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54% dos Mestrados Estão no Sudeste: é Justo?

A concentração da pós-graduação brasileira no Sudeste não é acidente histórico, é estrutura. O que isso significa para quem pesquisa longe dos grandes centros.

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O dado que precisa ser lido em voz alta

Vamos lá. Mais da metade dos programas de mestrado e doutorado do Brasil estão concentrados em três estados: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O Sudeste, com cerca de 42% da população brasileira, concentra uma parcela desproporcional da estrutura de pós-graduação do país.

Isso não é só um dado estatístico. É uma estrutura que define quem faz ciência no Brasil, de onde, com que recursos, e com que probabilidade de ser reconhecido.

Dizer que isso é justo seria o mesmo que dizer que o ponto de partida não importa. Que um programa criado há 30 anos, com laboratórios equipados, com tradição de publicação e com rede consolidada de colaboração, compete em igualdade de condições com um programa criado há 5 anos numa universidade federal no interior do Pará.

Não compete.

Como essa concentração se formou e como se mantém

A desigualdade regional na pós-graduação brasileira não é acidente. É a sedimentação de décadas de investimento desigual em infraestrutura educacional e científica.

As universidades mais antigas do Brasil, com maior tradição de pesquisa e maior acúmulo de capital humano, estão no Sudeste. Quando o sistema nacional de pós-graduação foi sistematizado nos anos 1970 com a Reforma Universitária, a estrutura que existia foi a base. Quem tinha mais, recebeu mais.

O sistema se reproduz por mecanismos que parecem técnicos mas têm efeito distributivo claro: programas com notas mais altas na CAPES recebem mais cotas de bolsas. Mais bolsas significam mais pesquisadores em tempo integral. Mais pesquisadores produzem mais artigos. Mais artigos mantêm ou elevam a nota do programa. O ciclo se fecha.

Para programas jovens, em regiões com menos infraestrutura, entrar nessa espiral positiva é muito mais difícil. Não porque os pesquisadores são piores. Porque as condições estruturais são objetivamente desiguais.

O que os números não mostram

A concentração numérica de programas no Sudeste não captura o tamanho real da desigualdade.

Um programa no interior do Amazonas tem pesquisadores que precisam fazer trabalho de campo em condições logísticas sem equivalente em São Paulo. Um programa no Nordeste pode ter professores com bolsas de produtividade CNPq 2, mas que publicam em condições de infraestrutura que a maioria dos pesquisadores do Sudeste não conhece.

A comparação direta de produção científica entre programas de diferentes regiões, sem considerar as condições objetivas de produção, é metodologicamente problemática. É como comparar tempos numa corrida sem mencionar que parte dos corredores está usando sapatos e parte está descalça.

Isso não é paternalismo. É rigor. E o sistema de avaliação atual tem dificuldade com esse rigor.

O pesquisador regional e o custo invisível

Ser pesquisador fora dos grandes centros acadêmicos tem um custo que raramente aparece nos relatórios de produtividade.

Ir a um congresso nacional, que custa entre R$1.500 e R$5.000 em passagem, hospedagem e inscrição, é mais acessível para quem está em São Paulo do que para quem precisa de voo de Boa Vista ou de Porto Velho. Publicar num periódico internacional, que muitas vezes cobra taxa de publicação (APC), é mais viável para quem tem acesso a projetos bem financiados.

Colaborar com pesquisadores de prestígio internacional depende, em grande medida, de estar na rede de colaboração certa. Essas redes se formam em congressos, em parcerias institucionais, em docências visitantes. Quem está fora dos grandes centros entra nessa rede mais tarde, com mais esforço, e muitas vezes de forma mais periférica.

Nenhum desses custos aparece no Lattes como desvantagem. O Lattes registra o que foi produzido, não as condições em que foi produzido.

O que seria um sistema mais equitativo

Essa é a pergunta difícil. Não existe resposta simples, mas existe um conjunto de princípios que orientam propostas mais equitativas.

Critérios de avaliação sensíveis ao contexto. Um sistema de avaliação de pós-graduação que leva em conta as condições objetivas de produção científica nas diferentes regiões do país, e não apenas os números absolutos de publicação, seria mais justo. Isso não significa abrir mão do rigor. Significa aplicar o rigor com inteligência.

Investimento diferenciado. Cotas de bolsas calculadas apenas pela nota do programa beneficiam os programas mais estabelecidos. Um sistema com componente redistributivo, que invista mais por aluno em programas de regiões com menos infraestrutura, corrigiria parte do desequilíbrio.

Apoio específico para programas emergentes. Programas novos em regiões sub-representadas precisam de condições para se desenvolver antes de serem avaliados pelos mesmos critérios dos programas maduros.

