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Conectivos Acadêmicos: Como Usar em Textos Científicos

Saiba quais conectivos usar em textos acadêmicos e como escolher o correto para cada relação lógica sem tornar o texto artificialmente formal.

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O problema com “todavia” no lugar errado

Existe uma ilusão comum sobre escrita acadêmica: que quanto mais formal o conectivo, mais científico o texto. Então aparecem os “todavias”, os “dessarte” e os “outrossim” em posições que não indicam contraste, concessão nem conclusão, mas simplesmente preenchem espaço entre frases.

Conectivos acadêmicos são palavras ou expressões que indicam a relação lógica entre ideias dentro de um texto. Cada conectivo sinaliza um tipo específico de relação: adição, contraste, causa, consequência, concessão, explicação. Escolher o conectivo errado não é só erro gramatical, é erro de argumento. Você está dizendo que duas ideias têm uma relação que elas não têm.

O texto fica mais claro, não mais erudito, quando os conectivos são precisos.

As seis funções dos conectivos e quando usar cada uma

Entender a função antes de memorizar uma lista de exemplos é o caminho mais curto para usar certo.

Adição

Indica que a próxima ideia se soma à anterior, sem contradizê-la.

Conectivos: além disso, ademais, também, ainda, igualmente, do mesmo modo.

Quando usar: você acabou de apresentar um argumento e vai apresentar outro que reforça ou complementa o primeiro. “O método X apresenta vantagens em termos de custo. Além disso, permite replicação em diferentes contextos.”

Erro comum: usar “além disso” quando a segunda frase na verdade contradiz a primeira. Nesse caso, o conectivo correto é de contraste.

Contraste ou adversidade

Indica que a próxima ideia se opõe, limita ou contrasta com a anterior.

Conectivos: entretanto, contudo, no entanto, porém, todavia, mas, embora (com ressalva: “embora” introduz oração subordinada concessiva, não coordenada adversativa).

Quando usar: você afirmou algo e vai apresentar uma limitação, exceção ou perspectiva contrária. “O método X apresenta vantagens em termos de custo. Entretanto, sua aplicação em amostras grandes é limitada.”

Erro comum: usar conectivos de contraste quando as duas ideias simplesmente seguem na mesma direção. O leitor fica esperando uma virada que não vem.

Causalidade e consequência

Indica que a ideia seguinte é causa ou efeito da anterior.

Conectivos de consequência: portanto, logo, assim, por conseguinte, dessa forma, desse modo. Conectivos de causa: porque, pois, uma vez que, dado que, visto que.

Quando usar: “A amostra foi pequena; portanto, os resultados não permitem generalização.” Ou: “Os resultados divergem da hipótese inicial, uma vez que o instrumento de coleta apresentou limitações.”

Erro comum: usar “portanto” quando a relação não é de conclusão lógica, mas de sequência temporal ou adição. “Analisei os dados. Portanto, apresento os resultados.” Não há consequência lógica aí, é só sequência.

Concessão

Indica que você reconhece um argumento contrário antes de defender seu ponto.

Conectivos: embora, ainda que, apesar de, mesmo que, por mais que.

Quando usar: “Embora os dados sejam preliminares, eles permitem uma primeira leitura do fenômeno.” Você está concedendo uma limitação e logo em seguida sustentando o argumento.

Esse grupo é especialmente útil em argumentação científica, quando você precisa mostrar que conhece as críticas ao seu método ou às suas conclusões.

Explicação e reformulação

Indica que você vai explicar, detalhar ou reformular o que acabou de dizer.

Conectivos: ou seja, isto é, a saber, em outras palavras, quer dizer.

Quando usar: depois de um conceito técnico que precisa de esclarecimento, ou quando quer garantir que a leitora entendeu exatamente o que você quis dizer.

Erro comum: usar “ou seja” antes de simplesmente repetir a mesma coisa com palavras diferentes, sem adicionar clareza. Se a reformulação não clarifica, ela só alonga.

Exemplificação

Indica que você vai apresentar um caso concreto que ilustra o que acabou de afirmar.

Conectivos: por exemplo, a título de ilustração, como é o caso de, tal como.

Quando usar: depois de uma afirmação geral, quando um exemplo específico torna o argumento mais concreto. “Instrumentos de coleta podem ser adaptados para diferentes contextos, por exemplo, entrevistas semiestruturadas podem ser aplicadas presencialmente ou por videochamada.”

Como diagnosticar o uso de conectivos no seu texto

Três perguntas para aplicar durante a revisão:

Primeiro: o conectivo indica a relação que de fato existe entre essas duas ideias? Se a segunda frase é uma consequência mas você usou “além disso”, está errado.

