Diferença entre resenha e resumo: o que cada um pede
Resenha e resumo são confundidos o tempo todo na academia. A diferença não é de tamanho. É de propósito. Entenda o que cada texto quer de você.
A confusão que acontece desde a graduação
Vamos lá. Resumo e resenha são dois textos que a academia pede o tempo todo, e que são confundidos com frequência igual. A confusão vem de um equívoco simples: imaginar que a diferença é de tamanho. Que a resenha é um resumo mais longo.
Não é. A diferença é de propósito e de posição de quem escreve.
Resumo e resenha pedem coisas completamente diferentes. Entregar um quando o outro foi pedido não é questão de incompetência na execução. É incompreensão do que o texto pede.
O que é um resumo e o que ele pede de você
O resumo é um texto que representa o conteúdo de outro texto de forma condensada. Seu trabalho no resumo é reportar: o que o texto diz, quais são suas teses principais, qual é a estrutura do argumento, quais são as conclusões.
O resumo não pede sua opinião. Você não pode concordar ou discordar no resumo. Não pode dizer que o texto tem lacunas ou que o argumento é fraco. Você está, pela convenção do gênero, representando o que o autor quis dizer, não avaliando se ele disse bem.
Existem tipos diferentes de resumo com funções específicas.
O resumo indicativo apresenta apenas os pontos principais do texto, sem entrar em detalhes. Serve para o leitor decidir se vai ler o texto completo. É o resumo que aparece no início de artigos científicos (abstract).
O resumo informativo apresenta com mais detalhe o conteúdo do texto, incluindo dados, resultados e conclusões. O leitor termina de ler o resumo sabendo o que está no texto sem precisar ler o original.
O resumo crítico apresenta o conteúdo e inclui uma avaliação. Atenção: “resumo crítico” é um nome que causa confusão porque parece meio-termo entre resumo e resenha. A diferença está no equilíbrio: em um resumo crítico, a apresentação do conteúdo ainda predomina sobre a avaliação.
O que é uma resenha e o que ela pede de você
A resenha é um texto que apresenta e avalia um trabalho. Geralmente um livro, mas pode ser um artigo, uma dissertação, um filme, uma exposição.
Ela pede duas coisas que o resumo não pede: descrição e posicionamento crítico.
A descrição na resenha é mais seletiva do que no resumo. Você não precisa cobrir tudo. Você seleciona o que é mais relevante para a avaliação que vai fazer. A resenha não é resumo mais crítica. É um texto organizado em torno da sua posição sobre o que leu.
O posicionamento crítico não é opinião livre. Em uma resenha acadêmica, sua avaliação precisa ser fundamentada. Você identifica os méritos do trabalho: o que ele contribui, o que argumenta bem, o que preenche uma lacuna importante. E identifica as limitações: o que fica sem resposta, o que poderia ser desenvolvido, onde a metodologia não sustenta as conclusões.
Essa avaliação precisa ser baseada em critérios, não em gosto pessoal. Você avalia se o argumento é coerente, se as evidências sustentam as afirmações, se o autor dialoga adequadamente com a literatura da área, se as conclusões são proporcionais ao que foi investigado.
Por que a confusão acontece
Existem algumas razões para essa confusão persistir.
A primeira é que muitos professores pedem “resenha” quando querem um resumo. E o contrário também acontece. Isso cria imprecisão no uso do termo que se acumula ao longo da trajetória acadêmica.
A segunda é que a resenha inclui o resumo. Uma resenha bem feita apresenta o conteúdo do texto resenhado antes de avaliá-lo. Quem está aprendendo às vezes para na apresentação e esquece a avaliação. O resultado é um resumo bem escrito entregue como resenha.
A terceira é o desconforto com o posicionamento. Principalmente em contextos de formação inicial, existe uma ideia de que opinar sobre o trabalho de um pesquisador mais experiente é presunçoso. Isso cria textos que apresentam o conteúdo e terminam com frases genéricas como “o livro é uma contribuição importante para a área” sem nenhuma análise real.
