Como eu escrevi minha dissertação com um bebê de 6 meses
Escrever uma dissertação com filho pequeno é possível, mas exige estratégia e rede de apoio. Relato real sobre produtividade na maternidade acadêmica.
O que ninguém te prepara para
Vamos lá. Eu vou contar uma história que não aparece nos manuais de metodologia nem nos guias de pós-graduação: como é escrever uma dissertação com um bebê de seis meses em casa.
Não vou romantizar. Não foi bonito, não foi inspirador no sentido de Instagram, e não existe uma fórmula que transforme noites mal dormidas em capítulos prontos. Mas foi possível. E se eu estou contando essa história, é porque acredito que ela pode ajudar alguém que está passando pelo mesmo.
O contexto: pesquisa, prazo e fralda
Quando eu engravidei, já estava no mestrado. O plano original era terminar a dissertação antes do bebê nascer. Plano bonito. Não funcionou.
O terceiro trimestre de gravidez foi mais cansativo do que eu imaginava. A coleta de dados atrasou. A escrita ficou para depois do parto. E “depois do parto” é um período que quem não viveu não tem como dimensionar.
Aos seis meses do bebê, eu tinha: uma dissertação parcialmente escrita, um prazo se aproximando, um bebê que mamava a cada três horas, e uma culpa dupla permanente, de não estar suficientemente presente nem como mãe nem como pesquisadora.
Se você se identificou com algum desses pontos, continua lendo.
O que eu tentei e não funcionou
Primeiro, tentei manter a rotina que eu tinha antes do bebê. Sentar às 8 da manhã, escrever até o meio-dia, revisar à tarde. Não durou dois dias. O bebê não segue cronograma acadêmico.
Depois, tentei escrever à noite, depois que ele dormia. Em teoria, funcionava. Na prática, eu estava tão cansada que o texto que saía era ruim, e eu gastava o dia seguinte reescrevendo o que tinha feito na véspera. Deficit de sono e qualidade de escrita não combinam.
Tentei também os fins de semana inteiros com o pai cuidando do bebê enquanto eu ficava trancada escrevendo. Funcionou uma vez. Na segunda, a culpa de ficar o dia inteiro longe foi tão grande que eu não consegui me concentrar.
Nenhuma dessas abordagens era sustentável. E insistir nelas estava me esgotando mais do que a dissertação em si.
O que funcionou (para mim)
A virada aconteceu quando eu parei de tentar replicar a rotina de antes e aceitei que precisava de uma rotina diferente.
Blocos curtos de escrita. Em vez de sessões de quatro horas, passei a trabalhar em blocos de 45 minutos a uma hora. O bebê dormia de manhã por cerca de uma hora e meia. Essa era minha primeira janela. No começo da tarde, mais uma hora quando ele cochilava. E à noite, quando o cansaço permitia, mais um bloco curto.
Total: duas a três horas por dia, no máximo. Parece pouco. E é. Mas duas horas de escrita focada, sem e-mail, sem redes sociais, sem tentar fazer outra coisa ao mesmo tempo, produzem mais texto útil do que seis horas de tentativa difusa.
Preparação antes de escrever. Antes de cada bloco de escrita, eu já sabia o que ia escrever. Na noite anterior, ou no intervalo entre mamadas, eu rabiscava em um caderno: “amanhã cedo: seção 3.2, argumento sobre X, conectar com Y”. Quando sentava para escrever, não perdia tempo decidindo o que fazer. Já sabia.
No Método V.O.E., a fase de Orientação trabalha exatamente isso: ter clareza do que vai escrever antes de abrir o editor. Quando o tempo é escasso, essa preparação vale ouro.
Rede de apoio ativada. Eu precisei pedir ajuda. Para a família, para o pai do bebê, para amigas. Pedir que alguém ficasse com o bebê por duas horas para eu poder escrever. Pedir que alguém fizesse o almoço. Pedir que alguém só ouvisse quando eu precisava reclamar.
Pedir ajuda não é fracasso. É estratégia de sobrevivência na pós-graduação com filho pequeno. E uma coisa que eu descobri: as pessoas ao redor geralmente querem ajudar, mas não sabem como. Quando eu deixava claro o que precisava (“preciso de duas horas amanhã de manhã para escrever, você pode ficar com ele?”), a resposta era quase sempre sim. O difícil era eu me permitir pedir.
Outra coisa que ajudou: aceitar que nem todo bloco de escrita ia render. Alguns dias eu sentava para escrever e o texto simplesmente não saía. O cansaço era grande demais, ou a preocupação com o bebê não deixava minha cabeça. Nesses dias, eu trocava a escrita por leitura, revisão de notas ou organização de referências. Não era o ideal, mas era trabalho que avançava sem exigir a mesma energia criativa.
Conversa honesta com a orientação. Eu sentei com minha orientadora e disse: “eu preciso de mais tempo e de mais flexibilidade”. Não foi fácil dizer isso. Parecia admissão de incompetência. Mas a reação dela foi de compreensão. Ajustamos o cronograma, redefinimos prioridades, e ela passou a mandar feedbacks mais objetivos para que eu não perdesse tempo reescrevendo por dúvida.
Nem todo orientador vai reagir assim. Mas vale tentar a conversa. Muitos orientadores entendem, especialmente se você apresenta um plano concreto de como pretende concluir.
O que eu gostaria que o sistema fizesse diferente
Essa parte é opinião, e eu faço questão de dizer que é.
A pós-graduação brasileira não foi pensada para mães. Não foi pensada para pais, tampouco, mas o peso desproporcional sobre as mulheres é uma realidade que qualquer pessoa na academia reconhece.
Bolsas que não permitem licença-maternidade adequada. Prazos rígidos que não consideram gestação e puerpério. Ausência de creches nas universidades. Comitês que olham para o Lattes e veem um “buraco” na produção como sinal de falta de dedicação, quando na verdade é sinal de alguém que fez pesquisa e criou um ser humano ao mesmo tempo.
Isso precisa mudar. E está mudando, aos poucos. A CAPES ampliou a licença para bolsistas gestantes. Algumas universidades estão criando políticas de extensão de prazo. Mas ainda estamos longe do que seria justo.
Se você é mãe ou pai na pós-graduação, saiba que as dificuldades que você enfrenta não são culpa sua. São do sistema que não foi desenhado para a sua realidade. E você tem o direito de pedir adaptações sem culpa.
Para quem está no meio disso agora
Se você está lendo isso com um bebê no colo e uma dissertação para entregar, quero dizer algumas coisas.
Primeiro: o ritmo vai ser diferente, e tudo bem. Comparar sua produtividade com a de colegas sem filhos é comparar coisas que não se comparam. Você tem mais responsabilidades. Seu tempo é mais escasso. E ainda assim, está avançando.
Segundo: feito é melhor que perfeito. O capítulo que está pronto, mesmo que precise de revisão, é melhor que o capítulo perfeito que não existe. Escreva a versão possível agora. Melhore depois.
Terceiro: cuide de você. Não adianta terminar a dissertação e chegar à defesa destruída. Se precisar de um dia sem escrever, tire o dia. Se precisar dormir em vez de ler artigos, durma. Seu corpo e sua saúde mental não são obstáculos à pesquisa. São condição para ela.
E quarto: você vai conseguir. Não porque eu acredite em fórmulas motivacionais, mas porque muitas mães e pais pesquisadores antes de você conseguiram, cada um no seu tempo e do seu jeito. Não é fácil. Não deveria ser tão difícil quanto