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Expressões Proibidas em Texto Acadêmico: o que Evitar

Certas expressões comprometem a credibilidade do seu texto científico. Saiba quais são, por que são problemáticas e como substituí-las com precisão.

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Texto acadêmico tem linguagem própria, e errar nela tem custo

Vamos lá. Você pode ter pesquisado com rigor, ter coletado dados com cuidado, ter lido centenas de artigos. Mas se o texto que registra tudo isso usa expressões vagas, subjetivas ou imprecisas, a banca vai questionar a sua credibilidade, e com razão.

Não é frescura linguística. É que o texto acadêmico tem funções específicas: comunicar com precisão, permitir verificação das afirmações e distinguir o que é dado do que é interpretação. Quando as expressões usadas dificultam isso, o texto perde a sua função essencial.

Este post não é uma lista de regras arbitrárias. É um mapa de por que certas expressões comprometem o que você está tentando fazer, com alternativas concretas para cada caso.

Generalizações sem suporte quantitativo

Expressões problemáticas: “a maioria das pessoas”, “grande parte dos pesquisadores”, “muitos estudos mostram”, “a literatura aponta que”, “segundo vários autores”.

Por que comprometem: Essas construções afirmam tendências sem permitir ao leitor verificar de onde vem a afirmação. “A maioria das pessoas” de quem? Em qual contexto? Com base em qual levantamento? “Muitos estudos” é quantos e quais?

Alternativas:

  • “Três em cada quatro participantes relataram… (Silva et al., 2023)”
  • “Em revisão sistemática que analisou 47 estudos, Santos (2022) identificou que…”
  • “Os estudos de X, Y e Z convergem ao indicar que…”

Se você não tem dados para quantificar, use o que tem com honestidade: “Os estudos consultados nesta revisão sugerem que…” especifica o escopo sem generalizar além do que você pode sustentar.

Marcadores temporais vagos

Expressões problemáticas: “atualmente”, “hoje em dia”, “nos dias de hoje”, “recentemente”, “antigamente”, “desde sempre”, “historicamente”.

Por que comprometem: Tempo é uma variável de pesquisa. “Atualmente” em 2015 é diferente de “atualmente” em 2025. Um revisor lendo seu texto em 2030 não sabe a que período você se refere. Além disso, “desde sempre” e “historicamente” frequentemente mascaram afirmações não verificadas.

Alternativas:

  • “Entre 2018 e 2023, observou-se que…”
  • “No contexto do ensino superior brasileiro no período pós-pandemia (2021-2024)…”
  • “Ao longo do século XX, especialmente a partir da década de 1970…”

Se você está falando de tendências atuais, especifique o período da literatura que está revisando.

Afirmações de senso comum apresentadas como fatos

Expressões problemáticas: “é óbvio que”, “todo mundo sabe que”, “é natural que”, “é lógico que”, “evidentemente”, “claramente”, “sem dúvida”.

Por que comprometem: Essas expressões substituem argumentação por pressão de aceitação. Se é óbvio, por que você está dizendo? Porque não é óbvio para todos, e você precisa fundamentar. Além disso, o que parece óbvio em uma cultura ou contexto histórico pode não ser em outro, e a pesquisa existe justamente para questionar evidências assumidas.

Alternativas: Demonstre em vez de afirmar. Em vez de “é óbvio que o estresse afeta a aprendizagem”, escreva “estudos sobre neurociência cognitiva demonstram que o estresse crônico compromete a memória de trabalho (referência)”. A afirmação fica mais forte, não mais fraca.

Atribuições imprecisas de fonte

Expressões problemáticas: “estudos mostram que”, “a ciência comprova que”, “pesquisas indicam que”, “segundo especialistas”, “de acordo com pesquisadores”.

Por que comprometem: “A ciência” não é uma entidade unificada com posições únicas. “Pesquisas indicam” sem citar quais não permite verificação. Essas construções dão aparência de fundamento sem fornecer o endereço real da evidência.

Alternativas: Cite o estudo. Sempre. Se você está revisando literatura, agrupe por tema e cite cada fonte:

  • “Estudo longitudinal com 1.200 estudantes universitários demonstrou que… (Lima & Faria, 2021)”
  • “Meta-análise conduzida por Rodrigues (2020) sintetizou evidências de 23 estudos sobre…”

Se você realmente não tem a fonte específica, não escreva a afirmação. Ou pesquise a fonte antes.

Linguagem carregada de valor subjetivo

Expressões problemáticas: “infelizmente”, “felizmente”, “surpreendentemente”, “de maneira admirável”, “preocupantemente”, “de forma alarmante”.

Por que comprometem: Texto acadêmico distingue dado de avaliação. Quando você diz “infelizmente, a taxa de evasão é alta”, você está misturando o dado (a taxa) com um julgamento (que é infeliz). Em análise de políticas públicas ou em certos tipos de pesquisa aplicada, avaliações normativas podem aparecer, mas precisam ser explicitamente identificadas como tais, não inseridas sub-repticiamente como advérbios.

