IA e Pré-Prints: Publicando Antes da Revisão Por Pares
Pré-prints cresceram muito com a pandemia e a IA está mudando como são produzidos e avaliados. O que pesquisadores precisam saber sobre essa prática.
O que mudou na publicação científica nos últimos anos
Olha só como o ecossistema de publicação científica mudou em pouco tempo. Antes da pandemia, a maioria dos pesquisadores no Brasil sequer sabia o que era um pré-print. Depois de 2020, quando resultados sobre COVID-19 precisavam circular em dias, não em meses, os servidores de pré-prints como medRxiv, bioRxiv e o SciELO Preprints viraram realidade para muita gente.
E a IA entrou nesse sistema já em transformação. Não apenas como ferramenta para escrever e revisar os textos, mas como parte de como pré-prints são descobertos, avaliados e disseminados. Entender essa interação é útil para qualquer pesquisador que pensa em publicar ou acompanhar literatura hoje.
O que é um pré-print, de verdade
Pré-print é um artigo científico publicado em servidor de acesso aberto antes de passar pela revisão por pares tradicional. O autor deposita o manuscrito, ele fica disponível para leitura imediata, e a comunidade científica pode comentar, criticar e citar.
Isso não é o mesmo que publicar em periódico. A principal diferença: sem revisão por pares, não há garantia de que os erros metodológicos, as conclusões equivocadas ou os dados problemáticos foram identificados antes da publicação. A responsabilidade fica inteiramente com os autores.
Mas tem uma vantagem real: velocidade. Um artigo pode levar meses ou anos para percorrer o processo de submissão, revisão, aceite e publicação em um periódico. O pré-print está disponível em dias. Num campo onde resultados relevantes podem mudar práticas clínicas, políticas públicas ou linhas de pesquisa, essa velocidade tem valor.
IA na produção de pré-prints: o que está acontecendo
Com ferramentas de IA acessíveis para revisão de escrita, síntese de literatura e até geração de texto, a velocidade de produção de pré-prints aumentou. Isso tem consequências que a comunidade científica ainda está processando.
Do lado positivo: pesquisadores de países e instituições com menos acesso a suporte editorial e revisão de inglês podem usar IA para melhorar a qualidade linguística dos seus manuscritos e competir em condições mais igualitárias. Isso é real e tem valor.
Do lado problemático: a mesma facilidade que permite produzir um manuscrito de qualidade em menos tempo também pode ser usada para produzir manuscritos em volume, sem o cuidado que o trabalho científico exige. Servidores de pré-prints relataram aumento de submissões de baixa qualidade, e alguns implementaram triagem mais cuidadosa.
Existe também a questão de IA sendo usada para gerar resultados que parecem plausíveis mas não correspondem a dados reais. Em ciências que dependem de experimentos ou coleta de campo, isso é fraude. Em ciências que trabalham muito com modelagem teórica ou análise de dados secundários, a linha pode ser mais difusa.
Como servidores de pré-prints respondem ao uso de IA
Os principais servidores de pré-prints estão desenvolvendo políticas sobre uso de IA. A maioria não proíbe o uso, mas exige declaração.
arXiv, um dos maiores servidores de pré-prints em física, matemática e ciências da computação, estabeleceu que IA pode ser usada como ferramenta, mas não pode ser listada como autora, e o uso deve ser transparente. bioRxiv e medRxiv têm orientações similares.
SciELO Preprints, que é relevante para pesquisadores brasileiros, também atualizou suas orientações para incluir recomendações sobre declaração de uso de IA.
O princípio comum: transparência. Se você usou IA para melhorar a escrita, for corrigir a gramática, ou para síntese inicial de literatura, isso deve ser declarado na seção de metodologia ou em nota nos agradecimentos.
Pré-prints e o problema da informação não verificada
A pandemia demonstrou tanto o valor quanto o risco dos pré-prints. Estudos sobre tratamentos e vacinas que circularam como pré-prints foram discutidos na mídia, influenciaram políticas públicas, e depois, quando passaram por revisão adequada, tiveram resultados alterados ou foram retratados.
Isso não é argumento contra pré-prints. É argumento para que todos, pesquisadores, jornalistas, formuladores de política e público, entendam o que um pré-print é: trabalho não revisado, que representa o estado atual da pesquisa mas que ainda pode mudar.
A IA complica isso de uma forma específica: ferramentas de síntese de literatura que buscam e resumem artigos automaticamente frequentemente incluem pré-prints junto com artigos revisados, sem diferenciar. Quem usa essas ferramentas precisa saber verificar o status de cada fonte.
Se você usa IA para revisão de literatura, por favor, sempre verifique se cada artigo citado passou por revisão por pares ou é pré-print. Não são a mesma coisa, e tratá-los como equivalentes é erro metodológico.
Quando faz sentido depositar um pré-print
Essa é uma decisão que depende de área, instituição e contexto. Mas há situações onde o pré-print tem vantagem clara.
