Método

Escrita Acadêmica no Direito: Especificidades

A dissertação de mestrado em Direito tem lógica própria. Entenda as especificidades da escrita jurídica acadêmica e como construir rigor metodológico.

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Por que o Direito tem uma tradição de escrita diferente

Olha só: se você é advogada e entrou no mestrado em Direito esperando uma sequência natural do que já faz na prática, pode ter levado um susto nas primeiras semanas de disciplinas.

A escrita jurídica acadêmica não é peça processual. Não é parecer. Não é memorando. Ela tem regras próprias, uma tradição argumentativa específica e exige um tipo de posicionamento que a prática forense não necessariamente treina.

Ao mesmo tempo, a formação acadêmica em Direito no Brasil ainda tem uma tensão não resolvida entre a pesquisa dogmática (análise das normas como elas são, interpretação do ordenamento jurídico positivo) e a pesquisa crítica (análise do Direito como fenômeno social, político e histórico). Essa tensão aparece nas bancas, nas revistas, nas orientações.

Entender onde sua pesquisa se situa dentro dessa tensão é o primeiro passo para escrever bem no mestrado em Direito.

O que é pesquisa jurídica, e o que ela não é

Antes de falar de como escrever, preciso falar de como pensar a pesquisa em Direito.

A maioria das pesquisas jurídicas no Brasil é dogmática. Isso não é um insulto. Pesquisa dogmática significa que você parte das normas postas, a legislação, a constituição, os tratados, a jurisprudência consolidada, e as analisa, interpreta, sistematiza, critica.

O problema é quando a pesquisa dogmática se limita a descrever o que a norma diz sem ir além. Uma dissertação que apenas reproduz o texto legal sem construir argumento, sem problematizar, sem estabelecer tensões ou lacunas, pode ser muito bem escrita tecnicamente e ainda assim ser academicamente fraca.

Pesquisa jurídica de qualidade, seja dogmática, seja empírica, seja teórica, precisa de pergunta de pesquisa. Isso parece óbvio, mas nos programas de Direito ainda é frequente ver projetos que têm “tema” mas não têm “problema”. “Direito penal e adolescentes” é um tema. “A aplicação do princípio da intervenção mínima nas decisões do TJSP sobre medidas socioeducativas entre 2020 e 2024 contraria a doutrina da proteção integral?” é uma pergunta.

As fontes do Direito e como usá-las na dissertação

A pesquisa em Direito trabalha com um conjunto de fontes que é diferente de outras ciências humanas. Entender como usá-las na dissertação é parte do rigor metodológico.

Legislação

A lei, a Constituição, os tratados internacionais são fontes primárias do Direito. Na dissertação, você analisa, interpreta e critica essas fontes. Não basta citar o artigo, você precisa mostrar o que ele significa no ordenamento, como foi aplicado, com quais consequências.

Jurisprudência

As decisões dos tribunais, especialmente STF, STJ, TST, TRFs, são fontes que constroem o sentido prático das normas. Analisar jurisprudência exige mais do que selecionar acórdãos favoráveis ao seu argumento. Exige mostrar o estado do entendimento do tribunal, as tendências de decisão, os votos divergentes.

Pesquisas que analisam um volume maior de decisões (como análises de jurisprudência do tipo empirismo jurídico) precisam descrever critérios de busca, recorte temporal, base de dados utilizada (JusBrasil, site do tribunal, Supremo Jurídico).

Doutrina

Os autores do Direito, os doutrinadores, são referência central na dissertação jurídica. Diferente de outras ciências, onde você dialoga com teorias gerais, no Direito você frequentemente precisa posicionar sua análise em relação ao que os autores especializados em seu tema dizem.

Citar Kelsen, Hart, Dworkin e outros filósofos do direito é diferente de citar doutrinadores do direito positivo brasileiro. Saiba distinguir e articular os dois planos quando necessário.

A estrutura da dissertação em Direito

A dissertação em Direito segue as normas ABNT (NBR 14724) como as de outros campos, mas tem algumas convenções próprias.

Introdução

Deve apresentar o problema jurídico, a justificativa da pesquisa, os objetivos, a delimitação do objeto, a metodologia e a estrutura dos capítulos. No Direito, é especialmente importante que a introdução deixe claro se a abordagem é dogmática, crítica, empírica ou combinada.

Desenvolvimento, capítulos teórico e analítico

O arranjo pode variar muito por tema e por orientador. Uma estrutura comum:

  • Capítulo 1: contextualização histórica e normativa do tema
  • Capítulo 2: análise doutrinária e teórica
  • Capítulo 3: análise crítica dos dados (jurisprudência, legislação comparada, dados empíricos)

Esse arranjo não é fixo. O que precisa estar claro é a progressão argumentativa, cada capítulo deve construir sobre o anterior e levar à sua conclusão.

Considerações finais

No Direito, as considerações finais têm uma responsabilidade argumentativa importante. Você precisar responder à sua pergunta de pesquisa, apresentar sua contribuição para o campo e indicar limites e perspectivas futuras. Não é um resumo, é uma síntese com posicionamento.

O que os programas de Direito cobram e o que muitos recusam

Há uma disputa metodológica nos programas de pós-graduação em Direito que vale você conhecer antes de entrar em conflito com seu orientador ou com a banca.