Alternativas: Apresente o dado e, se necessário, a avaliação separada e fundamentada:

  • “A taxa de evasão observada (42%) foi superior às médias históricas do programa (28%), o que indica pressões estruturais que merecem atenção da gestão institucional.”

Verbos de certeza absoluta para afirmações incertas

Expressões problemáticas: “prova que”, “demonstra definitivamente que”, “confirma de forma conclusiva que”, especialmente quando baseados em um único estudo ou em estudos com limitações.

Por que comprometem: Um único estudo não prova nada definitivamente. A ciência opera com graus de evidência, não com certeza absoluta. Usar linguagem de certeza absoluta cria expectativas que a evidência não sustenta e fragiliza o texto quando a banca examina as limitações metodológicas.

Alternativas calibradas por força de evidência:

  • Evidência preliminar ou um estudo: “sugere que”, “indica que”
  • Vários estudos convergentes: “aponta que”, “evidencia que”
  • Meta-análises e revisões sistemáticas: “demonstra que”, “comprova que” (com mais segurança, ainda com limitações)

O caso especial da voz passiva e da impessoalidade

Isso não é bem uma expressão proibida, mas é uma fonte de ambiguidade que vale mencionar.

“Foram coletados dados” é correto e amplamente aceito. O problema começa quando a voz passiva é usada para esconder responsabilidades: “Considerou-se que o instrumento era adequado” — quem considerou? Com base em quê?

A impessoalidade é uma convenção, não uma virtude absoluta. Quando ela cria obscuridade sobre quem fez o quê, prejudica a transparência metodológica que a ciência exige.

Use a voz passiva e a impessoalidade quando elas servem à clareza. Quando não servem, prefira a construção que deixa claro quem é o agente da ação.

Jargão de autoajuda e linguagem de impacto

Expressões problemáticas: “transformar vidas”, “revolucionar a educação”, “mudar o mundo”, “impacto profundo”, “de forma significativa” (sem dados), “mudança de paradigma” (quando não é).

Por que comprometem: Linguagem de impacto sem dados é marketing, não ciência. Dizer que seu estudo vai “transformar a forma como entendemos X” sem evidência de que isso acontecerá é uma afirmação que vai irritar qualquer revisor com experiência.

Alternativas: Seja preciso sobre o que seu estudo contribui. “Esta pesquisa oferece evidências iniciais de que X influencia Y no contexto Z, contribuindo para a literatura ao…” é mais honesto e mais forte do que promessas grandiosas.

Sobre a ABNT e o que ela não resolve

É importante distinguir dois tipos de problema no texto acadêmico. A ABNT cuida de formatação: margens, citações, referências, sumário. Não cuida de precisão linguística ou argumentativa.

As expressões problemáticas que listei acima não são erros de norma ABNT. São erros de qualidade argumentativa e precisão epistêmica. Você pode ter um texto perfeitamente formatado segundo a ABNT e ainda assim comprometer a credibilidade por usar as expressões discutidas aqui.

Os dois aspectos precisam de atenção, mas são atenções diferentes.

Fechando: precisão como forma de respeito ao leitor

Texto acadêmico preciso não é pedante. É responsável.

Quando você diz “três estudos longitudinais conduzidos entre 2018 e 2023 sugerem que X influencia Y em contextos Z”, você está dando ao seu leitor os instrumentos para concordar, discordar, ou buscar mais evidências. Quando você diz “estudos mostram que X”, você está pedindo que ele confie sem verificar.

Pesquisa existe para ampliar o conhecimento verificável, não para acumular afirmações que parecem plausíveis. O rigor linguístico não é a cereja do bolo. É parte do método.

E se você está revisando seu texto e encontrando essas expressões em toda parte, calma. É um processo. No Método V.O.E., a fase de revisão existe exatamente para isso: identificar o que está vago, buscar a especificidade e fortalecer o argumento antes de apresentar.

Perguntas frequentes

Quais expressões não podem aparecer em texto acadêmico?
Expressões vagas e imprecisas como 'a maioria das pessoas', 'desde sempre', 'todo mundo sabe', 'é óbvio que', 'estudos mostram' (sem citar qual estudo), 'atualmente' (sem especificar o período), e construções emocionais como 'infelizmente' ou 'felizmente' devem ser evitadas. Texto acadêmico exige precisão: quantifique, cite fontes, situe temporalmente e mantenha neutralidade analítica.
Posso usar a primeira pessoa em texto acadêmico?
Depende das normas do seu campo e programa. Muitas áreas aceitam o uso de 'neste estudo' ou mesmo 'realizamos' em metodologia. O que não se aceita é mistura inconsistente: usar 'eu' em alguns trechos e terceira pessoa impessoal em outros. Verifique as normas do seu programa e mantenha consistência ao longo do texto.
O que significa 'vagueza epistêmica' em escrita acadêmica?
Vagueza epistêmica é quando o texto afirma algo sem especificar o grau de certeza, a fonte de evidência ou o escopo temporal. Exemplos: 'a ciência comprova que...', 'pesquisas indicam...' sem citar quais, 'é sabido que...' sem fundamentação. Esse tipo de construção fragiliza a credibilidade porque não dá ao leitor como verificar a afirmação.
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