Não há necessidade de descrever toda a metodologia ou apresentar os resultados. O foco é responder: o que estava faltando na literatura que este trabalho endereça?

A segunda parte, a relevância para o periódico, é onde muitos pesquisadores erram ao usar a mesma carta para submissões em periódicos diferentes. Se você está submetendo para um periódico específico, sua carta deve mencionar brevemente por que este periódico é o lugar certo para este trabalho. Não de forma genérica (“este periódico é muito respeitado na área”), mas de forma específica (“este periódico publica regularmente trabalhos sobre [tema] e este artigo contribui para esse debate”).

A terceira parte, os elementos formais, inclui a declaração de que o trabalho é original, de que não está em avaliação simultânea em outro periódico, e de que todos os autores aprovaram a versão submetida. Alguns periódicos pedem também declaração de conflito de interesse e fontes de financiamento, embora muitos tenham campos separados para isso no sistema.

A estrutura que funciona

Uma cover letter funcional geralmente tem esta organização:

Parágrafo de abertura. Apresenta o título do manuscrito, o tipo de trabalho (artigo original, revisão sistemática, relato de caso) e a afirmação de que está sendo submetido para avaliação naquele periódico específico. Sem excessos formais. Uma frase.

Parágrafo de contextualização. Descreve o problema abordado e onde o trabalho se situa na literatura. O que estava em aberto, o que este estudo investigou, qual é a contribuição principal. Dois a quatro parágrafos no máximo, dependendo da complexidade do trabalho.

Parágrafo de adequação ao periódico. Explica brevemente por que este trabalho pertence a este periódico, mencionando a linha editorial, o público ou temas frequentes do periódico que se conectam ao artigo.

Parágrafo final com declarações formais. Confirmação de originalidade, de não submissão simultânea, de aprovação de todos os autores. Se houver algo que o editor precisa saber por razões éticas ou de conflito de interesse, aqui é o lugar.

Sugestão de revisores, quando aplicável, pode aparecer como um parágrafo separado ou em campo específico do sistema.

O que evitar na carta de submissão

Algumas escolhas tornam a carta mais fraca ou passam uma impressão indesejada.

Exagero de importância. Afirmar que o trabalho é “único na literatura” ou “vai mudar o campo” sem evidência soa pretensioso e geralmente não corresponde à realidade. O trabalho pode ser muito bom sem ser revolucionário. Seja preciso.

Resumo completo do artigo. A carta não é o abstract. Se você está repetindo o abstract na carta, está desperdiçando espaço e tempo do editor.

Genericidade. Cartas que poderiam ser enviadas para qualquer periódico, sem nenhuma menção específica ao perfil editorial daquele periódico, são fáceis de identificar como cartas copiadas. Elas não criam nenhuma impressão positiva.

Tom excessivamente formal ou bajulador. “Tenho a honra e o privilégio de submeter” é um desperdício de espaço. Seja profissional, não servil.

Quando sugerir revisores e quando pedir exclusões

Muitos periódicos permitem que você sugira revisores potenciais para o seu artigo. Essa opção existe porque em áreas muito especializadas o editor pode não conhecer todos os especialistas adequados. Usar esse espaço de forma estratégica é legítimo e útil.

Para sugerir revisores, escolha pesquisadores que publicaram no mesmo tema, que não são seus coautores ou colaboradores diretos, e que não têm relação de orientação com você. Se você estiver em dúvida sobre conflito de interesse, pense: se esse revisor pudesse ver seu artigo antes da publicação, haveria algum problema prático ou ético? Se a resposta for sim, não sugira.

Você também pode, em alguns periódicos, pedir que certas pessoas não sejam convidadas como revisores. Isso é adequado quando há conflito de interesse real, uma disputa acadêmica pública, concorrência por financiamento no mesmo tema, ou qualquer situação em que a avaliação não possa ser imparcial. Nesse caso, explique brevemente o motivo. Não precisa ser detalhado; o editor vai entender.

Não abuse dessa opção. Uma lista de exclusão muito longa pode levantar questões sobre por que você tem tantos conflitos na área, e pode dificultar o trabalho do editor.

Sobre o comprimento

Uma cover letter eficiente tem entre uma e duas páginas, geralmente uma. Não precisa ser longa. Editores não querem ler uma carta longa antes de ler o artigo.

Se você se vê escrevendo três parágrafos só para explicar o contexto do trabalho, é sinal de que está escrevendo demais. Corte. O artigo inteiro está disponível para leitura, a carta não precisa compensar nenhuma lacuna.

Um detalhe que muita gente ignora

A carta de submissão deve ser revisada da mesma forma que o artigo. Erros de português, construções confusas e inconsistências formais na carta passam uma impressão ruim antes que o editor leia uma linha do manuscrito.

Isso pode parecer excessivo: “o editor vai julgar o artigo, não a carta”. Na prática, a carta é a primeira impressão do seu nível de cuidado e profissionalismo. Não porque editores sejam pedantes, mas porque uma carta descuidada sugere que o manuscrito pode ter recebido o mesmo tratamento.

O processo de submissão como um todo

A cover letter é um componente do processo de submissão, não um elemento isolado. O Método V.O.E. trata a fase de Execução, que inclui preparação para submissão, como uma etapa com critérios específicos de qualidade, não apenas de volume.

Se você quer ir além das questões de formato e entender o processo completo de publicação científica, desde a escolha do periódico até a resposta a revisores, os posts anteriores sobre como publicar seu primeiro artigo e como responder revisores cobrem essas etapas em detalhe.

A submissão de um artigo é uma comunicação profissional. A cover letter é a saudação dessa comunicação. Curta, clara e específica: é tudo o que ela precisa ser.

Perguntas frequentes

O que deve conter uma carta de submissão para periódico científico?
A cover letter deve conter: o título do artigo e sua natureza (artigo original, revisão, relato de caso); uma descrição breve do problema abordado e da contribuição do trabalho; uma declaração de que o manuscrito é original e não está sendo avaliado em outro periódico simultaneamente; confirmação de que todos os autores aprovaram a versão submetida; e, quando relevante, informações sobre conflito de interesse ou fontes de financiamento. Alguns periódicos têm campos específicos para isso no sistema online, mas a carta ainda é útil para contextualizar o trabalho.
Carta de submissão de artigo é obrigatória?
Depende do periódico. Alguns exigem explicitamente no sistema de submissão. Outros deixam como opcional. Mesmo quando opcional, enviar uma carta bem escrita é recomendável, pois é a única oportunidade que você tem de falar diretamente com o editor antes que ele leia o manuscrito. Uma carta ausente ou descuidada pode gerar primeira impressão negativa que poderia ser evitada.
Posso sugerir revisores na carta de submissão?
Sim, e muitos periódicos encoragem isso. Você pode sugerir pesquisadores da área que teriam qualificação técnica para avaliar o trabalho, especialmente se o tema for muito específico. A recomendação é sugerir pessoas sem conflito de interesse óbvio (não sugerir coautores, orientadores ou colegas próximos). Você também pode, em alguns periódicos, pedir que determinadas pessoas não sejam revisoras, justificando brevemente.
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