IA & Ética

IA para Ficha Catalográfica e Pré-textuais ABNT

Usar IA para gerar ficha catalográfica e elementos pré-textuais da dissertação pode economizar tempo, mas exige atenção. Veja o que funciona e o que não funciona.

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Os pré-textuais são a parte mais chata da dissertação, e dá para entender por quê

Olha só: você passa meses pesquisando, coletando dados, analisando, escrevendo. O trabalho intelectual está feito. E então chega a hora de formatar a capa, a folha de rosto, a ficha catalográfica, o sumário, a lista de abreviaturas, o resumo em português, o abstract em inglês. São partes que parecem mecânicas, mas que carregam uma quantidade absurda de detalhes que precisam estar certos.

Não é por acaso que bancas devolvem dissertações por problemas de formatação. As normas ABNT são exigentes, cada instituição tem suas próprias adaptações, e qualquer elemento fora do padrão pode gerar questionamentos desnecessários na defesa ou atrasar a entrega do trabalho final.

A boa notícia é que a IA consegue ajudar em boa parte dessa etapa. A má notícia é que ajudar não significa fazer tudo por você, e em alguns casos o uso descuidado cria mais problemas do que resolve.

Vamos passar pelos principais elementos pré-textuais e ver onde a IA é aliada e onde você precisa de atenção redobrada.

A ficha catalográfica: o caso especial

Começando pelo elemento que gera mais confusão: a ficha catalográfica.

A ficha catalográfica é aquele pequeno quadro que aparece no verso da folha de rosto com as informações de catalogação do trabalho, como nome do autor, título, número de páginas, área do conhecimento e descritores (palavras-chave no padrão biblioteconômico).

O ponto central aqui é que a ficha catalográfica oficial de dissertações e teses brasileiras precisa ser elaborada pela biblioteca da sua instituição. Não é uma opção, é uma norma. O documento final precisa ter o CRB (Conselho Regional de Biblioteconomia) do bibliotecário responsável. Sem esse registro, a ficha não é válida.

O que a IA pode fazer nesse contexto? Ajudar você a preparar as informações necessárias. Antes de ir até a biblioteca, você precisa ter em mãos o título definitivo, o subtítulo, os orientadores, a área do programa, a data de defesa e as palavras-chave no padrão da área. A IA consegue te ajudar a pensar nesses descritores, sugerir termos de busca compatíveis com o vocabulário controlado da área e organizar as informações num formato que facilita o preenchimento do formulário da biblioteca.

Mas o documento em si? Sempre pela biblioteca. Algumas instituições têm sistemas online de solicitação de ficha catalográfica; outras exigem atendimento presencial. Vale verificar o fluxo da sua universidade antes de deixar para última hora.

Folha de rosto: onde a IA ajuda de verdade

A folha de rosto é um dos elementos em que a IA pode ser genuinamente útil. A estrutura básica é definida pela ABNT, mas o texto da nota explicativa (aquela frase que diz algo como “Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em X da Universidade Y como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Z”) tem variações de redação que cada instituição padroniza de forma diferente.

Se você fornecer para a IA o nome do seu programa, o título da dissertação, o nome completo da instituição, o nome do orientador e o coorientador (se houver), ela consegue gerar uma versão do texto que você pode adaptar conforme o modelo da sua universidade. Economiza tempo e evita erros de digitação em informações importantes.

O que verificar sempre: o nome exato do programa (sem abreviações), o título completo da instituição, a data correta de entrega (não da defesa, mas da entrega do trabalho final) e a linha de pesquisa, se for necessário mencioná-la.

Resumo e abstract: aqui a IA pode complicar

O resumo e o abstract são elementos pré-textuais, mas são também conteúdo científico. Eles precisam comunicar o problema de pesquisa, a metodologia, os principais resultados e as conclusões, dentro de um limite de palavras (geralmente 150 a 500, conforme a norma e o programa).

Usar IA para escrever o resumo a partir de um rascunho seu pode ser útil. A IA consegue ajudar na síntese, na organização das informações e na concisão. Mas há uma armadilha frequente: muitos pesquisadores pedem para a IA escrever o resumo antes de ter os resultados definitivos. O resultado é um resumo genérico que não reflete o trabalho real.

A ordem correta é: escreva o resumo depois que a dissertação estiver finalizada. Use a IA para revisar, melhorar a clareza ou traduzir para o inglês, mas o conteúdo precisa vir de você, com base no que você de fato descobriu e escreveu.

Para o abstract especificamente, a IA pode ser um apoio valioso na tradução e adequação ao inglês acadêmico, especialmente se você não tem fluência no idioma. Mas revise com cuidado. A IA às vezes usa expressões formais demais ou introduz termos que não correspondem ao vocabulário da sua área em inglês.

Sumário automático: aqui a IA não é a ferramenta certa

Olha só: para o sumário, a IA não é a ferramenta mais adequada. Não porque não consiga gerá-lo, mas porque o sumário precisa ser atualizado automaticamente conforme você edita o texto, e isso é uma função do processador de texto, não da IA.