Segundo: se você retirar o conectivo, o texto ainda faz sentido? Conectivo que pode ser removido sem perda é dispensável. “Os dados foram coletados. Após isso, foram analisados.”, “após isso” é dispensável, a sequência já está clara.

Terceiro: o mesmo conectivo aparece mais de duas vezes no mesmo parágrafo? Isso indica falta de variação ou estrutura de argumento repetitiva.

O conectivo e a estrutura do parágrafo

Conectivos não existem no vácuo. Eles funcionam dentro da estrutura do parágrafo acadêmico, que tem uma lógica própria.

Um parágrafo bem construído começa com uma frase-tópico que apresenta a ideia central, desenvolve essa ideia com evidências, argumentos ou análise, e termina com uma frase de fechamento que sintetiza ou conecta com o próximo parágrafo.

Os conectivos aparecem dentro desse fluxo para indicar como as frases se relacionam. Quando o parágrafo não tem estrutura lógica, nenhum conectivo resolve. O problema não é lexical, é de organização de argumento.

A fase de Organização do Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) trata exatamente disso: antes de escrever, você mapeia a estrutura lógica do que vai dizer. Quando essa estrutura está clara, os conectivos certos aparecem de forma natural, porque você sabe que relação cada ideia tem com a próxima.

Conectivos que costumam ser usados mal

Alguns conectivos merecem atenção específica porque são frequentemente usados de forma imprecisa em textos acadêmicos.

“Visto que” introduz causa, não tempo. “Visto que os dados foram coletados em 2024” está errado se a intenção é temporal. O correto seria “uma vez que” ou simplesmente descrever a sequência sem conectivo causal.

“Enquanto” é temporal ou adversativo, não explicativo. “Enquanto a abordagem X foca em Y, a abordagem Z foca em W” está certo como contraste. “Enquanto isso, o método…” está certo como temporal. Usar “enquanto” no lugar de “embora” é erro.

“Na medida em que” indica proporcionalidade ou condição, não simplesmente causalidade. Pode ser substituído por “porque” na maioria dos casos em que aparece mal usado.

Se você está no processo de revisão da dissertação ou tese e quer afinar o argumento escrito, vale também olhar o Método V.O.E. para entender como a estrutura lógica do texto se constrói antes da escrita.

Conectivos em diferentes partes do texto acadêmico

O uso de conectivos varia conforme a seção do texto, e é bom ter consciência disso.

Na introdução, conectivos de consequência e explicação aparecem com frequência: você está construindo o argumento que justifica a pesquisa. “O fenômeno X tem sido estudado predominantemente sob perspectiva Y. No entanto, lacunas persistem quanto a Z. Portanto, esta pesquisa propõe…”

Na revisão de literatura ou marco teórico, conectivos de contraste e concessão são centrais: você está navegando entre perspectivas diferentes. “Autor A argumenta que X. Contudo, autor B questiona essa premissa ao mostrar que Y.”

Na metodologia, conectivos de sequência e causalidade dominam: você está descrevendo procedimentos em ordem lógica. “Os dados foram transcritos e submetidos à análise temática. Dessa forma, foi possível identificar padrões recorrentes.”

Na análise e discussão, a variedade é maior, porque você está articulando dado, teoria e interpretação ao mesmo tempo. É aqui que conectivos mal escolhidos aparecem com mais frequência, porque o argumento é mais complexo.

Nos resultados e conclusões, conectivos de síntese e consequência: “Os achados indicam X. Portanto, é possível afirmar que Y, embora Z limite a generalização.”

Ter consciência de onde você está no texto ajuda a escolher o conectivo mais adequado para o movimento argumentativo de cada seção.

Perguntas frequentes

Quais são os principais conectivos usados em textos acadêmicos?
Os conectivos acadêmicos se organizam por função: adição (além disso, ademais, também), contraste (entretanto, contudo, no entanto, porém), causalidade (portanto, logo, assim, por conseguinte), concessão (embora, ainda que, apesar de), explicação (ou seja, isto é, a saber) e exemplificação (por exemplo, a título de ilustração). A escolha depende da relação lógica que você quer estabelecer.
É errado usar 'porém' e 'mas' no mesmo texto?
Não é errado, desde que estejam corretos individualmente. 'Mas' é mais conversacional, 'porém' é mais formal. Em texto acadêmico, ambos são aceitos, mas é bom ter coerência estilística ao longo do trabalho. O problema não é usar os dois, é usá-los para relações que não são de contraste, o que distorce o argumento.
Como evitar o abuso de conectivos no texto científico?
Dois testes rápidos: primeiro, se você tirar o conectivo e a frase ainda fizer sentido completo, ele é dispensável. Segundo, se você usou o mesmo conectivo mais de duas vezes num parágrafo, há redundância ou falta de variação. Conectivo serve para indicar relação lógica, não para enfeitar a transição entre frases.

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