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Conectivos em Textos Acadêmicos: Guia com Exemplos

Entenda o que são conectivos acadêmicos, como usá-los para dar coesão ao texto científico e quais erros comprometem a lógica do argumento escrito.

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Conectivos não são enfeite, são argumento

Tem uma crença que circula bastante nos cursos de metodologia: usar muitos conectivos deixa o texto mais sofisticado. Por isso pesquisadoras em início de escrita produzem parágrafos com “outrossim”, “destarte” e “não obstante” a cada duas linhas.

Conectivos acadêmicos são palavras e expressões que estabelecem relações lógicas entre ideias em um texto científico. O objetivo deles não é dar elegância ao texto, é tornar visível a estrutura do argumento. Um conector bem colocado diz ao leitor: aqui há uma adição, aqui há uma ressalva, aqui há uma consequência. Quando o conector está errado ou ausente, essa sinalização some e o leitor precisa inferir a relação por conta própria, o que gera ambiguidade.

O problema não é usar conectivos. É usá-los sem entender que cada um carrega uma relação lógica específica. “Portanto” estabelece consequência. “No entanto” estabelece contraste. “Além disso” estabelece adição. Trocar um pelo outro não é apenas estilo diferente, é argumento diferente.

Por que o uso incorreto de conectivos quebra a lógica do texto

Pense no seguinte trecho:

“A amostra foi coletada por conveniência. Portanto, os resultados são generalizáveis para a população.”

O “portanto” está indicando que a segunda afirmação decorre da primeira. Mas ela não decorre. Uma amostra por conveniência é justamente o que limita a generalização. O conectivo está fazendo o texto dizer o oposto do que deveria dizer.

Esse tipo de erro passa despercebido durante a escrita porque a pesquisadora sabe o que quis dizer. O leitor e a banca não têm esse acesso. Eles leem o que está escrito, e o que está escrito é controlado pelos conectivos que você escolheu.

Outro caso frequente: o uso de “entretanto” e “no entanto” para qualquer tipo de ressalva, mesmo quando a relação entre as frases não é de contraste. Ou o uso de “visto que” e “porque” como intercambiáveis, sem perceber que “visto que” pressupõe uma causa já conhecida pelo leitor enquanto “porque” introduz uma causa nova.

As principais relações lógicas e os conectivos que as expressam

As relações que aparecem com mais frequência em dissertações, teses e artigos:

RelaçãoConectivos
Adiçãoalém disso, ademais, também, ainda, igualmente
Contrasteno entanto, contudo, todavia, entretanto, mas, porém
Causaporque, pois, visto que, uma vez que, dado que
Consequênciaportanto, logo, assim, dessa forma, por isso
Exemplificaçãopor exemplo, como ilustração, a saber, tal como
Concessãoembora, ainda que, mesmo que, apesar de
Conclusãoem suma, em síntese, concluindo, diante do exposto

Causa e consequência valem uma parada porque apontam em direções opostas. Causa explica por que algo aconteceu. Consequência explica o que resultou. “O estudo teve limitações porque a amostra foi pequena” (a amostra pequena é a causa das limitações). “A amostra foi pequena, portanto as limitações devem ser reconhecidas” (as limitações são a consequência da amostra pequena). Mesmas informações, relações lógicas diferentes, conectivos diferentes.

Conectivos de contraste: a categoria mais mal usada

“No entanto”, “contudo” e “todavia” funcionam de forma parecida e são intercambiáveis em muitos contextos. O problema começa quando são usados para introduzir qualquer frase que o escritor percebe como “diferente” da anterior, mesmo que não haja contraste real.

Contraste real:

“A abordagem qualitativa permite profundidade na investigação do fenômeno. No entanto, ela limita a generalização dos resultados.”

Contraste falso:

“O referencial teórico foi organizado em três eixos. No entanto, o primeiro eixo trata da teoria institucional.”

A segunda frase não contradiz nem ressalva a primeira. O “no entanto” está ocupando o lugar de uma transição de adição ou simplesmente de uma continuidade. O conectivo certo seria “o primeiro deles” ou simplesmente retirar o conector e deixar a progressão do parágrafo fazer o trabalho.

Como calibrar o uso no seu texto

Existe um exercício simples que a Nathalia usa com orientandas: retire todos os conectivos do parágrafo e releia. Se o parágrafo ainda faz sentido, você tem dois problemas. Ou os conectivos estavam decorativos e podem ser removidos. Ou o argumento está solto e os conectivos estavam tentando mascarar isso.

Um bom parágrafo acadêmico tem uma ideia central que se desenvolve de forma coerente. Os conectivos ajudam a tornar as relações explícitas, mas não são capazes de criar relações que não existem no conteúdo.

O segundo exercício: ao escolher um conectivo, nomeie a relação lógica que você quer estabelecer antes de escrever. “Quero indicar que esta frase é consequência da anterior.” Daí o “portanto” ou “logo” entram com propósito, não por hábito.

Um terceiro ponto que aparece pouco nas discussões sobre conectivos mas faz diferença na revisão: a coerência entre conector e tempo verbal. “Visto que a amostra foi pequena, os resultados são generalizáveis” combina uma causa passada com uma conclusão presente de forma problemática, porque sugere que a limitação foi superada. “Visto que a amostra foi pequena, os resultados não devem ser generalizados” mantém a consistência temporal e lógica. O conectivo e o verbo precisam apontar na mesma direção.

