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Fator de Impacto: o que é e como verificar um periódico

Entenda o que é o fator de impacto de revistas científicas, como ele é calculado e por que não é o único critério que importa na publicação.

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O fator de impacto e por que todo pesquisador precisa entender isso

Vamos lá. Se você está no mestrado ou no doutorado e já ouviu a frase “manda pra uma revista de alto impacto”, provavelmente entendeu o recado mas talvez não saiba exatamente o que está sendo medido.

O fator de impacto não mede a qualidade de um artigo. Não mede a relevância da sua pesquisa. Não decide se seu trabalho é bom ou ruim. Ele mede quantas vezes, em média, os artigos de uma revista foram citados por outros artigos nos dois anos anteriores.

Isso é tudo. É uma métrica de citação de periódico. Nada mais.

O problema é que ao longo das décadas, o fator de impacto virou uma espécie de proxy universal de qualidade científica, usado em processos seletivos, avaliações de programas, decisões de financiamento e promoções acadêmicas. E quando uma métrica é usada para decidir coisas que ela não foi criada para decidir, surgem distorções.

Vale entender o que o número significa, como ele é calculado, onde verificar e por que ele não pode ser o único critério que você usa para escolher onde publicar.

Como o fator de impacto é calculado

O indicador mais conhecido é o Journal Impact Factor (JIF), calculado anualmente pela Clarivate Analytics e publicado no Journal Citation Reports (JCR).

A fórmula é simples: número de citações recebidas em determinado ano pelos artigos publicados nos dois anos anteriores, dividido pelo total de artigos publicados nesses dois anos.

Exemplo prático: se uma revista publicou 200 artigos em 2023 e 2024, e esses artigos foram citados 600 vezes no total em 2025, o fator de impacto de 2025 dessa revista é 3,0.

Algumas implicações práticas disso:

Áreas com ciclos de citação mais curtos, como Medicina e Biologia Molecular, tendem a ter revistas com fator de impacto mais alto do que áreas como História ou Filosofia, onde artigos costumam ser citados ao longo de décadas. Comparar fator de impacto entre áreas diferentes não faz sentido.

Artigos de revisão costumam ser muito mais citados do que artigos originais, o que infla o fator de impacto de revistas que publicam muitas revisões.

O fator de impacto é uma média, e médias escondem muito. Uma revista pode ter fator 5 por causa de dois ou três artigos supercompartilhados, enquanto a maioria dos seus artigos nunca é citada.

Onde verificar o fator de impacto de um periódico

Journal Citation Reports (JCR): É a fonte oficial. Está disponível via Portal de Periódicos da CAPES para pesquisadores vinculados a instituições que têm acesso. Acesse o portal, procure por JCR e busque pelo ISSN ou nome da revista.

Scimago Journal Rank (SJR): Alternativa gratuita que usa a base Scopus e calcula métricas diferentes, incluindo o SJR (que considera o peso das revistas que fazem as citações) e o CiteScore. Para quem não tem acesso ao JCR, o Scimago é uma opção sólida. Acesse em scimago.com.

Site da própria revista: A maioria das revistas com fator de impacto alto divulga essa informação diretamente no site, normalmente na seção “About” ou “Journal Metrics”.

ISSN Portal: Para verificar se um periódico é registrado e quais são seus identificadores básicos, o portal issn.org é um bom começo, mas não traz fator de impacto, só identificação.

Uma coisa importante: existem sites que vendem ou fabricam “fatores de impacto” falsos. Se você viu um número de “Impact Factor” em um site de revista que não está no JCR nem no Scimago, provavelmente é uma métrica inventada para parecer legítima. Revistas predatórias usam isso com frequência.

Qualis CAPES: o sistema brasileiro

O Qualis CAPES é o sistema de classificação de periódicos usado pela CAPES para avaliar a produção científica dos programas de pós-graduação no Brasil. Não é a mesma coisa que o fator de impacto.

O Qualis classifica revistas em estratos que vão de A1 (mais alto) até C (mais baixo). A classificação é feita por área do conhecimento, e o mesmo periódico pode ter Qualis diferente em áreas diferentes. Uma revista de Psicologia pode ter A2 em Psicologia e B1 em Saúde Coletiva, por exemplo.

A última versão do Qualis vigente para a maioria dos programas é o Qualis Periódicos 2017-2020. A CAPES está em processo de revisão e implementação de um novo modelo. Você pode consultar a classificação atual na Plataforma Sucupira, em sucupira.capes.gov.br, na seção Qualis Periódicos.

Para pesquisadores brasileiros, o Qualis importa diretamente porque a produção dos programas é avaliada por ele. Publicar em um A1 conta mais para o programa do que publicar em um B2, independentemente do fator de impacto internacional. Na prática, a maioria das grandes revistas internacionais com fator de impacto alto está classificada como A1 ou A2, mas há muitas exceções.

