IA e o Futuro do TCC: O Formato Ainda Faz Sentido?
Com IA capaz de produzir textos acadêmicos em minutos, vale questionar: o TCC como existe hoje ainda cumpre sua função formativa? Uma opinião direta.
Existe uma tensão real aqui, e vale nomear
Olha só: não tenho interesse em fingir que essa é uma pergunta com resposta fácil. O TCC como formato tem problemas que existem há muito tempo, antes mesmo de qualquer IA. E a chegada de ferramentas que conseguem produzir um texto estruturado, coerente e cheio de referências em questão de minutos apenas torna esses problemas impossíveis de ignorar.
A pergunta que dá título a esse post não é retórica. É genuína. O TCC, na forma como existe na maior parte das instituições brasileiras, ainda cumpre o que se propõe a cumprir?
Minha resposta é: depende. E a IA está tornando esse “depende” mais urgente.
O que o TCC deveria fazer
A ideia original do TCC como atividade formativa faz sentido. Você escolhe um problema, revisa literatura, define método, coleta ou analisa dados, interpreta resultados e apresenta conclusões. No processo, aprende a pensar metodicamente sobre um problema, a escrever com clareza e rigor, a defender um argumento diante de especialistas.
Isso é valioso. Não é o documento que é valioso, é o processo.
O problema é que, em muitas instituições e em muitos cursos, o processo virou o documento. O que se avalia é se o produto final tem estrutura correta, referências no formato ABNT, hipóteses declaradas, discussão de resultados. Se o aluno de fato passou pelo processo de construção de pensamento ao longo do caminho, isso é mais difícil de verificar e, na prática, muitas vezes não é verificado.
Quando o foco é o produto e não o processo, você cria as condições para que o produto seja terceirizado. Com IA, a terceirização ficou mais barata e mais acessível.
O que a IA revelou (não criou)
Seria mais simples dizer que a IA criou o problema do TCC. Na verdade, ela revelou um problema que já existia.
Antes da IA, existia mercado de monografias prontas. Existia cópia de partes de outros trabalhos. Existia TCC escrito por familiares, amigos ou por quem se pagava para isso. Isso não era incomum.
A IA não inventou a terceirização do trabalho acadêmico. Ela apenas a democratizou e acelerou. Agora qualquer estudante com acesso a um computador e a um modelo de linguagem pode terceirizar a produção textual sem pagar nada.
O que isso torna necessário: que a avaliação pare de focar no produto final como proxy do processo. Se o produto pode ser gerado por uma ferramenta, avaliar só o produto não avalia o estudante.
O que faz sentido mudar
Não sou da corrente que acha que a IA deve ser simplesmente proibida nos cursos de graduação. Essa batalha já foi perdida, e tentar vencê-la com regras e detectores é uma corrida armamentista que as instituições não vão ganhar.
O que faz mais sentido é redesenhar o que se avalia.
Avaliações processuais: o aluno entrega capítulos ao longo do semestre com comentários do orientador. Você pode ver a evolução do pensamento, as dúvidas que aparecem, as revisões que acontecem.
Defesas mais rigorosas: em vez de apresentação de slides e perguntas protocolares, defesas que exploram o raciocínio por trás das escolhas. “Por que você usou esse método e não aquele?” exige que o estudante saiba o que está dizendo.
Formatos alternativos: portfólios de processo, projetos aplicados com apresentação de resultados reais, análises supervisionadas onde o raciocínio é observado em tempo real.
Nenhuma dessas mudanças é tecnicamente difícil. A dificuldade é de outra ordem: exige mais trabalho dos docentes, mais acompanhamento dos orientadores, mais estrutura institucional. E é mais difícil de escalar quando um professor orienta quinze alunos ao mesmo tempo.
O que está acontecendo nas instituições que já perceberam isso
Não é que as instituições estejam dormindo. Algumas estão se movendo, mesmo que devagar.
Vi programas que começaram a exigir “diários de orientação” onde o aluno registra cada reunião com o orientador, o que foi discutido e o que ficou pendente. Esses diários são entregues junto com o TCC. Você consegue ver o processo, não só o produto.
Vi cursos que alteraram o formato da apresentação final: em vez de exposição de 20 minutos mais perguntas, a banca começa com uma entrevista aberta sobre escolhas metodológicas. O aluno não sabe quais perguntas vão surgir. Precisa ter construído a pesquisa de fato para navegar isso.
Vi uma professora que implantou entregas mensais obrigatórias de rascunho: 500 palavras sobre qualquer aspecto da pesquisa, sem formato exigido. O objetivo não era avaliar o texto, era rastrear o pensamento em desenvolvimento. Ela disse que a qualidade do acompanhamento ficou muito melhor.
Esses são experimentos. Nenhum deles resolve o problema completamente. Mas mostram que há caminhos.
A questão que ninguém quer responder
Existe uma pergunta que as instituições precisam fazer e que é desconfortável: qual é, de fato, a função do TCC em cada curso?
Em um curso onde os egressos vão trabalhar em empresas sem nunca mais produzir um trabalho acadêmico, a função do TCC como formação em pesquisa científica faz sentido? Ou o TCC poderia ser substituído por um projeto aplicado avaliado com o mesmo rigor?
Em cursos onde a pesquisa é central na formação, o TCC como está estruturado é suficiente, ou precisaria de mais acompanhamento, mais iteração, mais processo?
Não estou sugerindo que o TCC deve acabar. Estou dizendo que a IA criou uma pressão que torna inevitável revisitar essa função. Instituições que não fizerem isso continuarão avaliando produtos que cada vez menos refletem o trabalho dos estudantes.
O que os estudantes estão dizendo (e o que estão escondendo)
Quando pergunto para estudantes sobre o uso de IA no TCC, as respostas são divididas entre o que dizem abertamente e o que circula nas conversas mais privadas.
Abertamente, dizem que usam para revisar gramática, organizar referências, melhorar a redação. Isso ninguém nega, e a maioria dos professores aceita como razoável.
No que não dizem tão facilmente: existem estudantes que usam IA para gerar capítulos inteiros, que nunca leram os artigos que citam, que usaram a ferramenta para produzir a fundamentação teórica sem ter passado pelo processo de estudo que ela deveria representar.
Não é que sejam desonestos por natureza. É que o sistema criou condições para isso: avaliação centrada no produto final, falta de acompanhamento do processo, pressão de prazo incompatível com o tempo real que a pesquisa exigiria.
A situação revela um descompasso entre o tempo que o TCC demanda quando feito com seriedade e o tempo que os estudantes têm disponível dado o conjunto de obrigações que acumulam. Isso não justifica a terceirização total, mas explica por que ela acontece.
Qualquer solução que não leve isso em conta vai continuar falhando.
Minha posição, sem rodeios
Acredito que o problema não é a IA. O problema é que tratamos o TCC como rito de passagem e esquecemos a parte em que ele forma o pesquisador.
Um TCC bem orientado, com acompanhamento real do processo, com defesa que exige que o estudante domine o próprio trabalho, ainda tem valor imenso. A ferramenta que o estudante usa para organizar pensamentos ao longo desse processo é secundária.
O que não tem mais valor é o TCC como documento produzido em isolamento, avaliado apenas ao final, cujo processo de criação é invisível para a instituição. Esse formato já tinha problemas antes da IA. Ela apenas tornou esses problemas insustentáveis.
A questão não é “o TCC vai acabar”. É: “o que precisamos mudar para que o TCC continue sendo o que diz ser?”
Essa conversa é urgente, e a maioria das instituições ainda não começou a tê-la.