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Epígrafe Acadêmica: O Que É, Como Escolher e Exemplos

Saiba o que é epígrafe em trabalho acadêmico, como escolher uma boa citação para o TCC, onde colocar e o que a ABNT diz sobre o uso.

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Por que a epígrafe importa mais do que parece

A maioria das pesquisadoras escolhe a epígrafe nos últimos dias antes de entregar o TCC. Navega por citações bonitas na internet, escolhe uma que soa bem, e coloca. Funciona. Mas dá para fazer melhor.

Epígrafe é uma citação breve colocada no início de um trabalho ou capítulo acadêmico para antecipar a perspectiva teórica, o problema ou o tom da pesquisa. Quando bem escolhida, ela não é enfeite: é a primeira comunicação que o trabalho faz ao leitor antes de qualquer argumento explícito.

A banca que lê sua epígrafe antes de abrir o sumário já começa a formar expectativa sobre o que vai encontrar. Vale pensar o que você quer comunicar ali.

O que a ABNT diz sobre epígrafe

A NBR 14724, que normatiza trabalhos acadêmicos, classifica a epígrafe como elemento pré-textual opcional. Isso significa que você pode incluir ou não, conforme o que fizer sentido para o trabalho.

Quando incluída, a posição na estrutura do documento é definida:

  1. Capa (obrigatória)
  2. Folha de rosto (obrigatória)
  3. Errata (opcional)
  4. Folha de aprovação (obrigatória)
  5. Dedicatória (opcional)
  6. Agradecimentos (opcional)
  7. Epígrafe (opcional)
  8. Resumo em português (obrigatório)
  9. Resumo em língua estrangeira (obrigatório)
  10. Sumário (obrigatório)

A epígrafe pode aparecer também no início de cada capítulo, não apenas no início do trabalho como um todo. Nesse caso, cada capítulo pode ter sua própria epígrafe relacionada ao que aquela seção desenvolve.

Quanto à formatação, a ABNT não especifica fonte ou tamanho diferenciado para a epígrafe. A prática mais comum é usar o mesmo corpo de texto do trabalho, com a citação em itálico e o nome do autor alinhado à direita abaixo da citação.

Como escolher uma boa epígrafe

A epígrafe ideal tem três características: é curta, é de autora ou obra reconhecida no campo, e antecipa algo real do trabalho.

Curta significa que cabe em uma tela ou página sem dominar o espaço. Uma ou duas frases. No máximo um parágrafo pequeno. Citação longa vira texto, não epígrafe.

De autora ou obra reconhecida não significa necessariamente que precisa ser de um teórico consagrado da sua área. Pode ser de um escritor, de um pensador, de alguém cuja obra dialoga com o problema que você investiga. O que não funciona é citação de autoajuda ou frase sem autoria clara.

Antecipar algo real do trabalho é o critério mais importante. A epígrafe que é escolhida pelo som bonito da frase, sem relação com o argumento da pesquisa, aparece como decoração. A que sintetiza em uma frase a tensão que seu trabalho vai desenvolver serve ao leitor desde a primeira página.

Tipos de epígrafe e quando cada uma funciona

Epígrafe teórica é aquela que vem de um autor central para o referencial do trabalho. Se sua dissertação usa Bourdieu como base, uma frase de Bourdieu que sintetiza o conceito que você está aplicando funciona bem. Indica ao leitor experiente qual perspectiva guia a análise.

Epígrafe poética ou literária é aquela que vem de um texto não acadêmico mas que captura a dimensão humana do problema investigado. Funciona especialmente em pesquisas de ciências humanas que lidam com experiência subjetiva. Uma dissertação sobre sofrimento no trabalho docente, por exemplo, pode se beneficiar de um verso que captura aquela experiência de forma que prosa acadêmica não alcança.

Epígrafe crítica é aquela que apresenta uma posição que o trabalho vai questionar ou refinar. Você coloca a frase de alguém com quem vai discordar, e o trabalho desenvolve esse argumento. É um recurso mais sofisticado, mas quando funciona, cria tensão produtiva desde o início.

Exemplos de epígrafe por área

Para dissertações sobre educação ou formação de professores, frases de Paulo Freire, Anísio Teixeira ou Boaventura de Sousa Santos são frequentes e geralmente bem recebidas pela banca. O risco é que sejam tão usadas que percam impacto.

Para pesquisas em saúde pública e ciências sociais, citações de relatórios da OMS ou de pesquisadoras como Naomi Oreskes funcionam quando a frase captura o problema com precisão.

Para áreas de ciências exatas, a epígrafe é menos comum mas não estranha. Uma citação de Richard Feynman sobre o processo de investigação científica, por exemplo, pode contextualizar uma dissertação metodológica.

Para pesquisas sobre identidade, gênero ou raça, a epígrafe de autoras do campo é especialmente carregada de sentido político e teórico, o que pode ser um recurso poderoso ou um marcador que você quer fazer explicitamente desde o início.