Parte dos programas brasileiros ainda resiste a exigir “metodologia de pesquisa” no formato das ciências sociais. Nessa visão, o método jurídico é suficiente e a imposição de critérios como “abordagem qualitativa” ou “instrumento de coleta de dados” seria inadequada para a natureza da pesquisa jurídica.

Outra parte, especialmente programas com influência de escolas de pensamento crítico ou de pesquisa empírica no Direito, exige que o pesquisador explicite sua posição epistemológica, seu método de análise e, quando há coleta de dados primários, seus procedimentos.

O que fazer? Descubra qual é a cultura do seu programa e do seu orientador. Não é capitulação, é estratégia. Você vai poder ter uma pesquisa mais epistemologicamente elaborada dentro das convenções do campo do que contra elas.

Citação e referência no Direito: atenção às normas

A maioria dos programas de Direito usa as normas ABNT (NBR 6023 e NBR 10520). Mas há especificidades nas citações jurídicas:

  • Legislação: cite o diploma legal completo na primeira menção (Lei nº 10.406/2002, Código Civil). Nas demais, pode abreviar.
  • Acórdãos: cite o tribunal, o número do processo, o relator, a data de julgamento e o diário de publicação.
  • Recursos eletrônicos: muitas decisões estão disponíveis online. Cite a URL e a data de acesso.

Alguns programas também aceitam ou exigem a norma ABNT Jurídica (NBR 6034 para índice, etc.). Confirme com seu orientador.

Escrita que argumenta, não descreve

Aqui tem um ponto que diferencia a dissertação mediana da dissertação que merece publicação: a escrita argumentativa.

Descrever o que a lei diz é diferente de argumentar sobre o que ela deveria dizer, por que a interpretação dominante tem problemas, ou como determinada decisão judicial contraria os princípios que ela afirma proteger.

No Direito, o argumento não precisa ser neutro. Você pode, e em alguns casos deve, defender uma tese. A ideia de que a dissertação acadêmica deve ser “objetiva” não significa ausente de posicionamento. Significa que seu posicionamento precisa ser sustentado, demonstrado e submetido a escrutínio.

A melhor dissertação em Direito que já li não concordava comigo em nada. Mas argumentava com rigor, usava bem as fontes e mostrava coerência entre premissas e conclusões. Isso é excelência acadêmica.

A relação entre prática profissional e pesquisa acadêmica

Muitos mestrandos em Direito já exercem a advocacia, a magistratura, a defensoria ou o ministério público. Essa experiência é riqueza, mas exige cuidado.

O que você vê na prática pode ser o ponto de partida da sua pesquisa. Mas na dissertação, você não está processando um caso. Você está construindo conhecimento que vai além do caso específico, que dialoga com a doutrina, que ilumina algo do ordenamento jurídico que ainda não estava tão bem compreendido.

A prática informa o problema. A pesquisa responde ao problema de um jeito que a prática sozinha não consegue.

Para finalizar: o Direito precisa de mais pesquisa crítica

Vou deixar uma coisa aqui que é minha opinião, não consenso: o Direito brasileiro, como campo acadêmico, ainda produz muita pesquisa descritiva e pouca pesquisa que questiona o próprio ordenamento.

Dissertações que mapeiam o que a lei diz sobre um tema têm valor informativo. Mas dissertações que perguntam “quem essa lei beneficia?”, “quais grupos ela invisibiliza?”, “que pressupostos filosóficos sustentam essa decisão?”, essas fazem uma contribuição diferente.

Os dois tipos de pesquisa têm lugar. Mas o campo precisa de mais do segundo.

Se você quer organizar melhor seu processo de escrita, incluindo como construir argumento, estruturar capítulos e gerenciar a revisão da dissertação, veja como o Método V.O.E. pode apoiar esse processo.

Perguntas frequentes

Como escrever uma dissertação de mestrado em Direito?
A dissertação em Direito exige clareza na delimitação do problema jurídico, domínio das fontes do direito (legislação, jurisprudência, doutrina), posicionamento teórico-metodológico explícito e capacidade argumentativa sustentada. A pesquisa jurídica tem lógica própria: o argumento se constrói pela análise crítica das fontes, não necessariamente pela coleta empírica de dados.
Pesquisa em Direito é qualitativa ou quantitativa?
A maioria das pesquisas em Direito é qualitativa, com foco em análise documental (legislação, jurisprudência, doutrina), interpretação de normas e construção argumentativa. Pesquisas empíricas no Direito, que coletam e analisam dados sobre aplicação da lei, perfil de decisões judiciais ou impactos de políticas jurídicas, são crescentes, mas ainda minoritárias nos programas brasileiros.
O que é metodologia jurídica e como ela aparece na dissertação?
Metodologia jurídica não é a mesma coisa que metodologia de pesquisa em ciências sociais. No Direito, ela inclui os métodos de interpretação normativa (gramatical, sistemático, teleológico, histórico), os critérios de hierarquia e aplicação das normas, e o modo como o pesquisador constrói seu argumento a partir das fontes jurídicas. Na dissertação, isso precisa ser explicitado no capítulo metodológico.
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