Por que o Brasil Investe Tão Pouco em Ciência?
O investimento em ciência no Brasil é insuficiente e inconsistente. Minha posição sobre por que isso acontece e o que está em jogo para o país.
Uma pergunta que não tem resposta simples
Vamos lá. Qualquer pesquisador brasileiro que tenta fazer ciência com consistência esbarra cedo ou tarde na mesma limitação: falta de dinheiro. Bolsas insuficientes, laboratórios com equipamentos defasados, viagens para congressos que o próprio pesquisador precisa pagar, projetos que não recebem financiamento mesmo sendo bem avaliados.
A pergunta óbvia é: por que o Brasil investe tão pouco em ciência?
Não existe uma resposta única e simples. Mas há um conjunto de fatores que, quando vistos juntos, explicam a situação melhor do que qualquer resposta isolada.
O dado de partida: o que o Brasil realmente investe
Para não trabalhar com impressões, é necessário começar com o que os dados mostram.
O Brasil investe entre 1,1% e 1,3% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, com variações ao longo dos anos. Para comparação, a média dos países membros da OCDE está em torno de 2,5% do PIB. Países líderes em inovação como Coreia do Sul e Israel investem acima de 3%.
Isso significa que o Brasil investe aproximadamente a metade do que os países desenvolvidos investem, em termos proporcionais ao tamanho da economia.
Dentro desse percentual, há outra distinção importante: quanto vem do governo e quanto vem do setor privado. Em países como Estados Unidos, Japão e Alemanha, o investimento privado em P&D supera o público. No Brasil, o investimento governamental representa a maior parte do total. Isso significa que o setor privado brasileiro investe pouco em pesquisa, o que limita a transferência de tecnologia e a inovação aplicada à produção.
Por que o investimento é baixo: o argumento estrutural
Há argumentos estruturais legítimos que explicam parte do problema.
O Brasil tem uma estrutura de gasto público com características específicas. A seguridade social, que inclui previdência social e benefícios sociais, consome uma parcela significativa do orçamento federal. Somando despesas com saúde, educação básica e infraestrutura, o espaço fiscal para outros investimentos fica comprimido.
Dentro dessa disputa por recursos escassos, ciência e tecnologia concorrem com demandas de curto prazo que têm visibilidade eleitoral imediata. Resultado de pesquisa demora anos para aparecer. Reforma de escola ou hospital aparece antes da próxima eleição.
Isso não é exclusividade brasileira. É um desafio que países com democracias eleitorais em desenvolvimento enfrentam em geral: como justificar investimento de longo prazo quando o ciclo de avaliação é de quatro anos?
Por que o investimento é baixo: o argumento político e cultural
Além da estrutura, há um componente político e cultural que também precisa ser dito.
Há no Brasil uma tradição de tratar a universidade e a pesquisa como gastos, não como investimentos. Quando a percepção pública dominante é de que a universidade pública é um “clube de elite” ou que pesquisas são “luxo de professor que não trabalha”, fica mais fácil para governos de diferentes espectros cortar orçamentos sem enfrentar resistência popular significativa.
Esse argumento anti-científico ganhou visibilidade particular em certos períodos recentes, mas seria desonesto apresentá-lo como novidade. A desvalorização da ciência e da educação superior tem raízes mais longas na cultura política brasileira.
Quando um ministro da educação faz piada sobre filosofia e sociologia, ou quando um governante questiona a utilidade de pesquisas básicas, está se aproveitando de uma percepção pré-existente, não criando-a do zero. O discurso anti-científico ecoa porque há recepção cultural para ele.
A inconsistência é tão ruim quanto o nível baixo
Aqui está um ponto que raramente aparece no debate público, mas que pesquisadores conhecem bem: a inconsistência do financiamento é tão prejudicial quanto o nível baixo.
Ciência precisa de continuidade. Um laboratório que leva anos para ser equipado e treinado não consegue produzir bem se o financiamento é cortado no meio de um projeto. Uma linha de pesquisa que levou uma década para construir metodologia e acumular dados pode ser descontinuada da noite para o dia por mudança de prioridades de uma agência.
Quando o orçamento de ciência oscila fortemente de um governo para o outro, como aconteceu no Brasil nas últimas décadas, os efeitos se acumulam. Pesquisadores qualificados vão para outros países onde há mais estabilidade (a chamada fuga de cérebros). Programas de pós-graduação que vinham crescendo precisam reduzir vagas. Projetos de longa duração são interrompidos.
O custo de oportunidade dessa inconsistência é alto e invisível: o que o Brasil não produziu, não descobriu, não desenvolveu, por falta de investimento sustentado.
Minha posição, sem rodeios
Tenho uma posição clara sobre isso e vou dizê-la diretamente.