Isso não é humildade. É resenha incompleta.
Como estruturar uma resenha acadêmica
Não existe uma estrutura universal obrigatória, mas um caminho que funciona:
Apresentação do texto resenhado. Quem escreveu, quando, onde foi publicado, qual o campo de conhecimento. Para o leitor que não conhece o trabalho, isso é o contexto necessário.
Síntese do argumento principal. O que o texto defende? Qual é a tese central? Isso não é resumo capítulo por capítulo. É a identificação do argumento que organiza o trabalho.
Apresentação da estrutura. Como o trabalho está organizado? Como cada parte contribui para o argumento central?
Avaliação dos méritos. O que o trabalho faz bem? Qual é sua contribuição original para o campo? Por que vale ser lido?
Avaliação das limitações. Onde o trabalho fica aquém? O que não foi respondido? O que poderia ser mais desenvolvido?
Conclusão. Para quem você recomenda esse trabalho e por quê? Qual o lugar dele na literatura da área?
Essa estrutura não é rígida. Em uma resenha mais curta, méritos e limitações podem aparecer integrados. Em uma mais longa, cada seção pode ser mais desenvolvida.
O teste que diferencia os dois textos
Se você escreveu algo e não tem certeza se é resumo ou resenha, faça este teste: existe alguma frase no texto que é claramente sua posição, não do autor do texto original?
Se não existe, o que você escreveu é resumo. Pode ser um ótimo resumo, mas é resumo.
Se existe, e se essa posição está fundamentada em argumento, não apenas em afirmação, você provavelmente escreveu uma resenha.
Resumo na pesquisa acadêmica: quando ele aparece
Além das atividades acadêmicas, o resumo aparece em contextos específicos da pesquisa que é importante conhecer.
O abstract de um artigo científico é um resumo informativo. Ele apresenta o problema, o objetivo, a metodologia, os resultados e as conclusões em poucos parágrafos. A maioria das revistas tem limite de palavras entre 150 e 300.
A resenha de literatura, às vezes chamada de revisão narrativa, é diferente. Ela apresenta e organiza o estado do conhecimento sobre um tema, mas também avalia a qualidade dos estudos, identifica lacunas e tendências. Está mais próxima da resenha do que do resumo no sentido de que envolve julgamento crítico.
O fichamento, que muitos confundem com resumo ou resenha, é outra coisa ainda: é a sistematização do que você leu para uso próprio. Inclui citações diretas, resumo dos argumentos e suas anotações pessoais. Não é para publicar, é para sua organização de leitura.
A resenha como prática de pensamento crítico
Quando você escreve uma resenha honesta de um texto acadêmico, você está exercitando algo que vai ser fundamental na sua pesquisa: a capacidade de avaliar trabalhos com critérios explícitos.
Isso é o que você vai fazer quando ler os artigos da sua revisão bibliográfica. Não só entender o que cada artigo diz, mas avaliar sua qualidade, identificar suas limitações, entender seu lugar na literatura. A resenha formal é prática explícita para uma habilidade que a pesquisadora usa o tempo todo de forma mais informal.
O Método V.O.E. parte de um princípio que se aplica aqui: escrever bem é pensar bem. Escrever uma resenha que realmente avalia, em vez de apenas descrever, é pensar sobre o que você leu em vez de apenas registrar.
É um exercício mais difícil do que o resumo. E mais formativo.
Uma nota sobre o estilo
Resenha pede voz. Não no sentido informal, mas no sentido de que você está presente no texto como avaliadora. Frases como “o autor argumenta convincentemente que…” ou “a metodologia apresenta uma limitação importante em…” colocam você como sujeito que avalia.
Resumo pede neutralidade. “O autor argumenta que…” sem o advérbio de avaliação. Você descreve, não avalia.
Essa distinção de estilo é sutil mas revela o propósito do texto. Preste atenção nela quando for escrever.