Grounded Theory: O Que É e Como Usar na Pesquisa
Grounded Theory é um dos métodos qualitativos mais mal compreendidos na pós-graduação. Entenda o que realmente é, quais são suas versões e quando faz sentido.
O método que promete demais (e entrega muito, com condições)
Olha só: Grounded Theory é um desses métodos que quando você lê a descrição parece perfeito. A ideia de “construir teoria a partir dos dados” tem um apelo enorme para pesquisadoras que já estão cansadas de encaixar seus achados em frameworks teóricos que não foram feitos para o que elas pesquisam.
O problema é que Grounded Theory exige muito mais do que a maioria das pesquisadoras imagina quando decide adotá-la. É um método trabalhoso, que tem lógica própria, que vai contra vários hábitos da pesquisa acadêmica convencional, e que precisa de coerência metodológica para funcionar.
Neste post, vou te explicar o que é Grounded Theory de verdade, as diferenças entre as principais versões que circulam nas dissertações brasileiras, quando esse método faz sentido e o que você precisa deixar claro na metodologia.
De onde vem a Grounded Theory
A Grounded Theory surgiu em 1967, quando o sociólogo americano Barney Glaser e o sociólogo americano Anselm Strauss publicaram “The Discovery of Grounded Theory”. O contexto era de crítica ao modelo dominante nas ciências sociais da época, que priorizava o teste de hipóteses derivadas de teorias já existentes.
A proposta dos autores era radical: em vez de partir de uma teoria e ir a campo para testá-la, a pesquisadora deveria ir a campo com mente aberta, coletar dados, analisar e deixar a teoria emergir dos próprios dados. Daí o nome “grounded”. Fundamentada, enraizada nos dados.
Mais adiante, Glaser e Strauss foram em direções diferentes. Strauss, em parceria com Juliet Corbin, desenvolveu uma versão mais estruturada e sistemática do método, que se tornou muito popular nas dissertações de saúde e educação no Brasil. Décadas depois, Kathy Charmaz propôs a versão construtivista, que reconhece explicitamente que a pesquisadora não é neutra: ela constrói os dados junto com os participantes, não apenas os “descobre”.
Essas três versões coexistem nas pesquisas brasileiras. Saber qual delas você usa, e por quê, é parte essencial da coerência metodológica.
O que diferencia a Grounded Theory de outros métodos qualitativos
Quase todo método qualitativo trabalha com dados textuais, faz algum tipo de codificação e busca padrões nos dados. O que torna a Grounded Theory diferente?
A amostragem teórica. Na pesquisa qualitativa convencional, você define sua amostra antes de coletar dados, tantos participantes, com tais características. Na Grounded Theory, a amostra é guiada pela análise em andamento. Depois de analisar as primeiras entrevistas, você decide quem entrevistar a seguir com base no que está emergindo. Você busca intencionalmente participantes que possam confirmar, contradizer ou refinar as categorias que estão se formando.
A análise simultânea à coleta. Em Grounded Theory, coleta e análise acontecem ao mesmo tempo. Você não espera terminar todas as entrevistas para começar a codificar. Essa simultaneidade é estrutural no método, não uma escolha da pesquisadora.
A saturação teórica como critério de encerramento. Você para de coletar dados quando novas coletas não acrescentam informações novas às categorias que você está desenvolvendo. É diferente de “entrevistei 12 pessoas porque esse é o número que a minha orientadora aprovou”.
O objetivo é gerar teoria, não descrever. Outros métodos qualitativos podem ter como objetivo descrever um fenômeno, compreender experiências vividas ou identificar temas. A Grounded Theory, em sua proposta original, tem como objetivo construir uma teoria de médio alcance que explica como um processo social funciona. Muitas dissertações dizem usar Grounded Theory mas na prática fazem análise temática ou análise de conteúdo, e isso é um problema de coerência metodológica.
A versão de Strauss e Corbin: a mais comum nas dissertações
A versão de Strauss e Corbin (presente principalmente em “Basics of Qualitative Research”, publicado pela primeira vez em 1990) é a mais sistematizada e, por isso, a mais usada em programas de pós-graduação no Brasil, especialmente nas áreas da saúde e da educação.