Se você usa o Word, configure os estilos de parágrafo (Título 1, Título 2, Título 3) desde o início do trabalho. Com os estilos configurados corretamente, o sumário é gerado automaticamente em um clique e se atualiza sempre que você muda a numeração das páginas.

Se você está no final do trabalho e os títulos não estão configurados com estilos, a IA pode te ajudar a criar uma versão do sumário a partir de uma lista que você forneça. Mas é uma solução paliativa. O ideal é trabalhar com estilos desde o começo.

O ponto em que a IA de fato ajuda no sumário é na verificação. Depois de gerar o sumário automático, você pode colar o resultado num prompt e pedir para a IA verificar se a estrutura de capítulos e seções está coerente, se algum título está faltando, se a hierarquia (capítulos, seções, subseções) está clara.

Lista de abreviaturas, siglas e símbolos

A lista de abreviaturas é um elemento que parece simples mas que pesquisadores frequentemente deixam incompleto. O processo correto é registrar todas as abreviaturas usadas no texto e padronizar seu uso ao longo do trabalho.

A IA pode ajudar nesse mapeamento. Se você colar o texto da dissertação (ou uma parte significativa), pode pedir para ela identificar todas as siglas e abreviaturas usadas e listar em ordem alfabética. É um recurso de buscas que economiza tempo, especialmente em trabalhos longos onde abreviaturas foram introduzidas em capítulos diferentes.

O cuidado aqui é com siglas de organismos e instituições. A IA pode saber ou não a forma expandida correta, dependendo do país e da área. Sempre verifique a sigla no site oficial da organização antes de incluir no trabalho.

Agradecimentos: escreva você mesmo

Esse é um elemento onde a IA definitivamente não deve escrever por você. Os agradecimentos são pessoais, reflexivos e carregam a história da sua trajetória na pós-graduação. Uma versão gerada por IA vai parecer genérica mesmo que você a personalize depois.

O que a IA pode fazer é te ajudar a revisar a linguagem ou sugerir como organizar os agradecimentos de forma que não fique esquecido ninguém importante. Mas o conteúdo precisa ser inteiramente seu.

O checklist pré-textuais que funciona

Antes de entregar o trabalho, vale passar por esta lista:

A capa precisa ter: nome da instituição, nome do autor, título completo, subtítulo (se houver), cidade e ano de defesa. Alguns programas exigem o nome do departamento ou escola.

A folha de rosto precisa ter: nome do autor, título, nota explicativa com o nome do programa, orientador, coorientador (se houver), cidade e ano.

A folha de aprovação precisa ter: data da defesa, composição da banca com nomes e instituições. Algumas instituições exigem essa folha antes da defesa, outras após.

O resumo precisa ter: problema, método, principais resultados e conclusão, dentro do limite de palavras do programa.

O abstract precisa ser uma tradução fidedigna do resumo, não uma versão diferente.

O sumário precisa refletir exatamente os títulos dos capítulos e seções do texto, com as páginas corretas.

A lista de abreviaturas precisa incluir todas as siglas do texto, incluindo as do resumo e abstract.

Se você está no processo de escrever a dissertação e quer entender como organizar a escrita como um todo, não só os pré-textuais, pode ser útil conhecer a lógica do Método V.O.E., que propõe uma abordagem estruturada para as fases da escrita acadêmica, do projeto até a entrega final.

E se quiser conferir mais sobre o uso de IA para outras etapas da dissertação, tem bastante material aqui no blog sobre uso ético de IA na pesquisa que pode complementar o que você leu aqui.

Os pré-textuais não são glamourosos. Mas uma dissertação bem formatada chega na defesa sem esse ruído desnecessário. E com as ferramentas certas, essa parte chata fica menos chata.

Perguntas frequentes

Posso usar IA para gerar a ficha catalográfica da minha dissertação?
Tecnicamente sim, mas há um problema: a ficha catalográfica oficial de dissertações e teses brasileiras precisa ser gerada pela biblioteca da sua instituição, conforme as normas da ABNT NBR 12899. A IA pode te ajudar a entender os campos necessários e preparar as informações, mas o documento final precisa da validação da biblioteca.
IA consegue formatar os pré-textuais no padrão ABNT corretamente?
Com limitações. A IA conhece as normas ABNT de forma geral, mas cada instituição tem adaptações próprias. Usar IA para estruturar elementos como sumário, lista de abreviaturas ou folha de rosto pode economizar tempo, mas você precisa conferir o resultado contra o manual de normas da sua universidade.
Quais ferramentas de IA são mais úteis para formatação ABNT?
ChatGPT e Claude conseguem ajudar a estruturar textos no padrão ABNT, especialmente para elementos como resumo, abstract e referências. Para formatação automática de documentos Word, o Zotero integrado ao processador de texto costuma ser mais confiável para referências do que a IA isoladamente.
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