Cortes na Ciência Brasileira em 2026: Minha Posição
O orçamento da ciência voltou a sofrer cortes em 2026. Quero falar sobre o que isso significa para quem pesquisa, orienta e tenta sobreviver na academia.
Já cansei de normalizar o que não deveria ser normal
Vamos lá. Toda vez que os cortes no financiamento da ciência brasileira voltam à pauta, existe um padrão previsível nas redes: pesquisadores compartilham dados alarmantes, entidades científicas emitem notas, há um pico de indignação coletiva por alguns dias, e depois o assunto some. Até o próximo contingenciamento.
Quero falar sobre isso de outro ângulo. Não para repetir os números, que você já pode encontrar nas notas da SBPC e nas publicações especializadas, mas para nomear o que esses números significam para quem vive dentro da pesquisa.
E para deixar claro onde eu estou nessa conversa.
O que subfinanciamento crônico faz com a pesquisa
Existe uma diferença entre crise pontual e condição estrutural. O subfinanciamento da ciência brasileira não é uma crise nova. É uma condição que dura décadas, com momentos de melhora e momentos de piora, mas nunca resolvida de forma consistente.
O que isso significa na prática para quem pesquisa?
Bolsas defasadas há anos. O valor da bolsa de mestrado e doutorado não acompanhou a inflação. Uma pesquisadora que dedica tempo integral à pós-graduação e recebe uma bolsa para sustentar isso está, em muitos casos, abaixo do salário mínimo, ou levemente acima. Isso não é crítica a um governo específico. É uma descrição de um padrão que atravessa governos.
Editais com verba insuficiente. Quando há edital, a verba disponível muitas vezes não cobre o que o projeto realmente precisa. Pesquisadoras aprendem a ajustar o escopo da pesquisa para caber no que o financiamento permite, não o contrário.
Equipamentos sem manutenção. Laboratórios com equipamentos parados por falta de verba de custeio, não de verba de capital. A máquina existe, mas não tem conserto. A pesquisa para.
Pesquisadoras bancando do próprio bolso. Isso deveria ser escandaloso e virou banal: pesquisadoras usando recurso próprio para imprimir questionários, custear deslocamentos para campo, pagar inscrição em congressos onde vão apresentar resultados financiados por dinheiro público.
O problema com a retórica da resiliência
Aqui vou ser direta, porque esse é um ponto que me incomoda profundamente.
Quando o assunto é crise no financiamento da ciência, rapidamente aparece um certo tipo de discurso: o pesquisador que pesquisa apesar das dificuldades, que faz pesquisa de excelência com poucos recursos, que é herói da ciência nacional.
Esse discurso romantiza o sofrimento. E ao romantizá-lo, desvia o foco do que deveria ser o centro da conversa: por que essas dificuldades existem, quem as produz e quem se beneficia da sua normalização.
O pesquisador que faz ciência de qualidade apesar do subfinanciamento não é herói. É um profissional que está sendo explorado em condições que não deveriam existir. E a cada vez que a narrativa valoriza a resiliência individual em vez de questionar a estrutura que exige essa resiliência, ela ajuda a perpetuar o problema.
O que os cortes revelam sobre prioridades
Toda vez que se decide onde cortar, se revela o que não é prioridade.
Não sou economista e não vou fingir que entendo todas as variáveis do orçamento federal. Mas sei ler o que os dados mostram ao longo do tempo: o Brasil investe consistentemente abaixo da média dos países que competem como pares na produção científica global, e a tendência dos cortes recorrentes aprofunda esse gap.
Isso afeta diretamente a capacidade de formação de pesquisadoras. O prazo de conclusão aumenta quando falta recurso. Pesquisadoras desistem quando a bolsa não é suficiente para viver. Programas de regiões menos favorecidas perdem capacidade de competir por editais. A desigualdade regional na produção científica, que já é alta, aumenta.
Não é uma catástrofe súbita. É uma erosão lenta que acontece enquanto todo mundo está ocupado tentando continuar pesquisando.
Por que eu falo sobre isso aqui
Esse blog existe para falar com pesquisadoras que estão dentro da pós-graduação. Mestrandas, doutorandas, pesquisadoras em início de carreira. Pessoas que escolheram a pesquisa como caminho profissional e que enfrentam as condições concretas que esse caminho oferece.
Falar sobre técnicas de escrita e metodologia sem falar sobre o contexto em que essa escrita e essa metodologia acontecem seria desonesto da minha parte.
A pesquisadora que está travando na dissertação pode estar travando porque as condições de produção são difíceis. Não só porque falta método ou disciplina. Mas porque ela está tentando fazer pesquisa enquanto sobrevive com uma bolsa defasada, sem infraestrutura adequada, sem certeza de que vai conseguir financiamento para o próximo passo da carreira.