Ela propõe um processo de codificação em três etapas:
A codificação aberta é a primeira leitura dos dados, onde você quebra o texto em fragmentos e nomeia cada fragmento com um código que descreve o que está acontecendo. Nessa fase, você pode ter dezenas ou centenas de códigos.
A codificação axial é o processo de reorganizar os códigos identificando categorias maiores e as relações entre elas. Você está buscando padrões, conexões, condições causais, consequências.
A codificação seletiva é a fase de integração: identificar a categoria central que conecta todas as outras e que representa o fenômeno principal que a teoria vai explicar.
Esse processo não é linear. Você vai e volta entre as fases, revisa códigos, busca novos dados para preencher lacunas. Os memos, anotações analíticas que você faz ao longo do processo, são parte essencial do método e funcionam como o registro do pensamento que vai construindo a teoria.
A versão construtivista de Charmaz: para quem pensa na posição da pesquisadora
A Grounded Theory construtivista de Kathy Charmaz, apresentada principalmente em “Constructing Grounded Theory” (2006), parte de um posicionamento epistemológico diferente: os dados não estão “lá fora” esperando ser descobertos pela pesquisadora. Eles são construídos na interação entre pesquisadora e participantes, dentro de um contexto social e histórico específico.
Para Charmaz, isso significa que a análise é necessariamente interpretativa, que a perspectiva da pesquisadora entra no processo e que a teoria produzida é uma construção, não uma “descoberta”. Isso não diminui o rigor do método, pelo contrário, exige que a pesquisadora seja reflexiva sobre sua própria posição e como ela influencia o que emerge dos dados.
Essa versão tem ganhado espaço em pesquisas com foco em saúde, identidades, experiências de grupos marginalizados e fenômenos onde a voz dos participantes e a posição da pesquisadora são centrais.
Quando a Grounded Theory faz sentido para sua pesquisa
Grounded Theory é o método certo quando:
Você quer gerar teoria, não apenas descrever um fenômeno. Se sua pergunta é “o que isso é?” ou “quais são os temas?”, você provavelmente está mais em território de análise temática ou fenomenologia. Se sua pergunta é “como isso funciona?” ou “que teoria explica esse processo?”, você está no território da Grounded Theory.
Há pouca teoria existente sobre o fenômeno que você estuda. O método foi criado para situações onde a teoria disponível não explica adequadamente o que acontece. Se há muita teoria sobre o tema, talvez seja mais produtivo testá-la ou refiná-la do que construir uma nova.
Você tem flexibilidade para a amostragem teórica. Se você já definiu rigorosamente sua amostra antes de começar a coletar dados (porque precisa cumprir uma exigência de comitê de ética, por exemplo), vai ser difícil implementar amostragem teórica de forma honesta.
Você tem tempo e orientação adequados. Grounded Theory bem feita é demorada. A análise simultânea à coleta, os memos, a amostragem teórica. Tudo isso exige tempo. E exige uma orientadora que conheça o método.
O erro mais comum: usar o nome sem usar o método
Muitas dissertações declaram Grounded Theory na metodologia e depois fazem análise temática ou análise de conteúdo com um vocabulário emprestado da GT (mencionam “codificação” e “saturação” sem explicar o que fizeram).
Bancas percebem isso. E quando percebem, as perguntas ficam difíceis.
Se você usa a Grounded Theory apenas como referência inspiracional para a sua análise qualitativa, declare isso com honestidade. Diga que sua análise foi inspirada em princípios da Grounded Theory, especialmente no processo de codificação, mas que você não seguiu todos os procedimentos do método. Essa transparência é metodologicamente mais defensável do que dizer que usou Grounded Theory quando não usou.
Para uma visão geral das diferentes metodologias qualitativas disponíveis e como escolher entre elas, o post sobre metodologia de pesquisa: como escolher e justificar a sua pode ajudar. E se você está no começo do Método V.O.E. de planejamento da sua pesquisa, a clareza sobre o método é exatamente onde vale investir mais tempo antes de começar a coletar dados.