Fator de Impacto: Erros Mais Comuns ao Escolher Revista
Entenda o que é fator de impacto, como ele funciona na prática e quais são os erros mais comuns que pesquisadoras cometem ao escolher onde publicar.
Fator de impacto não é a mesma coisa que qualidade
Vamos lá. Você terminou o artigo, está na hora de submeter, e a primeira coisa que aparece na conversa com a orientadora é: “qual é o fator de impacto da revista?”. A partir daí, a escolha vira uma busca pelo número mais alto que aceita o tipo de estudo que você fez.
Esse raciocínio é compreensível. O sistema de avaliação de pesquisa no Brasil usa fator de impacto como proxy de qualidade, programas cobram publicações em revistas com bom Qualis, e pesquisadoras aprendem a otimizar para essas métricas. O problema é que otimizar para métrica e otimizar para qualidade científica não são a mesma coisa.
Este post não é contra o fator de impacto. É sobre entender o que ele mede de fato e evitar os erros mais comuns que surgem quando pesquisadoras o usam como critério principal de decisão.
O que o fator de impacto realmente mede
O fator de impacto (FI) é calculado dividindo o número de citações recebidas por uma revista no ano corrente pelo número de artigos publicados nos dois anos anteriores. Essa é a conta básica do Journal Impact Factor da Clarivate, publicado no Journal Citation Reports (JCR).
Então se uma revista publicou 100 artigos em 2022 e 2023, e esses artigos receberam juntos 300 citações em 2024, o FI dela em 2024 é 3.0.
O que isso quer dizer na prática? Que artigos publicados nessa revista recebem, em média, 3 citações em dois anos. Isso diz algo sobre a comunidade que lê a revista, sobre o campo em que ela atua, sobre o tipo de pesquisa que circula por ela. Não diz nada sobre a qualidade do artigo específico que você vai submeter, nem sobre quantas pessoas vão lê-lo.
Há um problema adicional: o FI varia muito por área do conhecimento. Em bioquímica e biologia molecular, revistas com FI abaixo de 5 são consideradas de impacto baixo. Em ciências humanas, uma revista com FI 2.0 pode estar no topo do campo. Comparar FI entre áreas diferentes é como comparar temperatura em Celsius e Fahrenheit sem fazer a conversão.
Os erros mais comuns ao usar fator de impacto como critério
Submeter para a revista mais alta que vai aceitar
A lógica de “vou tentar a revista com FI mais alto e ir descendo até aceitar” parece racional mas costuma ser cara em tempo e eficiência.
Revistas de FI alto têm taxas de rejeição que chegam a 90% ou mais, tempo de avaliação longo, e padrões específicos de tipo de estudo que privilegiam. Se o seu artigo usa uma metodologia que não é comum naquele periódico, ele vai ser rejeitado sem peer review nem em alguns casos.
A estratégia mais eficiente não é mirar no FI mais alto, é identificar a revista cujo escopo e público mais se alinham com o seu trabalho e submeter lá primeiro.
Confundir FI da revista com impacto do artigo
Revistas de FI alto têm distribuição de citações muito desigual. Um número pequeno de artigos concentra a maior parte das citações, enquanto a média cai para artigos fora desse núcleo. Publicar numa revista de FI 10 não garante que o seu artigo vai receber 10 citações.
Por outro lado, um artigo publicado numa revista de FI mais modesto, mas que fala diretamente com a comunidade que usa esse tipo de pesquisa, pode circular bem e ser citado de forma consistente ao longo dos anos.
O que determina o impacto de um artigo específico é, antes de tudo, a relevância da pergunta que ele responde e o quanto a comunidade do campo está procurando exatamente aquilo. Fator de impacto da revista influencia visibilidade, mas está longe de ser o único fator, e às vezes nem é o mais importante.
