Método

Como Solicitar Autorização de Uso de Instrumento

Usar um questionário ou escala validada exige autorização do autor. Veja por que isso importa e como fazer essa solicitação de forma profissional e eficaz.

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O momento em que você encontra o instrumento perfeito

Vamos lá. Você está planejando sua coleta de dados e encontra exatamente o que precisava: um questionário validado, com boa consistência interna, usado em pesquisas anteriores no seu contexto. Parece que a decisão está tomada.

Mas antes de colocar esse instrumento no seu projeto, tem um passo que muita gente pula e que pode gerar problemas sérios lá na frente: pedir autorização ao autor para usar o instrumento na sua pesquisa.

Por que isso é necessário? Porque o instrumento, como qualquer obra intelectual, tem um autor com direitos sobre aquele trabalho. Mesmo que o artigo esteja publicado em acesso aberto, isso não significa automaticamente que o instrumento pode ser usado, adaptado ou reproduzido sem permissão.

Por que a autorização importa para a sua pesquisa

Existem razões práticas e éticas para fazer esse pedido. Do ponto de vista ético, é o reconhecimento do trabalho intelectual do autor que desenvolveu e validou aquele instrumento, frequentemente um processo longo e trabalhoso.

Do ponto de vista prático: comitês de ética (CEP) frequentemente pedem a comprovação de autorização de uso do instrumento como parte da documentação do projeto. Submeter ao CEP sem ter essa autorização pode atrasar a aprovação ou gerar solicitação de documentação adicional que vai custar tempo.

Além disso, alguns autores de instrumentos têm banco de dados dos pesquisadores que usam seu instrumento, compartilham dados normativos de diferentes populações, e oferecem suporte técnico para interpretação. Fazer o contato formal abre essas possibilidades.

Como identificar o contato do autor

O ponto de partida é o artigo de validação do instrumento. O autor correspondente costuma ter e-mail listado no artigo. Mas artigos antigos às vezes têm e-mails desatualizados.

Se o e-mail do artigo não funciona, vale tentar:

  • Currículo Lattes do pesquisador (para autores brasileiros)
  • ResearchGate ou Academia.edu, onde muitos pesquisadores mantêm perfis atualizados
  • Site institucional da universidade do autor
  • Busca pelo nome do autor no Google Scholar, que frequentemente mostra a instituição atual

Tome nota de todos os contatos que encontrou. Se precisar documentar que tentou contato e não obteve resposta, essa lista vai ser útil.

O que escrever na solicitação

A solicitação não precisa ser longa, mas precisa ter alguns elementos essenciais para que o autor entenda claramente do que se trata e possa responder.

Uma solicitação completa inclui: identificação sua (nome, instituição, programa), identificação da sua pesquisa (título ou tema, objetivo geral, população estudada), identificação específica do instrumento que você quer usar (nome completo, referência do artigo de publicação), qual o uso pretendido (aplicação na íntegra? tradução? adaptação?), e uma solicitação clara de autorização por escrito.

Um exemplo de como estruturar:

“Prezado(a) Prof.(a) [Nome],

Meu nome é [seu nome], sou [mestrando/doutorando] em [nome do programa] na [instituição], sob orientação do(a) Prof.(a) [nome do orientador].

Estou desenvolvendo uma pesquisa intitulada [título ou descrição breve] com o objetivo de [objetivo]. Para a coleta de dados, gostaria de utilizar [nome do instrumento], desenvolvido e validado por você e publicado no artigo [referência completa].

Solicito sua autorização para uso do instrumento na íntegra [ou: em versão traduzida / em versão adaptada para X] nesta pesquisa. Em caso de aprovação, comprometemo-nos a citar adequadamente o instrumento e os autores em todas as publicações decorrentes do estudo.

Agradeço a atenção e aguardo seu retorno.

[Assinatura]”

Simples, claro, profissional.

O que acontece depois

Na maioria dos casos, o autor responde positivamente. Pesquisadores que desenvolveram instrumentos geralmente ficam satisfeitos em saber que o trabalho está sendo usado, e muitos têm inclusive uma carta-modelo de autorização que enviam prontamente.

Quando o autor autoriza, guarde a comunicação. Um e-mail de autorização é suficiente na maior parte dos casos. Mas se o seu programa ou CEP tiver requisitos específicos (como carta formal em papel timbrado), peça isso explicitamente na sua solicitação.

Se o autor não responde em um prazo razoável, mande um lembrete educado após duas ou três semanas. Se continuar sem resposta, documente as tentativas e consulte seu orientador e o CEP sobre como proceder.

Há casos em que o autor responde com restrições ou condições específicas para o uso. Leia com atenção. Às vezes o autor pede que você compartilhe os resultados, ou que use o instrumento apenas para fins não comerciais, ou que envie os dados brutos para um banco centralizado. Essas são condições legítimas que você precisa aceitar ou buscar outro instrumento.

Quando o instrumento precisa de adaptação

Usar um instrumento já validado é uma coisa. Adaptar um instrumento para um contexto diferente, seja uma tradução, seja uma adaptação cultural, é um processo bem mais complexo.

