Errata na Dissertação: Quando e Como Fazer
A errata da dissertação não é vergonha: é o instrumento oficial para corrigir erros após a publicação. Entenda quando ela é necessária e como elaborar.
A errata existe para isso: corrigir sem esconder
Olha só: você depositou a dissertação, o trabalho está no repositório, o processo está concluído, e então você abre o PDF pela décima vez e encontra um erro que passou pela banca inteira, pela revisão, pela leitura final, por tudo.
Acontece. Acontece com as melhores dissertações, com os pesquisadores mais cuidadosos, com trabalhos que levaram anos para ficar prontos.
A errata é o instrumento formal que existe para isso. Não para envergonhar o autor. Não como punição. Mas como parte do processo científico que reconhece que textos são produzidos por humanos, e humanos erram.
Entender quando a errata é necessária e como fazê-la corretamente é o que evita que um erro identificado tardiamente vire um problema maior do que deveria ser.
O que é a errata, tecnicamente
A errata é um elemento pré-textual da dissertação, previsto pela norma ABNT NBR 14724. Ela deve aparecer logo após a folha de rosto, em folha separada, e listar os erros identificados na obra após o depósito ou impressão, com as correções correspondentes.
O formato padrão é uma tabela com as seguintes colunas:
Folha, linha, onde se lê, leia-se.
Assim: se na página 47, linha 12, você escreveu “metodologia quantitativa” quando deveria ter escrito “metodologia qualitativa”, a errata registra exatamente isso, de forma clara e rastreável.
O objetivo é que qualquer leitor que encontre o erro possa identificar a correção sem depender de informação extra-textual.
Quando a errata é necessária
Nem todo erro justifica errata. A pergunta que você precisa responder é: esse erro compromete a compreensão do trabalho ou a validade das informações?
Erros que merecem errata são aqueles que:
Alteram o significado de uma afirmação metodológica. Se você escreveu que sua amostra tinha 80 participantes e na verdade tinha 180, isso muda o que o leitor vai entender sobre a pesquisa.
Comprometem dados, resultados ou conclusões. Números trocados, percentuais errados, referências incorretas que levam a uma fonte diferente da usada.
Geram ambiguidade relevante no desenvolvimento teórico. Se um conceito central foi descrito de forma que pode ser mal interpretado por equívoco textual, e não por escolha do autor, a errata esclarece.
Citam autores incorretamente. Nome errado de um autor referenciado, ano de publicação equivocado, ou página de citação que não corresponde ao original.
Erros que, em geral, não precisam de errata formal são aqueles tipográficos que não afetam o sentido (letras trocadas numa palavra que ainda é legível), preposições ou artigos incorretos sem impacto semântico, e pequenos erros de concordância que não mudam a interpretação.
A dúvida sempre passa pelo critério de relevância: o leitor que não sabe do erro vai entender algo diferente do que você quis dizer?
Como elaborar a errata
Se você determinou que a errata é necessária, o processo é o seguinte:
Primeiro, identifique todos os erros que merecem correção. Não faça errata por partes: levante tudo de uma vez, porque adicionar uma segunda errata depois de um tempo é possível, mas aumenta a complexidade.
Depois, monte a tabela no formato padrão ABNT. Uma errata pode ser uma folha única com várias linhas de correção, ou uma tabela mais longa se os erros forem numerosos.
O modelo de referência na folha de errata indica a própria dissertação como obra: autor, título, local, data, e então as correções. Veja um exemplo de formato:
SOBRENOME, Nome. Título da dissertação. Ano.
| Folha | Linha | Onde se lê | Leia-se |
|---|---|---|---|
| 47 | 12 | metodologia quantitativa | metodologia qualitativa |
| 83 | 5 | 80 participantes | 180 participantes |
O texto da errata em si é mínimo: geralmente apenas a tabela, precedida pela referência da obra. Sem explicações, sem justificativas elaboradas, sem pedidos de desculpa.
Onde a errata vai depois de pronta
Se a dissertação já está depositada no repositório institucional e o arquivo foi gerado antes de você identificar os erros, existem algumas opções.
A opção mais comum é inserir a folha de errata no início do arquivo PDF e depositar uma versão atualizada no repositório, com uma nota indicando que a versão foi corrigida pela errata. Isso depende da política da biblioteca e do programa: algumas aceitam o reenvio do arquivo, outras mantêm o original e pedem que a errata seja enviada em separado.
Se a dissertação foi impressa (em programas que ainda exigem exemplares físicos), a errata pode ser impressa em papel avulso e fixada antes da folha de rosto dos exemplares existentes.
Em todo caso, vale contatar a biblioteca do programa para entender o procedimento específico da instituição antes de tomar qualquer ação.
O que a errata não é
Existe uma confusão comum que vale esclarecer: a errata não é o lugar para revisar suas conclusões ou atualizar a pesquisa.
Se você publicou sua dissertação e depois fez novos estudos que contradizem o que concluiu, isso não vai para a errata. Vai para artigos futuros, para a tese de doutorado, para publicações subsequentes. A errata é restrita a erros de registro, não a mudanças de posição intelectual.
Da mesma forma, a errata não serve para incorporar sugestões da banca que não foram implementadas antes do depósito. Se a banca pediu alterações e você as fez nas correções pré-depósito, ótimo. Se havia sugestões que ficaram de fora e você quer adicioná-las, o processo depende do regulamento do programa.
Por que isso não é vergonha
A existência de uma errata num trabalho científico não é sinal de descuido ou incompetência. É sinal de que o autor continuou lendo o próprio trabalho depois de terminado e teve honestidade intelectual para corrigir o que identificou.
Dissertações são documentos longos, produzidos sob pressão de tempo, revisados por pessoas que também estão cansadas. Erros passam. Passam em dissertações, em teses, em artigos de revistas Qualis A1, em livros de grandes editoras.
O que diferencia um trabalho sério não é a ausência de erros, mas o tratamento que eles recebem quando identificados.
Uma errata bem feita é, na prática, uma demonstração de cuidado com quem vai ler o trabalho depois de você.
Errata e o Lattes: precisa atualizar?
Uma dúvida que surge com frequência é se a errata precisa ser comunicada ao Currículo Lattes ou a outras plataformas onde a dissertação está registrada.
A resposta prática é: não há campo específico no Lattes para errata de dissertação. O que você pode fazer, se quiser, é atualizar os metadados do trabalho no Lattes para indicar que existe uma versão corrigida, mas isso não é exigência.
Se o seu trabalho foi indexado na BDTD (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações) e o repositório atualizou o arquivo, a indexação eventualmente reflete a versão nova. O processo de atualização na BDTD depende da regularidade com que cada repositório institucional envia os dados para o sistema central.
Não é preciso perder horas tentando atualizar manualmente cada plataforma onde a dissertação aparece. Concentre os esforços em corrigir o arquivo no repositório institucional: é de lá que os outros sistemas puxam as informações.
Um detalhe que faz diferença: a versão do arquivo
Se você fez a errata e depositou uma nova versão do PDF no repositório, cuide para que a versão corrigida seja identificada como tal. Uma nota discreta no início do documento, como “Segunda versão corrigida por errata em [data]”, ajuda qualquer leitor a entender que está lendo o arquivo atualizado.
Isso é especialmente importante se o seu trabalho já foi citado por outros pesquisadores antes da correção. Manter a rastreabilidade das versões é parte do cuidado com a integridade do registro científico.
Erros acontecem. O que você faz com eles depois diz muito sobre o tipo de pesquisador que você é.