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Como Funciona a Submissão de Artigo para Revista

Entenda o processo de submissão de artigos científicos: sistemas editoriais, formatos exigidos, carta de apresentação e o que acontece após o envio.

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Primeiro artigo submetido: o que ninguém te conta antes

Olha só: a maioria das pessoas chega à submissão do primeiro artigo sem ter ideia de como o processo funciona. Sabem que precisam enviar para uma revista. Não sabem o que vem depois.

E não é por falta de interesse. É porque isso raramente é ensinado de forma estruturada na pós-graduação. Você aprende a pesquisar, a escrever, às vezes a formatar em ABNT. Mas o processo editorial — sistemas, fluxos, etapas — fica no obscuro até você precisar enfrentar na prática.

Vamos mudar isso. Esse post cobre como funciona a submissão de ponta a ponta, do momento em que você decide onde publicar até o que acontece quando você clica em “enviar”.

Escolher a revista é a primeira decisão, e importa muito

Antes de pensar em submissão, você precisa escolher onde vai submeter. Essa decisão afeta tudo: a formatação do manuscrito, a probabilidade de aceitação, o tempo de resposta.

Os critérios principais são:

Adequação do tema. Leia o escopo do periódico. Uma revista de educação em ciências não é o lugar certo para um artigo de política educacional ampla, mesmo que os temas pareçam próximos. Leia os artigos publicados nos últimos dois anos — se o seu trabalho não conversa com aqueles, a revista provavelmente não é a mais adequada.

Fator de impacto e indexação. Se você está na pós-graduação no Brasil, precisa conhecer o sistema Qualis/CAPES. Muitos programas exigem publicação em periódicos com estratos mínimos. Verifique qual é o estrato do periódico no Qualis da sua área antes de investir tempo na submissão.

Tempo de resposta. Alguns periódicos têm fama de responder em meses. Outros, em um a dois anos. Se você está em prazo de defesa, isso não é detalhe, é critério de decisão.

Custo de publicação. Muitos periódicos internacionais cobram APC (Article Processing Charge) para publicação em acesso aberto. Esses valores podem ser altos. Verifique antes de submeter.

Formatando o manuscrito: cada revista tem suas regras

Depois de definir o periódico, você vai às “Instruções para Autores” ou “Author Guidelines” — geralmente um link no site da revista. Leia tudo. De verdade.

As exigências comuns incluem:

  • Limite de palavras para o manuscrito inteiro e para o resumo
  • Formato de arquivo aceito (Word, PDF, LaTeX)
  • Estilo de referências (APA, Vancouver, Vancouver modificado, estilo próprio)
  • Número máximo de figuras e tabelas
  • Exigências de metadados (título corrido, palavras-chave, ORCID dos autores)
  • Arquivo cego para revisão ou não (versão sem identificação dos autores)

Um erro clássico é formatar o manuscrito antes de saber para onde vai submeter. Resultado: você passa horas reformatando porque cada revista tem um jeito diferente de exigir as referências ou o abstract estruturado.

A ordem certa é: escolhe a revista, lê as instruções, formata o manuscrito conforme essas instruções, só então escreve a carta de apresentação.

A carta de apresentação que poucos sabem escrever

A cover letter (carta de apresentação) acompanha o manuscrito e vai diretamente ao editor. É um documento curto, mas tem peso na decisão de enviar ou não o artigo para revisão.

Uma boa carta responde três perguntas:

O que é este artigo? Uma ou duas frases sobre o tema, o problema que você investiga e o que você encontrou.

Por que é relevante para esta revista? Mostre que você conhece o periódico. “Esse trabalho dialoga com a série de artigos publicados nos últimos dois anos sobre X em seu periódico” é muito melhor do que uma frase genérica.

Por que agora? Se há atualidade no tema — mudanças legais, debates recentes, urgência prática — mencione brevemente.

A carta também deve declarar que o manuscrito é original, não está sob análise em outro periódico, e que todos os autores aprovaram a versão enviada.

Cartas genéricas, claramente copiadas de modelos, passam mal. Editores leem muitas cartas. Uma que mostra familiaridade real com o periódico se destaca.

Os sistemas editoriais: OJS, Editorial Manager e outros

A maioria das submissões hoje acontece por sistemas online. Os mais comuns são:

OJS (Open Journal Systems): muito usado por periódicos brasileiros e latino-americanos. Interface simples, você cria uma conta e sobe os arquivos em etapas.

Editorial Manager (EM): usado por muitos periódicos internacionais, especialmente na área da saúde. Mais complexo, com campos específicos para cada metadado, sugestão de revisores, declarações de conflito de interesse.

ScholarOne / Manuscript Central: outra plataforma comum em periódicos internacionais de ciências humanas e sociais.

O processo em todos eles é parecido: você cria conta, inicia uma nova submissão, preenche metadados (título, resumo, palavras-chave, área, autores e suas afiliações), faz upload dos arquivos (manuscrito, figuras, tabelas, carta de apresentação, declarações), revisa o PDF gerado pelo sistema e confirma o envio.

