Método

Grounded Theory: o Que É e Como Aplicar na Pesquisa

Entenda o que é a Grounded Theory, quando esse método qualitativo faz sentido e quais são os conceitos essenciais pra começar a aplicá-lo.

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Quando a teoria pronta não resolve o problema

Por que tantas pesquisadoras escolhem um método qualitativo, chamam de Grounded Theory, e no final entregam uma análise temática bem feita com nome errado?

Grounded Theory é um método de pesquisa qualitativa que gera teoria diretamente dos dados coletados, sem partir de hipóteses prévias para testar. O objetivo não é verificar o que você já supõe existir, mas construir explicações teóricas que emergem do que aparece no campo. Essa distinção muda tudo no processo de pesquisa, desde como você coleta dados até como decide quando parar.

A confusão é compreensível. O nome soa técnico o suficiente para aparecer na metodologia de qualquer pesquisa qualitativa. Mas usar o termo sem seguir o processo é como dizer que você fez análise de regressão quando na verdade calculou uma média. Os resultados podem parecer parecidos para quem está de longe. A banca percebe.

Origem do método: Glaser e Strauss em 1967

Barney Glaser e Anselm Strauss publicaram “The Discovery of Grounded Theory” em 1967. O contexto era específico: eles queriam criar um método que valorizasse dados do campo em vez de forçar fenômenos sociais dentro de grandes teorias abstratas. A sociologia da época priorizava teoria a priori, muitas vezes construída longe do campo. Os dois queriam inverter essa lógica.

O método foi desenvolvido a partir de estudos sobre morte e morrer em hospitais americanos. Não havia teoria satisfatória sobre como pacientes e equipes médicas negociavam informação sobre prognósticos terminais. A teoria que surgiu da pesquisa, portanto, nasceu dos dados, não de proposições abstratas construídas antecipadamente.

Esse ponto de partida histórico importa por uma razão prática: Grounded Theory foi construída para fenômenos onde a teoria existente é insuficiente ou inexistente. Se você já tem uma teoria robusta e quer testá-la, esse não é o método mais adequado. Faz sentido ter isso claro antes de escolher.

Vale saber também que, depois da publicação original, Glaser e Strauss tomaram caminhos diferentes. Strauss, trabalhando com Juliet Corbin, desenvolveu uma versão mais estruturada do método, com procedimentos mais detalhados. Glaser discordou dessa sistematização e publicou críticas. Mais tarde, Kathy Charmaz desenvolveu a Grounded Theory construtivista, que incorpora a perspectiva do pesquisador como parte do processo. Essas variações existem e importam, mas os conceitos centrais permanecem reconhecíveis em todas elas.

Os conceitos centrais que definem o método

Declarar uso de Grounded Theory sem trabalhar com esses conceitos é o erro mais comum. Não são detalhes opcionais, são o que faz o método ser o que é.

Amostragem teórica

Na Grounded Theory, você não define sua amostra inteira antes de começar. A amostragem é teórica: você coleta um conjunto inicial de dados, analisa, identifica conceitos emergentes, e decide quem ou o que entrevistar ou observar a seguir com base no que precisa desenvolver melhor.

Se você entrevistou professoras universitárias sobre um fenômeno e seus dados estão sugerindo que a relação com a coordenação de curso é central para esse fenômeno, você vai buscar mais casos que ajudem a entender essa dimensão. A amostragem é guiada pela teoria que está sendo construída, não por critérios definidos antes do campo.

Isso é fundamentalmente diferente de amostras por conveniência ou por critérios fixos definidos no projeto. E é por isso que Grounded Theory exige tempo e abertura durante a coleta, características que projetos com prazos muito rígidos precisam considerar com cuidado.