Por que o fator de impacto não pode ser o único critério

Olha só. Tem uma razão pela qual a Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (DORA), publicada em 2012 e assinada por milhares de pesquisadores e instituições, pede explicitamente que o fator de impacto não seja usado para avaliar pesquisadores individuais.

O problema é que o fator de impacto de um periódico não diz nada sobre um artigo específico. Publicar em uma revista com JIF 15 não significa que seu artigo vai ser citado 15 vezes. Significa que a média dos artigos daquela revista recebe esse número de citações, puxado muitas vezes por um pequeno grupo de artigos extremamente citados.

Além disso, o alcance e a influência de uma pesquisa dependem muito de onde o público-alvo está. Para algumas pesquisas, publicar em um periódico de acesso aberto, de nicho específico e com fator de impacto menor, mas muito lido pelos profissionais que vão usar aquele conhecimento, é mais estratégico do que publicar em um periódico de alto impacto que aquela audiência não acessa.

Faz sentido? O impacto real da pesquisa é o que ela muda na prática, não o número no JCR.

Indicadores alternativos que merecem atenção

O fator de impacto tem alternativas que, dependendo do contexto, são mais informativas.

O h-index é um índice que mede ao mesmo tempo a produtividade e o impacto de um pesquisador: um h-index de 10 significa que o pesquisador tem pelo menos 10 artigos citados pelo menos 10 vezes cada. É um indicador de pesquisador, não de periódico.

O CiteScore, da Scopus/Elsevier, usa uma janela de quatro anos em vez de dois, o que tende a ser mais estável e menos suscetível a picos pontuais. Está disponível gratuitamente na plataforma Scopus.

O SJR (SCImago Journal Rank) pondera as citações pela prestígio das revistas que citam, em vez de tratar todas as citações igualmente. Uma citação de uma revista muito renomada pesa mais do que uma de uma revista menos conhecida.

O altmetrics mede menções em redes sociais, blogs, notícias, políticas públicas e outros contextos fora do circuito de citações acadêmicas. Para pesquisas aplicadas ou de saúde pública, o alcance além da academia pode ser mais relevante do que o número de citações entre pesquisadores.

O que isso muda na prática para o seu artigo

Quando você vai decidir onde submeter, o fator de impacto deve entrar como um dos critérios, mas não como o único.

Verifique se a revista publica artigos da sua área específica. Verifique o escopo, as instruções para autores e os artigos mais recentes publicados. Uma revista com fator de impacto alto mas que raramente publica pesquisas do seu tipo tem chance baixa de aceitar o seu artigo.

Considere o tempo médio de revisão e publicação. Algumas revistas de altíssimo impacto levam mais de um ano para dar uma resposta. Se você está no doutorado e precisa publicar dentro do prazo do seu programa, isso importa muito.

Verifique se a revista está no Qualis da sua área e em qual estrato. Se o seu programa precisa de publicações A1 para a avaliação CAPES, focar em revistas com esse estrato específico é mais estratégico do que focar só no fator de impacto.

E, quando relevante, considere o acesso aberto. Artigos publicados sem paywall chegam a mais leitores, especialmente em países com menos acesso a bases pagas. Para pesquisas que você quer que influenciem políticas ou práticas, isso pode fazer diferença concreta.

Entender o fator de impacto é entender uma ferramenta com propósito específico. Não é vilão nem solução. É um número que mede algo bastante específico, e saber o que ele mede bem e o que ele não mede ajuda a tomar decisões mais inteligentes sobre onde e como publicar.

Perguntas frequentes

O que é o fator de impacto de uma revista científica?
O fator de impacto (JIF, Journal Impact Factor) mede a média de citações recebidas por artigos de uma revista em dois anos. É calculado pela Clarivate Analytics e publicado anualmente no Journal Citation Reports. Revistas com fator de impacto mais alto são geralmente mais citadas pelo campo.
Como verificar o fator de impacto de uma revista?
O fator de impacto oficial está no Journal Citation Reports (JCR), da Clarivate. Muitas universidades têm acesso via Portal de Periódicos da CAPES. Você também pode consultar o SCImago Journal Rank (SJR) no Scimago.com, que é gratuito e usa a base Scopus.
Fator de impacto e Qualis CAPES são a mesma coisa?
Não. O Qualis CAPES é um sistema brasileiro de classificação de periódicos usado para avaliar a produção dos programas de pós-graduação no Brasil. Ele usa critérios próprios e pode não coincidir com o fator de impacto internacional. Um periódico pode ter fator de impacto alto e Qualis B2, por exemplo.

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