O sistema gera um número de protocolo. Guarde esse número — é o que você usa para acompanhar o status.

Arquivos cegos: como funciona o anonimato

A maioria dos periódicos usa revisão cega por pares — o revisor não sabe quem escreveu o artigo. Para isso, você precisa enviar duas versões:

Versão completa: com todos os dados dos autores, afiliações, agradecimentos, referências de trabalhos anteriores próprios identificados.

Versão cega (blind manuscript): sem nenhuma identificação dos autores. Isso inclui remover nomes do cabeçalho, retirar agradecimentos que identifiquem, e adaptar as autorreferências para “Autor (2023)” em vez de citar o próprio nome.

Esquecer de fazer a versão cega corretamente é um erro comum que compromete a integridade da revisão. Alguns sistemas geram a versão cega automaticamente, mas não confie nisso — verifique você mesma.

O que acontece depois que você clica em “enviar”

Você enviou. O sistema confirma. E agora?

O fluxo típico depois do envio tem várias etapas:

Triagem administrativa. O sistema ou um assistente editorial verifica se os arquivos estão completos, se a formatação está adequada, se há conflito de interesses declarado. Isso costuma ser rápido — horas ou dias.

Desk review (triagem editorial). O editor-chefe ou um editor associado lê o manuscrito para decidir se ele está alinhado ao escopo do periódico e tem qualidade mínima para revisão por pares. Muitos artigos são rejeitados nesta etapa sem ir a revisores. Isso é normal e não é necessariamente um juízo sobre a qualidade do trabalho — muitas vezes é só uma questão de adequação ao foco do periódico.

Envio para revisão por pares. Se passou da triagem, o editor convida dois ou três especialistas para revisar. Esse processo pode levar semanas ou meses, dependendo da disponibilidade dos revisores.

Decisão editorial. Depois de receber os pareceres, o editor toma uma das decisões clássicas: aceitar sem alterações (raro na primeira rodada), aceitar com revisões menores, aceitar condicionalmente com revisões maiores (major revision), ou rejeitar. A rejeição pode vir com ou sem convite para resubmissão revisada.

Cada etapa tem um prazo, mas esses prazos não são garantidos. O processo editorial depende de voluntários — os revisores não são pagos — e atrasos são comuns.

O que você pode (e não pode) fazer enquanto espera

Enquanto o artigo está em avaliação, você pode acompanhar o status pelo sistema editorial. Os status costumam ser algo como “with editor”, “under review”, “revision received”, “decision in process”.

O que você não pode fazer: submeter o mesmo manuscrito para outra revista. Submissão simultânea é considerada uma violação de ética em publicação, porque duas revistas estariam investindo recursos em revisão do mesmo trabalho sem saber. Se quiser retirar o artigo para submeter em outro periódico, você precisa comunicar formalmente ao editor.

Você pode depositar uma versão preprint em repositórios como SciELO Preprints, medRxiv, arXiv ou Preprints.org antes ou durante o processo de revisão, desde que a política da revista permita. Verifique no SHERPA/RoMEO (sherpa.ac.uk) qual é a política de preprints do periódico.

O primeiro envio como aprendizado

Quase ninguém publica sem revisão na primeira vez. A revisão por pares é um processo de melhoria, não um julgamento definitivo de valor. Os comentários dos revisores, mesmo quando duros, carregam informações valiosas sobre como sua área lê e avalia o trabalho.

O que diferencia quem avança na carreira acadêmica não é nunca ser rejeitado. É saber o que fazer com a rejeição: revisar com atenção, entender o que os revisores pediram, decidir se vale resubmeter ou buscar outro periódico.

E para isso, você precisa entender como o processo funciona. Agora você entende.

Perguntas frequentes

O que preciso preparar antes de submeter um artigo para uma revista científica?
Você precisa preparar o manuscrito formatado conforme as normas da revista (normas de autor), uma carta de apresentação (cover letter) explicando a relevância do trabalho, e às vezes uma declaração de conflito de interesses e de contribuição dos autores. Leia as instruções aos autores da revista com atenção — cada periódico tem suas próprias exigências de formatação.
Quanto tempo leva para receber a resposta de uma revista após submeter um artigo?
O tempo varia muito entre periódicos e áreas. Uma triagem inicial (desk review) costuma acontecer em uma a quatro semanas. Se o artigo for enviado para revisão por pares, o retorno pode levar de dois a seis meses ou mais. Periódicos de alta demanda em áreas como saúde e biologia costumam ser mais demorados.
Posso submeter o mesmo artigo para mais de uma revista ao mesmo tempo?
Não. A submissão simultânea a múltiplos periódicos é considerada uma violação de ética em publicação científica, salvo nos casos em que a revista aceita explicitamente preprints. Enquanto um artigo está em avaliação, você não pode submetê-lo em outro lugar. Se quiser retirar o manuscrito para submeter em outra revista, precisa comunicar formalmente o periódico atual.
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