Quando você vai submeter a periódico de alto impacto com processo de revisão longo (6 a 18 meses), depositar um pré-print permite que o trabalho esteja disponível enquanto aguarda publicação. Pesquisadores que poderiam se beneficiar dos resultados não precisam esperar.
Quando o trabalho tem implicações práticas urgentes (saúde pública, políticas ambientais, questões sociais relevantes no momento), a velocidade de circulação via pré-print tem valor que o tempo de revisão formal eliminaria.
Quando você quer feedback antes de submeter a um periódico. Alguns pesquisadores usam pré-prints como forma de revisão aberta: depositam o manuscrito, recebem comentários da comunidade, e submetem uma versão melhorada.
O que vale verificar antes: se o periódico onde você pretende submeter aceita submissões de manuscritos já depositados como pré-prints. A maioria dos grandes periódicos aceita, mas há exceções.
A questão da citação de pré-prints
Outro ponto prático que merece atenção: como citar pré-prints no seu trabalho. A ABNT não tem norma específica para pré-prints, então a prática comum é adaptar a NBR 6023 para documentos eletrônicos, incluindo informações essenciais como servidor de depósito, data de acesso, DOI ou URL, e indicação explícita de que é pré-print.
Exemplo de como ficaria uma referência de pré-print adaptada à ABNT:
SOBRENOME, Nome. Título do pré-print. Nome do servidor [Preprint], local, ano. DOI ou URL. Acesso em: DD mês AAAA.
O mais importante é a indicação explícita de que é pré-print e não artigo publicado revisado. Isso preserva a transparência metodológica do seu trabalho.
Na dúvida, consulte o manual de sua instituição ou oriente-se pela política de citação do periódico onde você pretende submeter.
Vale também estar atento ao fato de que pré-prints podem ser atualizados pelo próprio autor após o depósito. Um pré-print que você citou em 2024 pode ter tido uma versão 2 ou 3 publicada depois com conteúdo diferente. Quando a citação é importante para seu argumento, vale verificar se há versão mais recente antes de finalizar o manuscrito.
IA como ferramenta de descoberta de pré-prints
Além de produção, IA está mudando como pré-prints são descobertos. Ferramentas como Semantic Scholar, Elicit, e Connected Papers usam modelos de linguagem para identificar conexões entre artigos, recomendar leituras relevantes e resumir conteúdo.
Para pesquisadores, isso significa que um pré-print relevante para sua pesquisa pode aparecer no seu radar mais rapidamente do que apareceria por busca manual em bases de dados.
Mas há um ponto de atenção: algoritmos de recomendação tendem a criar bolhas. Se você só lê o que a IA recomenda com base no que você já leu, pode estar perdendo perspectivas que não estão na trajetória esperada da sua área. A serendipidade das buscas manuais tem valor que algoritmos de recomendação não reproduzem.
O que isso muda para pesquisadores brasileiros
Para pesquisadoras no Brasil, há uma consideração adicional. Nossa produção científica ainda é frequentemente publicada em português, e pré-prints em português têm circulação mais limitada internacionalmente do que em inglês.
Ferramentas de IA para tradução melhoraram significativamente e podem tornar mais viável depositar em inglês versões de trabalhos originalmente produzidos em português. Isso não é abandonar a pesquisa em português, que tem valor próprio, mas ampliar o alcance de resultados que têm relevância internacional.
O SciELO Preprints aceita submissões em português e espanhol, o que é importante para manter espaço para pesquisa latinoamericana em suas próprias línguas.
Pré-prints, IA e responsabilidade intelectual
A mesma lógica que orienta o uso ético de IA na pesquisa se aplica aqui: transparência e responsabilidade intelectual. O pré-print tem seu nome. Você é responsável por cada afirmação contida nele.
Se usou IA para parte do processo, declare. Se seus resultados podem mudar após revisão, isso está implícito no status de pré-print, mas pode ser explicitado quando você compartilha o trabalho.
A comunidade científica está construindo as normas para esse novo ecossistema em tempo real. Pesquisadores que contribuem para essa construção de forma consciente, que declaram seus processos, que são transparentes sobre limitações, estão fazendo um trabalho que vai além do paper individual.
Para aprofundar a conversa sobre como usar novas ferramentas e práticas de publicação com rigor, a página sobre o Método V.O.E. e os recursos têm leituras complementares sobre ciência aberta e produção acadêmica contemporânea.
Faz sentido? O pré-print não é o futuro da publicação científica. É uma das várias formas que a ciência encontrou para existir em um ecossistema mais aberto e rápido. Saber navegar nesse ecossistema, tanto para publicar quanto para consumir literatura, faz parte do repertório de qualquer pesquisadora no momento atual. E IA está transformando esse ecossistema em tempo real, o que torna ainda mais necessário entendê-lo com clareza.