Acho que o nível atual de investimento em ciência no Brasil não reflete o que o país quer ser no futuro. Se há uma estratégia de longo prazo de inserção competitiva na economia global, de resolução dos problemas de saúde, agricultura, energia e meio ambiente que o Brasil enfrenta, de desenvolvimento humano consistente, essa estratégia passa por ciência e educação superior. Sem exceção.
Dizer “não temos dinheiro” enquanto se mantêm outros gastos de menor retorno social a longo prazo é uma escolha, não uma fatalidade.
Dizer “pesquisa no Brasil não serve para nada” ignora décadas de contribuição da pesquisa brasileira para saúde pública, agricultura tropical, biodiversidade, energia renovável, entre outras áreas onde o Brasil é referência mundial.
O Brasil tem capacidade de fazer ciência de ponta. Tem pesquisadores competentes, programas de pós-graduação reconhecidos internacionalmente, e produção científica que cresceu significativamente nas últimas décadas. O problema não é falta de capacidade. É falta de prioridade política consistente.
O papel dos pesquisadores nesse debate
Há uma tendência dos pesquisadores a tratar a questão do financiamento como algo externo a eles, um problema do governo que eles não controlam. Isso é verdade em parte, mas não é a história toda.
A ciência brasileira precisa de pesquisadores que sejam também cidadãos ativos no debate sobre o valor da ciência. Que comuniquem o que fazem para além dos pares. Que justifiquem para a sociedade por que pesquisa importa. Que se posicionem publicamente quando decisões de financiamento ameaçam o sistema de ciência que foi construído.
Isso não é tarefa fácil. A pressão por publicação, pela dissertação, pela tese, pela carreira, consome tempo e energia que seriam necessários para esse engajamento mais amplo.
Mas o problema do financiamento não vai ser resolvido por burocratas que nunca estiveram em um laboratório ou em campo. Vai ser resolvido, em parte, porque a ciência se fez presente no debate público de forma que a sociedade passe a defendê-la.
Isso é, na minha avaliação, uma das responsabilidades que os pesquisadores brasileiros ainda estão aprendendo a assumir.
Se você está na pós-graduação e quer entender como construir presença pública como pesquisador, confira o post sobre como construir presença digital como pesquisador.
O setor privado precisa entrar nessa conversa
Há um aspecto do problema que frequentemente fica de fora quando o debate se concentra no governo: o setor privado brasileiro investe pouco em pesquisa.
Em economias que constroem sistemas de inovação robustos, o setor privado costuma ser o maior investidor em P&D. Empresas farmacêuticas que financiam pesquisa clínica. Empresas de tecnologia que mantêm laboratórios de pesquisa. Indústrias que colaboram com universidades para desenvolver soluções específicas para seus setores.
No Brasil, essa cultura de investimento privado em pesquisa é fraca. Há empresas que fazem isso bem, notavelmente em setores como agronegócio e energia. Mas são exceção, não regra. A maioria das empresas brasileiras não investe significativamente em P&D interno e depende de tecnologia importada ou adaptada.
Por que isso acontece? Parte é estrutural: o ambiente de negócios brasileiro historicamente não favorece inovação de longo prazo com incerteza de retorno. Parte é cultural: há uma preferência por modelos de negócio com retorno rápido e previsível, que é difícil de conciliar com a natureza incerta e demorada da pesquisa científica.
Enquanto o setor privado brasileiro não mudar essa relação com a pesquisa, o sistema de ciência vai continuar dependente em excesso do orçamento público, o que o torna vulnerável a oscilações políticas.
A cooperação internacional como caminho de mão dupla
Um argumento que às vezes é usado para minimizar o problema do financiamento interno é que o Brasil pode compensar via cooperação internacional: projetos com parceiros estrangeiros, acesso a financiamento de agências internacionais, formação de pesquisadores no exterior.
Esse argumento tem algum mérito. A cooperação internacional é genuinamente valiosa e o Brasil tem participado de projetos relevantes nesse contexto.
Mas há um limite. Cooperação internacional pressupõe que você tem algo a oferecer como parceiro. Infraestrutura. Dados únicos (a Amazônia e a biodiversidade brasileira são exemplos claros). Capacidade técnica. Quando o investimento interno cai muito, a capacidade de ser parceiro relevante também cai.
Cooperação internacional não substitui investimento interno. Ela o complementa. Um sistema de ciência que depende principalmente de cooperação externa para funcionar não é soberano, e soberania científica importa, especialmente em áreas estratégicas como saúde, segurança alimentar e defesa.
O Brasil que quer ter voz nas discussões globais sobre clima, sobre regulamentação de novas tecnologias, sobre segurança alimentar, precisa ter ciência própria consistente nessas áreas. Isso não se constrói em ciclos eleitorais de quatro anos.