Ignorar o escopo da revista
Esse é o erro que gera mais rejeições evitáveis. Muitas pesquisadoras escolhem a revista pelo FI e verificam o escopo por cima, sem ler os artigos recentemente publicados para entender o que a revista realmente aceita.
Revistas têm perfis. Algumas privilegiam estudos quantitativos grandes. Outras têm tradição de publicar pesquisas qualitativas. Algumas estão focadas em certas regiões geográficas. Algumas têm editores que valorizam contribuições teóricas; outras querem aplicações práticas.
Ler os últimos dois ou três volumes da revista antes de submeter não é perda de tempo. É o que te diz se o trabalho vai ser lido por pares que entendem o que você está fazendo.
Desconhecer métricas alternativas
Fator de impacto é a métrica mais conhecida, mas está longe de ser a única. Scimago SJR, CiteScore, h-index da revista, SNIP, e o próprio Qualis CAPES são todos indicadores que capturam aspectos diferentes da reputação e circulação de uma revista.
Para pesquisadoras brasileiras, o Qualis tem peso direto na avaliação dos programas. Uma revista internacional com FI razoável pode ter Qualis B1, enquanto outra com FI semelhante mas mais reconhecida no campo específico pode ter A2 ou A1. Verificar o Qualis da área em que você vai ser avaliada é tão importante quanto o FI.
Não considerar o tempo de avaliação
Para pesquisadoras em fase final de mestrado ou doutorado, ou para quem precisa de publicação para renovação de bolsa, o tempo de avaliação é um critério real. Algumas revistas de alto FI demoram entre 6 meses e um ano para dar uma resposta. Nesse caso, submeter e ser rejeitada após 8 meses pode ser um custo alto demais.
Há revistas com FI razoável, escopo compatível e tempo de avaliação de 2 a 3 meses. Esse dado está muitas vezes disponível no site da própria revista ou em bases como Sherpa Romeo.
O que considerar de fato ao escolher onde submeter
Antes de qualquer coisa: quem você quer que leia este artigo? A audiência que vai usar e citar seu trabalho precisa ler a revista onde você publica. Se você pesquisa educação básica no Brasil e publica numa revista de educação comparada internacional com foco na Europa, as citações podem não chegar, independente do FI.
Depois: a revista realmente publica estudos como o seu? Não confie só no escopo declarado. Leia os artigos publicados nos últimos dois volumes. É aí que está o perfil real do periódico.
Verifique o Qualis para a sua área de avaliação. O FI pode ser bom, mas se o Qualis para a sua área específica é C, o impacto na avaliação do programa é nulo, e você gastou tempo de submissão num lugar errado.
Por fim, considere o tempo médio de avaliação e a taxa de rejeição. Para quem está no final do mestrado ou precisa de publicação para renovar bolsa, esperar 8 meses por uma rejeição tem um custo real. Esse dado costuma estar no site da revista ou em bases como Sherpa Romeo. Vale 10 minutos de busca antes de submeter.
Bases de indexação também importam, mas dependem muito do campo: SciELO pesa mais em certas áreas, Scopus em outras, PubMed em saúde, ERIC em educação. Não há regra universal.
Fator de impacto como um critério entre vários
Olha só: fator de impacto importa. Num sistema de avaliação que o usa como proxy de qualidade, ignorá-lo completamente seria ingênuo. Mas ele é um critério entre vários, não o único.
A pesquisadora que publica no lugar certo, que é onde a comunidade relevante vai encontrar e citar seu trabalho, vai construir uma trajetória mais sólida do que aquela que publica em revistas de FI alto mas fora do escopo natural do seu campo.
Faz sentido? Não é falta de ambição que faz pesquisadoras escolherem revistas de FI menor. Às vezes é exatamente o critério correto. O que não pode acontecer é fazer essa escolha sem saber por quê.
Perguntas frequentes
O que é fator de impacto de uma revista científica?
Fator de impacto alto significa que meu artigo vai ser mais lido?
Como escolher a revista certa para submeter um artigo?
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