Codificação: como os dados viram categorias

O processo de codificação é onde os dados brutos (transcrições, notas de campo, documentos) se transformam em conceitos. Na versão de Strauss e Corbin, o processo passa por três momentos principais:

  1. Codificação aberta: você lê o material linha por linha e atribui códigos ao que encontra. Um código pode ser uma palavra ou uma frase curta que capture o que está acontecendo no dado. Nessa fase você mantém abertura máxima.
  2. Codificação axial: você agrupa os códigos em categorias maiores e começa a explorar relações entre elas. O que está ligado ao quê? O que causa o quê? O que influencia o quê?
  3. Codificação seletiva: você identifica a categoria central, aquela que unifica os outros conceitos e representa o fenômeno que você está teorizando. Tudo começa a convergir para essa categoria.

Esses três momentos não são etapas rígidas e sequenciais. Na prática, você vai e volta entre eles, especialmente nas fases iniciais quando os conceitos ainda estão se definindo.

Saturação teórica

A saturação teórica é o critério que define quando parar de coletar dados. Você atingiu saturação quando novos dados não estão mais gerando categorias novas nem modificando as que você já tem. Os dados começam a confirmar o que a análise já mostrou.

Isso é diferente de “fiz N entrevistas como planejei”. Na Grounded Theory, o número de participantes não é definido a priori porque você não sabe com quantos casos vai atingir saturação. Às vezes chega com 12. Às vezes precisa de 30. Depende da complexidade do fenômeno e da diversidade dos participantes.

Para a qualificação e a defesa, esse critério precisa estar explicado com clareza. A banca vai perguntar como você determinou que estava saturada. A resposta não é “segui o protocolo padrão”. A resposta é mostrar que os últimos casos coletados não trouxeram novidade conceitual.

Análise comparativa constante

A comparação constante é o motor da análise. Ao longo de todo o processo, você compara dado com dado, código com código, categoria com categoria. Essa comparação acontece dentro do mesmo caso, entre casos diferentes, e entre os dados e as categorias que estão emergindo.

Não é uma etapa separada. É um modo de trabalhar que permeia toda a pesquisa. A teoria que emerge é produto dessas comparações sistemáticas, não de uma leitura intuitiva do material.

Memos analíticos

Um elemento que muitas descrições de Grounded Theory subestimam é a escrita de memos. Durante todo o processo, você registra reflexões sobre os dados, os códigos e as relações que está percebendo. Esses memos são matéria-prima para a teoria, não anotações auxiliares. Pesquisadoras que não escrevem memos tendem a ter dificuldade para reconstruir como chegaram às suas categorias, o que fragiliza a defesa metodológica na banca.

Quando faz sentido escolher Grounded Theory

Faz sentido quando o fenômeno que você quer estudar ainda não tem teoria satisfatória. Você olha para a literatura e ela ou ignora o fenômeno ou o explica de forma que não corresponde ao que você está observando no campo.

Faz sentido quando você quer entender como um processo funciona, como algo se desenvolve no tempo, como pessoas constroem sentido sobre uma experiência específica.

Faz sentido quando você tem flexibilidade suficiente no seu cronograma e no seu projeto para permitir que a amostragem seja guiada pelos dados emergentes.

Não faz sentido quando você já tem uma hipótese clara e quer testá-la. Também não é o método mais adequado quando você precisa descrever um fenômeno bem conhecido sob uma nova perspectiva, tarefa que pode ser feita com fenomenologia ou análise temática com mais eficiência.

Grounded Theory versus outros métodos qualitativos

A confusão mais frequente é com análise temática. Ambas trabalham com dados qualitativos, ambas usam codificação, ambas são indutivas. Mas o objetivo é diferente.

Análise temática busca identificar padrões de significado nos dados. O produto final é uma descrição rica dos temas presentes no material. Grounded Theory busca construir teoria. O produto final é um esquema conceitual que explica o fenômeno, não apenas o descreve.

A fenomenologia é outro método com que GT é frequentemente confundida. A fenomenologia explora a experiência vivida de um fenômeno, buscando sua essência. Grounded Theory explica como um processo funciona ou como pessoas respondem a uma situação. Ambas são qualitativas, mas as perguntas que cada uma responde melhor são distintas.

