DeCS: o que São Descritores e Como Usar na Pesquisa
Entenda o que são os DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), para que servem e como usá-los para encontrar artigos científicos nas bases de dados.
Você já perdeu horas buscando artigos e encontrou pouca coisa?
Vamos lá. Se você faz buscas em bases de dados digitando palavras soltas no campo de busca e fica frustrada com os resultados, é muito provável que o problema não seja a base. O problema é a linguagem.
Bases de dados científicas como LILACS, SciELO e MEDLINE não funcionam exatamente como o Google. Elas usam vocabulários controlados para indexar artigos, e isso muda completamente a lógica da busca.
Os DeCS são um desses vocabulários. E entender como funcionam pode transformar a qualidade da sua revisão bibliográfica.
O que é um descritor?
Um descritor é um termo padronizado que representa um conceito em uma área do conhecimento. Na área da saúde, o órgão responsável por esse vocabulário na América Latina é a BIREME, que mantém o DeCS como a versão trilíngue do vocabulário controlado.
A ideia por trás disso é direta: se cada pesquisador escolhe palavras diferentes para falar do mesmo assunto, a recuperação de informação fica fragmentada. Uma autora usa “hipertensão arterial”, outra usa “pressão alta”, uma terceira usa “HAS”. Se a base de dados não tivesse um termo controlado, você precisaria buscar os três (e provavelmente mais variantes) para encontrar todos os artigos relevantes.
O DeCS resolve isso. Quando um artigo entra na base de dados, o indexador lê o conteúdo e atribui os descritores adequados. Quando você busca pelo descritor correto, recupera todos os artigos indexados com ele, independente de como o autor escreveu o assunto no texto.
Faz sentido? A padronização cria consistência na busca.
DeCS e MeSH: a diferença prática
O MeSH (Medical Subject Headings) é o vocabulário controlado da MEDLINE, mantido pela National Library of Medicine nos Estados Unidos. Está em inglês e é um dos mais usados no mundo para pesquisa em saúde.
O DeCS foi construído sobre o MeSH. A BIREME expandiu o vocabulário para incluir termos específicos da realidade latino-americana e criou as versões em português e espanhol. Isso significa que os dois vocabulários são compatíveis: um descritor que existe no DeCS tem correspondência no MeSH, o que facilita buscas cruzadas entre bases brasileiras e internacionais.
Na prática: quando você está construindo sua estratégia de busca para uma revisão sistemática ou integrativa, você busca o DeCS no site decs.bvsalud.org, anota o descritor em português e o equivalente em inglês (que é o mesmo do MeSH), e usa ambos para cobrir bases nacionais e internacionais.
Como encontrar o DeCS certo para seu tema
O passo mais simples é acessar decs.bvsalud.org e digitar o tema que você quer pesquisar. O sistema mostra os resultados com o termo preferencial (o descritor oficial), a definição, a nota de escopo (quando existe o termo em outros contextos), e os termos relacionados, que são outros descritores conectados ao seu tema.
Por exemplo, se você busca “ansiedade”, o sistema vai mostrar:
- Termo preferencial: Ansiedade
- Sinônimos: vários termos que levam ao mesmo descritor
- Termos relacionados: Transtornos de Ansiedade, Ansiedade de Separação, etc.
Esses termos relacionados são o ouro da busca bibliográfica. Eles ampliam a sua busca de forma controlada, sem você precisar adivinhar quais palavras usar.
Descritores na estratégia de busca
Para pesquisas que exigem revisão bibliográfica sistemática, a estratégia de busca usa os descritores combinados com operadores booleanos (AND, OR, NOT). Isso é especialmente importante em revisões sistemáticas e integrativos, onde a estratégia de busca precisa ser reproduzível e documentada.
A lógica funciona assim:
O operador OR expande a busca. Você combina sinônimos e termos relacionados para garantir que nenhum artigo relevante fique de fora. Ex: “Ansiedade” OR “Transtornos de Ansiedade”.
