Como publicar seu primeiro artigo científico
Guia completo para pesquisadores iniciantes que querem publicar o primeiro artigo. Do manuscrito pronto à submissão, sem mitos e sem pânico.
A publicação não começa quando você submete
Vamos lá. Publicar o primeiro artigo científico é um dos marcos mais esperados e mais temidos da pós-graduação. A maioria das pessoas imagina que o processo começa quando você tem um texto pronto e precisa “apenas” enviá-lo em algum lugar. Na prática, o processo começa muito antes, e entender isso muda o quanto de energia você vai gastar no caminho.
Este guia não vai te ensinar a escrever um artigo (isso fica para outros posts). O foco aqui é o processo entre ter um manuscrito e ter um artigo publicado: como escolher o periódico, como preparar a submissão, o que esperar depois, e como lidar com os desfechos possíveis.
Do que você precisa antes de submeter
Antes de abrir o sistema de submissão de qualquer periódico, você precisa ter três coisas:
Um manuscrito revisado e com estrutura completa. Isso significa: título, resumo/abstract, palavras-chave, introdução, metodologia, resultados, discussão, conclusão e referências. Se o formato do periódico exigir algo diferente (alguns não têm seção de discussão separada, por exemplo), adapte. Mas comece com a estrutura padrão.
Autorização de todos os coautores. Se você não é o único autor, todos os coautores precisam ter lido a versão final, concordado com o conteúdo e autorizado a submissão. Isso parece óbvio, mas submissões com desacordo entre coautores geram problemas sérios.
Uma lista de periódicos candidatos, que vou detalhar na seção seguinte.
Como escolher o periódico certo para o seu artigo
Esse é o passo que as pessoas mais subestimam. Escolher o periódico errado é a causa mais comum de rejeição que nada tem a ver com a qualidade do trabalho.
Comece pela pergunta: para quem é esse artigo? Qual é o público que se beneficiaria de lê-lo? Pesquisadores de qual área, com qual nível de especialização? Esse público lê quais periódicos?
Depois, considere o escopo do periódico. Todo periódico tem uma declaração de escopo (Aims & Scope), geralmente na página inicial do site. Leia com atenção. Se o seu artigo não se encaixa claramente naquele escopo, a rejeição vai ser rápida e sem feedback útil.
Considere também o Qualis da CAPES se você é vinculado a um programa de pós-graduação brasileiro. O Qualis classifica periódicos por área de avaliação e influencia como suas publicações são contadas na avaliação do programa. Publicar em periódico bem classificado no Qualis da sua área é diferente de publicar no mesmo periódico classificado em outra área.
Um erro comum de quem está publicando pela primeira vez: mirar direto nos periódicos com maior fator de impacto da área. Isso não é necessariamente errado, mas a taxa de rejeição nesses periódicos é alta mesmo para bons trabalhos, porque eles recebem muito mais submissões do que conseguem publicar. Para o primeiro artigo, um periódico sólido com taxa de aceitação um pouco mais generosa costuma ser uma escolha mais estratégica.
Evite periódicos predatórios. Eles aceitam praticamente tudo, cobram taxa de publicação e têm revisão por pares inexistente ou simulada. Publicar neles pode ser pior para sua carreira do que não publicar. Se você não tem certeza se um periódico é legítimo, consulte a lista do Directory of Open Access Journals (DOAJ) para periódicos de acesso aberto, ou pergunte ao seu orientador.
Como preparar a submissão
Cada periódico tem suas próprias diretrizes de submissão. Leia as “Instructions for Authors” (ou equivalente) com cuidado antes de formatar qualquer coisa. Ignorar essas instruções é a causa mais fácil de rejeição antes mesmo da revisão por pares.
As instruções costumam incluir:
Formato do arquivo (Word, LaTeX, PDF). A maioria ainda aceita Word; periódicos de ciências exatas frequentemente preferem LaTeX.