O que evitar na epígrafe

Frases de autor desconhecido ou sem atribuição clara criam problema. A banca pode perguntar quem é. Se você não sabe, aparece.

Citações muito longas perdem o efeito de síntese que é a função da epígrafe.

Frases de autoajuda ou motivacionais, mesmo que bonitas, não combinam com o registro acadêmico. A epígrafe sinaliza o repertório de referências da pesquisadora. Uma citação de coachismo sinaliza algo que provavelmente não é o que você quer sinalizar.

Epígrafe sem relação com o trabalho é a mais comum e a menos útil. Se você precisar explicar como a epígrafe se relaciona com o tema da pesquisa, a epígrafe não está funcionando.

Epígrafe por capítulo: quando vale a pena

Trabalhos mais longos, como dissertações e teses, às vezes usam epígrafe não apenas no início do trabalho mas também no início de cada capítulo. Isso funciona quando cada capítulo tem um argumento central suficientemente distinto para merecer sua própria ancoragem.

Não é necessário fazer isso em todos os capítulos. Se um capítulo de revisão de literatura não tem uma epígrafe que faça sentido, não force. Epígrafe forçada piora o trabalho.

A coerência entre as epígrafe do trabalho todo e as de cada capítulo cria um fio condutor que leitores atentos percebem e valorizam. Mas esse efeito só funciona se as escolhas forem genuínas, não decorativas.

Como a epígrafe se relaciona com o Método V.O.E.

A fase de Visualizar do Método V.O.E. (Visualizar, Organizar, Escrever) é exatamente onde a epígrafe encontra seu lugar natural. Quando você visualiza o trabalho como um todo antes de começar a escrever, percebe qual é o argumento central, qual a tensão que vai sustentar a investigação, e qual perspectiva guia tudo isso.

É nesse momento de visão de conjunto que a epígrafe certa aparece. Não na véspera da entrega, mas quando você consegue dizer em uma frase o que seu trabalho quer dizer. Se você ainda não consegue fazer isso, a epígrafe vai esperar. E tudo bem.

Referência na lista de referências: precisa ou não?

Uma dúvida prática que aparece com frequência: se a epígrafe é de um livro que você citou no corpo do trabalho, a referência já vai estar na lista. Nenhum problema.

Mas se a epígrafe é de uma fonte que você não cita em nenhum outro lugar do texto, a questão é mais sutil. A NBR 14724 não exige que a epígrafe apareça na lista de referências. A prática varia entre programas de pós-graduação.

O mais seguro é verificar as normas da sua instituição. Se não houver instrução específica, a convenção mais comum é incluir a referência completa na lista quando a obra não é citada em nenhuma outra parte do trabalho, para dar crédito adequado ao autor.

Epígrafe em inglês ou outro idioma: vale traduzir?

Se a frase que você quer usar está em inglês e seu trabalho é em português, você tem algumas opções.

Colocar a versão original em inglês é a prática mais comum em trabalhos acadêmicos. A banca lê inglês. Não há problema.

Colocar a tradução junto da versão original, com uma nota indicando que é tradução livre sua, também é aceito. Useful quando a frase vai ser lida por uma banca que pode não ser fluente na língua original.

Traduzir sem indicar que é tradução é o que não se faz. Se você traduziu, isso precisa estar indicado.

Usar a tradução publicada de um tradutor reconhecido, indicando quem traduziu, é a opção mais cuidadosa quando existe tradução publicada da obra em questão.

Uma perspectiva sobre escolha

A melhor epígrafe que você pode escolher é aquela que você leria para um colega de pesquisa e ele diria “ah, faz todo sentido dado o que você está estudando”. Não precisa ser a frase mais bonita do cânone. Precisa ser a frase certa para aquele trabalho específico.

Se você não encontrou essa frase ainda, não invente. Um trabalho sem epígrafe é um trabalho sem epígrafe. A ABNT permite. A banca não vai penalizar. E forçar uma citação que não tem relação real com o trabalho faz mais mal do que bem.

Perguntas frequentes

O que é epígrafe em trabalho acadêmico?
Epígrafe é uma citação curta colocada no início de um trabalho, capítulo ou seção acadêmica, logo após a folha de rosto, dedicatória e agradecimentos. Ela indica a perspectiva teórica ou o tom do trabalho. Não é obrigatória pela ABNT, mas é permitida e tem lugar definido na estrutura do documento.
A ABNT exige epígrafe no TCC?
Não. A NBR 14724, que normatiza trabalhos acadêmicos, lista a epígrafe como elemento pré-textual opcional. Você pode incluir ou não, conforme a relevância para o seu trabalho. Quando incluída, deve vir após a folha de rosto, dedicatória e agradecimentos, antes do sumário.
Precisa colocar referência completa na epígrafe?
A ABNT indica que a epígrafe deve trazer apenas o nome do autor, sem necessidade de referência completa na lista de referências ao final. A prática mais comum é colocar o nome do autor e, quando relevante, a obra entre parênteses logo abaixo da citação.

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