O operador AND restringe a busca. Você combina descritores diferentes para que o resultado contenha todos eles. Ex: “Ansiedade” AND “Estudantes de Pós-Graduação”.
O operador NOT exclui termos. Você usa quando quer eliminar um subtema que não é relevante para sua pesquisa.
Essa combinação permite construir uma estratégia que é ao mesmo tempo abrangente (não perde artigos relevantes) e precisa (não recupera artigos que não interessam).
Um erro comum: usar só palavras livres
Muita gente faz busca bibliográfica usando apenas palavras-chave livres, sem consultar o vocabulário controlado. Isso funciona para buscas exploratórias, mas é insuficiente para pesquisas que precisam de rigor metodológico.
O problema das palavras livres é a variação. Um autor pode chamar a mesma condição de nomes diferentes, abreviar diferente, usar um sinônimo regional. Sem o descritor, você pode deixar passar artigos importantes só porque o autor usou uma nomenclatura que você não pensou em incluir na busca.
Para TCC e trabalhos de conclusão de curso em geral, dependendo da profundidade da revisão exigida pelo seu programa, pode ser que busca com palavras livres seja suficiente. Para mestrado, doutorado e especialmente para revisões sistemáticas, o uso de descritores é o padrão metodológico esperado.
Descritores e o Método V.O.E.
No Método V.O.E., a fase de pesquisa bibliográfica é tratada como uma etapa estruturada, não como uma busca improvisada. Isso inclui definir os descritores antes de abrir as bases de dados, e documentar a estratégia de busca para que ela possa ser descrita na metodologia do trabalho.
Quando você documenta “busquei no LILACS com os descritores X AND Y, filtrado por tal período e tais critérios de inclusão”, essa informação entra na seção de métodos do seu trabalho. O leitor (e o avaliador) consegue reproduzir sua busca. Isso é transparência metodológica.
Pular essa etapa de documentação é um dos erros mais comuns em revisões bibliográficas de mestrado e doutorado. A busca foi feita, o trabalho existe, mas não tem como verificar se foi rigorosa porque não foi registrada.
DeCS para áreas além da saúde
Embora o DeCS seja específico para as ciências da saúde, o princípio do vocabulário controlado se aplica em outras áreas. A educação tem o Thesaurus Brasileiro da Educação (BRASED). A área jurídica tem vocabulários próprios.
Se você está em outra área e procura algo equivalente ao DeCS, o ponto de partida é verificar se a base de dados que você usa para sua pesquisa indica algum vocabulário controlado ou tesauro próprio. A BVS (Biblioteca Virtual em Saúde) usa o DeCS. A ERIC (Educational Resources Information Center) usa seus próprios descritores para educação.
A lógica é sempre a mesma: existe um vocabulário padronizado? Use-o. Sua busca vai ser mais eficiente e seu método mais robusto.
Fechando com o essencial
DeCS não é burocracia. É ferramenta para você encontrar o que precisa sem depender da sorte de usar exatamente as mesmas palavras que o autor do artigo usou.
O site decs.bvsalud.org é gratuito. Leva menos de dois minutos para buscar o descritor do seu tema. Não tem motivo para construir estratégia de busca sem ele.
Se você está começando uma revisão bibliográfica agora, o próximo passo é abrir o site, buscar o descritor do seu tema principal e anotar: o termo preferencial, os sinônimos e os três termos relacionados mais relevantes para a sua pergunta de pesquisa.
Essa lista é o ponto de partida para uma estratégia de busca que você vai conseguir defender na banca. E quando a banca perguntar “como você fez sua busca?”, você vai ter uma resposta estruturada, não um “fui no Google Scholar e fui lendo o que aparecia”. Essa diferença importa mais do que parece na hora da avaliação.
Quer aprofundar? No post sobre revisão bibliográfica sistemática tem mais detalhes sobre como documentar a estratégia de busca completa e os critérios de inclusão e exclusão.