Adaptações precisam de autorização explícita do autor original para a versão modificada. E além da autorização, adaptações adequadas passam por um processo formal de validação da versão adaptada, que inclui tradução e retrotradução (para traduções), avaliação de juízes especialistas, e estudos piloto de validação psicométrica.

Isso não é para desanimar. É para deixar claro que “adaptar o instrumento” não é só mudar algumas palavras. É uma contribuição científica que tem seu próprio processo e seus próprios critérios de rigor.

Parte da pesquisa, não obstáculo

Solicitar autorização para uso de instrumento pode parecer uma formalidade burocrática. Mas é parte da cultura de pesquisa responsável. Você está reconhecendo o trabalho de quem veio antes, garantindo que seu próprio trabalho tem base ética sólida, e potencialmente abrindo uma conexão com um pesquisador que pode enriquecer sua análise.

No Método V.O.E., esse tipo de cuidado com os fundamentos do processo de pesquisa faz parte de uma produção que você consegue defender com confiança.

Quando a autorização demora ou não vem

Existe uma situação prática que pesquisadores enfrentam com mais frequência do que deveriam: o autor do instrumento não responde. E o prazo do projeto está chegando.

Antes de desistir ou usar o instrumento sem autorização, vale tentar mais de um caminho de contato. E-mail pode cair no spam. A plataforma ResearchGate tem sistema de mensagem direto. LinkedIn acadêmico também é uma opção. Se o pesquisador está em uma universidade brasileira, às vezes um telefonema para o departamento funciona quando o e-mail não chega.

Se você tentou de forma documentada e genuinamente não conseguiu contato, converse com seu orientador e, dependendo do caso, com o CEP. Alguns comitês têm orientações específicas para essa situação. E alguns orientadores conhecem pessoalmente o autor do instrumento e podem facilitar o contato.

O que não é adequado: usar o instrumento “assumindo” que seria liberado se você tivesse conseguido contato. Isso não tem base jurídica nem ética.

Instrumentos em domínio público ou com licença aberta

Nem todos os instrumentos precisam de autorização explícita. Se o instrumento foi publicado com licença Creative Commons que permite uso (como CC BY ou CC BY-NC), a licença já é a autorização. Você simplesmente usa, seguindo os termos da licença, e cita adequadamente.

Há também instrumentos que caíram em domínio público por antiguidade ou pela decisão explícita dos autores. Escala Likert, por exemplo, não tem mais proteção. Instrumentos muito antigos de domínio público não precisam de autorização, embora a citação adequada ao trabalho original seja sempre necessária.

E há instrumentos desenvolvidos por agências públicas ou com financiamento federal que, dependendo das condições de financiamento, podem ter obrigação de disponibilização aberta. Verifique as condições de publicação quando encontrar esse tipo de instrumento.

Documentando o processo para o CEP

O Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) geralmente pede documentação sobre instrumentos de coleta quando você submete um projeto. Para instrumentos de autores identificáveis, a carta ou e-mail de autorização é o documento que você vai precisar.

Organize essa documentação desde o início. Crie uma pasta específica para autorizações, guarde cópias dos e-mails de solicitação e resposta, e mantenha um registro de quando você enviou e quando recebeu resposta.

Se você precisar de uma carta formal (não apenas e-mail), informe isso na sua solicitação original. A maioria dos pesquisadores atende a esse pedido sem problema quando solicitado claramente.

O instrumento como parte do método, não detalhe

A escolha e autorização de uso de instrumento faz parte do planejamento metodológico da pesquisa. Não é um detalhe a resolver na última hora antes de submeter ao CEP.

Se você ainda está no momento de escolher quais instrumentos vai usar, vale incluir no cronograma o tempo necessário para fazer as solicitações e aguardar resposta. Duas a quatro semanas é um prazo razoável para considerar. E se você identificar logo no início que o instrumento ideal não está disponível, tem tempo para encontrar alternativas adequadas ou adaptar o plano de coleta.

No Método V.O.E., esse tipo de planejamento antecipado faz parte de uma produção científica organizada que chega à defesa sem imprevistos de último momento.

Perguntas frequentes

Preciso pedir autorização para usar um instrumento publicado em artigo científico?
Depende da licença do artigo. Se o instrumento foi publicado com licença Creative Commons que permite uso, você pode usar seguindo os termos. Se o artigo não especifica, o padrão é que os direitos são reservados e você precisa de autorização do autor para uso em nova pesquisa.
O que fazer quando o autor do instrumento não responde ao pedido de autorização?
Tente pelo menos dois canais de contato (e-mail do artigo, plataforma lattes, ResearchGate, academia.edu). Se não obtiver resposta em 30 dias, documente as tentativas. Alguns comitês de ética aceitam isso como evidência de boa-fé. Mas consulte seu orientador e seu CEP sobre como proceder no seu contexto específico.
Posso adaptar um instrumento validado para a minha pesquisa?
Adaptar um instrumento validado é diferente de simplesmente usá-lo. A adaptação requer processo de validação próprio e, geralmente, autorização explícita do autor original. Apenas traduzir para outro idioma também requer processo formal de validação. Consulte a literatura sobre adaptação transcultural de instrumentos.
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