Limite de palavras para cada seção. Alguns periódicos têm limites para o abstract, para o texto principal, para o número de referências.
Estilo de citação e referência. Verifique se o periódico usa APA, Vancouver, ABNT ou um estilo próprio. Se você usa Zotero ou Mendeley, a adaptação é rápida.
Requisitos para figuras e tabelas. Resolução mínima das imagens, formato de arquivo, legenda dentro ou fora do documento.
Documentos adicionais. Muitos periódicos pedem uma carta de submissão (cover letter), declaração de conflito de interesses, declaração de contribuição dos autores.
Não subestime o tempo necessário para formatar corretamente. Em artigos com muitas figuras ou tabelas, isso pode levar algumas horas.
A carta de submissão (cover letter)
A cover letter é um documento curto que acompanha a submissão e apresenta o artigo ao editor. Ela não substitui o abstract: é uma comunicação direta com o editor explicando por que o artigo é relevante para aquele periódico específico.
Uma boa cover letter em geral inclui:
O título do artigo e dos autores. Uma ou duas frases sobre a questão de pesquisa que o artigo endereça. Por que isso é relevante para os leitores do periódico. Uma afirmação de que o trabalho é original e não está sendo considerado por outro periódico simultaneamente. Qualquer declaração específica que o periódico pede.
Não precisa ser longa. Dois a três parágrafos são suficientes. O erro mais comum é ser genérico demais: “Este artigo é relevante para a área de X” não diz nada que o editor já não saiba.
O que acontece depois que você submete
Após a submissão, o processo passa por algumas etapas:
Triagem editorial (desk review): o editor verifica se o artigo está dentro do escopo do periódico, se a formatação está correta, se há problemas óbvios. Muitos artigos são rejeitados nessa etapa sem chegar à revisão por pares. Se isso acontecer com você, não é necessariamente sinal de que o trabalho é ruim: pode ser apenas que o escopo não era compatível.
Revisão por pares: se passar pela triagem, o artigo vai para dois ou três revisores especialistas na área. Eles avaliam a qualidade científica, a metodologia, a originalidade e a relevância. Esse processo leva semanas ou meses, dependendo do periódico.
Decisão editorial: o editor recebe os pareceres e toma uma decisão. As possibilidades são: aceito sem revisões (raro), aceito com revisões menores, aceito com revisões maiores, rejeito com possibilidade de resubmissão, ou rejeição definitiva.
Como lidar com cada desfecho
Aceito sem revisões é raro e você vai saber o que fazer: comemore.
Revisões menores: os revisores querem pequenas correções ou esclarecimentos. Faça as correções e envie a resposta detalhando cada mudança.
Revisões maiores: os revisores identificaram problemas mais substanciais. Leia os pareceres com calma, discuta com seu orientador e decida o que você consegue responder. Uma boa resposta a revisores não é concordar com tudo, é responder a cada ponto de forma fundamentada.
Rejeição: acontece. Com frequência. Até para pesquisadores experientes. Não é o fim do artigo, é o início de um processo de melhoria. Leia os pareceres com atenção (quando houver), revise o artigo e submeta para outro periódico.
A publicação como processo, não como destino
Tem uma mentalidade que ajuda muito quem está começando: tratar publicação como processo iterativo, não como julgamento final do valor da pesquisa.
Cada rodada de revisão, cada rejeição com parecer, cada aceite condicionado são oportunidades de melhorar o trabalho. Pesquisadores que publicam com consistência ao longo da carreira não são aqueles que sempre acertaram na primeira tentativa. São os que continuaram submetendo.
E o seu trabalho como pesquisador é produzir conhecimento rigoroso e comunicá-lo da melhor forma possível. O processo de publicação é o canal para isso, não o objetivo em si.
Se você está prestes a submeter seu primeiro artigo, vale também revisitar as seções sobre como escrever um abstract e como escrever a discussão dos resultados. São as duas partes que os revisores costumam avaliar com mais atenção. Faz sentido, né?