Se sua pergunta começa com “o que é essa experiência para quem viveu?”, fenomenologia provavelmente se encaixa melhor. Se começa com “como esse processo funciona e quais categorias o explicam?”, Grounded Theory tem mais a oferecer.

Os erros mais comuns de quem declara usar GT

O primeiro erro é declarar o método no projeto sem conhecer os conceitos centrais. Quando a banca pergunta sobre amostragem teórica e a pesquisadora responde que fez entrevistas com 15 participantes pré-selecionados por conveniência, fica evidente que o método não foi aplicado de forma consistente.

O segundo erro é usar Grounded Theory para um fenômeno que já tem teoria forte disponível. O método foi desenvolvido para preencher lacunas teóricas. Usá-lo onde a teoria já existe é subutilizá-lo e, muitas vezes, produzir resultados que qualquer outra abordagem qualitativa teria produzido com mais eficiência.

O terceiro erro é confundir saturação com número predefinido de entrevistas. Saturação é um conceito analítico, não quantitativo. Dizer que fez 20 entrevistas e parou não demonstra saturação. Saturação é mostrar que os últimos casos não geraram categorias novas.

O quarto erro é ignorar os memos. Pesquisadoras que não mantêm registro das decisões analíticas ao longo do processo chegam à escrita sem conseguir reconstruir o raciocínio que levou de dados brutos à teoria proposta.

Como o Método V.O.E. ajuda na fase de escrita

Pesquisadoras que usam Grounded Theory frequentemente chegam a um ponto crítico: têm pilhas de memos analíticos, centenas de códigos, categorias emergindo de todas as direções, e não conseguem organizar tudo isso num texto que faça sentido para a banca.

A fase de Visualizar do Método V.O.E. (Visualizar, Organizar, Escrever) é especialmente útil aqui, antes de começar a escrever os resultados. Criar um mapa visual das categorias e suas relações, antes de transformar isso em prosa, economiza muitas horas de reescrita. A teoria precisa ter uma estrutura clara para você primeiro, antes de virar palavras para a banca.

Você encontra mais sobre como aplicar essa fase em /metodo-voe e nos recursos disponíveis.

Antes de escolher, entenda o que você quer responder

A escolha do método qualitativo não começa pelo nome. Começa pela pergunta de pesquisa e pelo fenômeno que você quer estudar.

Se você quer construir teoria sobre algo pouco explorado, com flexibilidade de amostragem e análise comparativa sistemática, Grounded Theory pode ser o caminho certo. Se você quer descrever experiências, explorar percepções, ou verificar hipóteses, outro método vai servir melhor.

Pesquisadoras que escolhem o método com clareza não apenas têm defesas mais tranquilas. Elas produzem resultados que fazem sentido com o problema que decidiram investigar. Esse é o ponto central: método serve ao problema, não o contrário.

Perguntas frequentes

O que é Grounded Theory em pesquisa qualitativa?
Grounded Theory é um método de pesquisa qualitativa que constrói teoria a partir dos dados coletados, sem partir de hipóteses prévias. Foi desenvolvido por Barney Glaser e Anselm Strauss em 1967 e é indicado para estudar fenômenos pouco explorados onde a teoria existente é insuficiente.
Quando usar Grounded Theory na dissertação ou tese?
Use Grounded Theory quando o fenômeno que você estuda ainda não tem teoria consolidada ou quando as teorias existentes não explicam bem o que você está observando no campo. É menos adequado quando você já tem uma teoria forte para testar.
Qual a diferença entre Grounded Theory e análise temática?
Análise temática identifica padrões em dados qualitativos sem necessariamente gerar teoria nova. Grounded Theory vai além: o objetivo é construir uma teoria substantiva sobre o fenômeno. O processo também é diferente, com amostragem teórica e saturação como critérios centrais.

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