Isso precisa ser nomeado. Não para paralisar, mas para que as pesquisadoras não internalizem como falha individual o que é, em parte, resultado de um contexto estrutural.
O que a gente pode fazer
Vou ser honesta: não tenho solução para o problema do financiamento da ciência. Não é algo que uma pesquisadora individual resolve. É algo que exige pressão política organizada, voto consciente, participação em entidades científicas, comunicação pública consistente sobre o impacto concreto dos cortes.
O que dá para fazer no âmbito individual: não normalizar. Quando alguém perguntar como vai a pesquisa, não responder “vai” se não vai. Compartilhar dados concretos quando houver, não apenas indignação abstrata. Apoiar as notas e manifestações das entidades científicas. Votar pensando em quem tem historicamente investido em ciência e quem tem historicamente cortado.
E, no âmbito do que eu posso fazer aqui: continuar falando sobre as condições reais da pesquisa no Brasil, sem romantizar o sofrimento nem fingir que o problema é só de método.
Você pesquisa num contexto. Esse contexto importa. E você merece entendê-lo com clareza.
Quem paga o preço dos cortes
Os cortes no financiamento da ciência não afetam a todos igualmente. E nomear isso também faz parte de uma análise honesta.
Pesquisadoras de programas consolidados, com notas altas na CAPES, com redes de colaboração internacionais e acesso a editais privados, conseguem atravessar períodos de corte com mais recursos do que pesquisadoras em programas novos, em regiões com menos infraestrutura, em áreas que têm menos apelo para financiamento privado.
A pesquisa nas humanidades e nas ciências sociais aplicadas, que depende quase exclusivamente do financiamento público, sofre mais do que a pesquisa em áreas tecnológicas que conseguem parcerias com o setor privado. Isso não é valor absoluto. É distribuição de impacto. E a distribuição é desigual.
Pesquisadoras negras, pesquisadoras de primeira geração no ensino superior, pesquisadoras de regiões Norte e Nordeste historicamente subfinanciadas. Quando o corte acontece, ele não poupa exatamente quem já estava em condição mais vulnerável.
Esse é um dado que a retórica da “excelência apesar das dificuldades” costuma apagar. Porque a narrativa do pesquisador resiliente tende a ser protagonizada por quem tinha mais recursos para ser resiliente. Quem não tinha, simplesmente saiu. E a saída silenciosa não vira notícia.
O longo prazo que não aparece no noticiário
Existe um efeito dos cortes que demora para aparecer e que raramente entra nos debates imediatos: o impacto sobre a formação das próximas gerações de pesquisadoras.
Quando o financiamento é insuficiente, pesquisadoras em início de carreira enfrentam uma equação difícil: investir anos numa pós-graduação com condições precárias, ou buscar outras saídas profissionais que ofereçam estabilidade financeira. Muitas escolhem o segundo caminho. E são perdas invisíveis para a ciência brasileira, porque saem antes de se tornarem pesquisadoras consolidadas.
Quem fica é quem conseguiu encontrar outras formas de manter a pesquisa viável: cônjuge com renda, família com suporte, acesso a algum complemento de renda. Isso cria um viés de seleção que empobrece a diversidade da pesquisa produzida no Brasil.
Não é fatalismo. É descrição de um mecanismo que já opera. E que continua operando enquanto a conversa pública sobre ciência se limita aos dados dos contingenciamentos sem discutir quem fica e quem vai embora.
Uma posição clara
Termino com o que prometi no início: minha posição.
Acho que o Brasil tem capacidade para financiar sua ciência de forma adequada. Acho que a decisão de não fazê-lo reflete escolhas políticas, não impossibilidades fiscais. Acho que pesquisadoras têm o direito de trabalhar com condições dignas, e que bolsas defasadas, laboratórios sem custeio e editais insuficientes não são dignos.
Acho também que é responsabilidade de quem tem visibilidade dentro da academia falar sobre isso com clareza, sem a moderação cautelosa que às vezes caracteriza o discurso científico quando o assunto é político. Ciência é produzida por pessoas em contextos. Os contextos importam.
E acho, por fim, que as pesquisadoras que leem esse blog merecem ter acesso a uma análise que nomeie o contexto em que trabalham, sem romantismo e sem fatalismo. Você está pesquisando num cenário difícil. Isso é real. E não é culpa sua.
Para continuar essa conversa sobre o cenário da pós-graduação no Brasil, veja os outros posts do pilar de Posicionamento aqui no blog.