Isso fica mais claro na escrita de discussão de resultados, que é onde mais se usa “portanto”, “assim” e “dessa forma”. Antes de colocar um conectivo de consequência, pergunte: a frase anterior é de fato a causa desta? Se a resposta for “mais ou menos”, o argumento ainda não está maduro para ser escrito.

Conectivos de concessão: os mais poderosos e os mais subutilizados

A concessão é a relação lógica mais sofisticada que aparece em texto acadêmico. Conectivos de concessão como “embora”, “ainda que”, “mesmo que” e “apesar de” introduzem uma informação que parece contradizer a tese mas que, na verdade, reforça ela por contraste.

A diferença prática entre contraste e concessão:

Contraste (no entanto): apresenta duas afirmações que se opõem sem que uma subordine a outra.

“A revisão de literatura foi extensa. No entanto, algumas lacunas teóricas persistiram.”

Concessão (embora): admite uma informação que poderia enfraquecer a tese, e mostra que ela se mantém apesar disso.

“Embora a revisão de literatura tenha sido extensa, algumas lacunas teóricas persistiram, o que reforça a necessidade de estudos futuros.”

A concessão é argumentativamente mais forte porque mostra que você considerou a objeção e ela não desfaz seu ponto. Um texto que usa concessão bem soa como alguém que pensa, não como alguém que lista fatos.

O erro mais comum com concessão é confundir “embora” com “apesar de”. Os dois expressam concessão, mas “embora” precede uma oração com verbo no subjuntivo, enquanto “apesar de” precede um substantivo ou infinitivo.

Certo: “Embora os dados sejam limitados, a análise é válida.” Certo: “Apesar da limitação nos dados, a análise é válida.” Errado: “Apesar de os dados sejam limitados, a análise é válida.”

Parece detalhe gramatical. É o tipo de detalhe que um revisor de periódico risca antes de ler o segundo parágrafo.

O caso especial do “destarte” e do “outrossim”

São conectivos válidos em português formal, usados com muito mais frequência na escrita jurídica do que na acadêmica. Em textos científicos das ciências sociais e da saúde, o uso de “destarte” (equivalente a “dessa forma”) e “outrossim” (equivalente a “além disso”) chama atenção negativa porque parece uma tentativa de formalidade que não combina com o tom da área.

Isso não é regra gramatical, é convenção de gênero textual. Se a sua área usa esses termos com naturalidade, sem problema. Se a maior parte dos artigos publicados na área evita, você está introduzindo ruído estilístico sem ganho real de precisão.

O que o Método V.O.E. tem a ver com isso

A etapa de Organizar do Método V.O.E. (Visualizar, Organizar, Escrever) é sobre mapear as relações entre as ideias antes de colocá-las em texto. Quando o argumento está estruturado visualmente antes de virar frase, os conectivos que vão caber ficam óbvios. Não dá pra procurar “uma palavra que ligue essas duas frases” quando você já sabe que a segunda frase é consequência da primeira, porque enxergou essa relação no mapa.

O problema dos conectivos mal usados é frequentemente um problema de pré-escrita, não de vocabulário. Quem sabe o que está argumentando escolhe o conector certo quase automaticamente. Quem está descobrindo o argumento enquanto escreve tende a colocar conectivos que depois precisam ser revisados.

Se quiser entender como a fase de Organizar funciona na prática, a página /metodo-voe detalha cada etapa do processo.

Fechamento: o conectivo certo é o que não precisa ser explicado

Um bom texto acadêmico não precisa de nota de rodapé explicando qual relação lógica o parágrafo está estabelecendo. O conectivo faz esse trabalho. Quando você usa “portanto” e a leitora entende que aquela frase é consequência da anterior sem esforço, o conector fez o que tinha que fazer.

Quando você usa “portanto” e a leitora precisa reler para entender a relação, algo está errado com o argumento ou com a escolha do conector. Na maioria das vezes, os dois.

Revisar os conectivos do texto não é detalhe de revisão final. É uma checagem de coerência do argumento. Faça isso antes de entregar.

Uma dica prática para a revisão: leia o texto em voz alta e preste atenção nos pontos onde o conector soa estranho ou onde você precisou pausar para entender a relação. Esses pontos quase sempre indicam que o argumento precisa ser reescrito, não apenas que o conector precisa ser trocado. O conector ruim é sintoma, não causa. A causa é uma relação lógica que ainda não está clara para quem escreveu, e que por isso não vai ficar clara para quem lê.

Perguntas frequentes

O que são conectivos acadêmicos e para que servem?
Conectivos acadêmicos são palavras ou expressões que ligam ideias e estabelecem relações lógicas entre frases e parágrafos em textos científicos. Eles podem indicar adição, contraste, causa, consequência, exemplificação ou conclusão. Sem eles, o texto vira uma lista de afirmações soltas sem relação visível entre si.
Quais são os principais conectivos usados em textos acadêmicos?
Os mais usados são: para adição (além disso, ademais, também), para contraste (no entanto, contudo, todavia, entretanto), para causa (porque, pois, uma vez que, visto que), para consequência (portanto, logo, assim, dessa forma), para exemplificação (por exemplo, como ilustração, a saber) e para conclusão (em suma, concluindo, diante do exposto).
Como evitar o uso excessivo de conectivos no texto acadêmico?
O uso excessivo acontece quando o escritor tenta compensar um argumento fraco com muitos conectivos. A solução é verificar se a relação lógica entre as ideias está clara mesmo sem o conector. Se a sequência de frases faz sentido sem ele, o conectivo pode ser desnecessário ou está ocupando o lugar de uma transição que deveria ser construída pelo próprio conteúdo.

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