Por que isso importa para você que está na pós agora

Se você faz pós-graduação fora do Sudeste, ou dentro do Sudeste mas numa universidade menos estabelecida, este contexto é parte da sua realidade. As dificuldades que você enfrenta não são falha pessoal. São condições estruturais.

Isso não é conforto. Não muda o prazo da dissertação. Não aumenta a cota de bolsas do seu programa.

Mas nomear a estrutura importa porque ela define o que é razoável esperar de você e o que é resultado de condições objetivamente piores. Separar essas duas coisas é necessário para que você se avalie com justiça e para que o campo se avalie com honestidade.

A pesquisa científica brasileira precisa de diversidade regional não só como questão de equidade, mas porque a ciência feita em diferentes contextos geográficos, com diferentes questões, diferentes populações, diferentes problemas, é uma ciência mais completa.

O que o Sudeste ignora sobre o Brasil não é folclore. É conhecimento científico que ainda não foi produzido, ou que foi produzido em condições que o sistema atual não reconhece adequadamente.

Iniciativas que estão tentando mudar esse quadro

Nem tudo é estático. Nos últimos 20 anos, houve avanços reais na expansão da pós-graduação para fora do Sudeste, especialmente com o Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) e a criação de novas universidades federais em regiões historicamente sub-representadas.

Programas como o Dinter (Doutorado Interinstitucional) e o Minter (Mestrado Interinstitucional) permitem que pesquisadores em instituições sem pós-graduação própria cursem parte do programa numa universidade parceira. Esses mecanismos têm limitações, mas existem e representam tentativas de descentralização.

A CAPES também mantém programas específicos para fortalecer a pós-graduação em regiões Norte e Nordeste, com critérios diferenciados em alguns editais. O progresso é lento e desigual, mas existe.

O que falta ainda é uma política de ciência e tecnologia que trate a desigualdade regional como uma questão estrutural a ser corrigida, e não como um dado fixo de realidade.

O papel da solidariedade entre pesquisadores

Uma coisa que pode fazer diferença no nível individual é a postura de pesquisadores mais estabelecidos em relação aos pesquisadores de regiões menos favorecidas.

Convidar pesquisadores do Norte e Nordeste para coautorias e colaborações. Recomendar artigos de pesquisadores fora do eixo Rio-São Paulo para periódicos e eventos. Incluir citações de pesquisas produzidas em regiões sub-representadas quando elas são relevantes.

Isso não substitui política pública. Mas cria visibilidade para uma produção científica que existe e que muitas vezes passa invisível simplesmente porque está fora das redes de circulação mais consolidadas.

A ciência que o Brasil precisa não vai caber no Sudeste. Já não cabe agora. E reconhecer isso não é generosidade. É uma leitura honesta do que o país é e do que a ciência precisa ser para dar conta disso.

A concentração geográfica da pós-graduação é um problema de política científica, mas também é uma conversa que precisa acontecer dentro dos próprios programas, nas bancas, nos conselhos editoriais, nos comitês de avaliação. Faz sentido perguntar, em cada espaço de decisão: quem está representado aqui? E quem não está? A resposta a essas perguntas costuma revelar mais sobre o sistema do que qualquer estatística.

Perguntas frequentes

Por que a pós-graduação brasileira é tão concentrada no Sudeste?
A concentração regional da pós-graduação reflete a desigualdade histórica no investimento em infraestrutura educacional e científica no Brasil. As universidades mais antigas e mais capitalizadas estão no Sudeste, onde também se concentra a maior parte do PIB do país. Esse padrão se reproduz: mais recursos geram mais programas, que geram mais pesquisadores, que atraem mais recursos.
Pesquisadores do Norte e Nordeste têm menos chances de publicar em periódicos de alto impacto?
As condições objetivas são desiguais. Pesquisadores de regiões com menos recursos têm menor acesso a financiamento para pesquisa, menos infraestrutura laboratorial, e menos redes de colaboração internacional. Isso afeta a produção científica. Mas há pesquisas excelentes produzidas fora do Sudeste, muitas vezes com esforço desproporcionalmente maior.
O que o sistema CAPES de avaliação faz para equilibrar a desigualdade regional?
O sistema de avaliação CAPES usa critérios que foram desenhados com base na produção dos programas mais estabelecidos, que são majoritariamente do Sudeste. Há críticas de que esses critérios não levam em conta as condições diferentes de pesquisa em regiões com menos infraestrutura e financiamento. Existe um debate crescente sobre como tornar a avaliação mais sensível às disparidades regionais.
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