Posicionamento

A academia precisa de mais mães, não menos

A maternidade ainda é tratada como obstáculo na carreira acadêmica. Mas mães pesquisadoras trazem algo que a academia precisa e raramente admite que está perdendo.

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Uma posição que precisa ser dita em voz alta

Olha só: a academia tem um problema com mães. Não no sentido de que as odeia. No sentido de que não foi construída para elas, não foi adaptada quando precisava ser, e ainda trata a maternidade como um obstáculo à carreira em vez de reconhecer o que pesquisadoras mães trazem.

Este post é uma posição. Não é neutro. Vou argumentar que a academia não está perdendo mães pesquisadoras apesar de ser uma perda. Está perdendo mães pesquisadoras e isso está tornando a academia pior.

O que os números mostram (e o que escondem)

Existe uma quantidade robusta de evidências de que a produção acadêmica de mulheres cai mais do que a de homens após o nascimento de filhos. Um estudo publicado na Royal Society Open Science em 2019 analisou dados de produção acadêmica de pesquisadores de vários países e documentou esse padrão de forma consistente.

O número é verdadeiro. A interpretação que muitos fazem dele é errada.

Quando a produção de mães pesquisadoras cai mais do que a de pais pesquisadores, isso não está dizendo que mulheres são menos capazes ou menos comprometidas com a pesquisa. Está dizendo que o trabalho de cuidar de uma criança recai de forma desigual sobre mulheres, que isso consome tempo e energia que antes iam para a pesquisa, e que as instituições raramente compensam isso de forma adequada.

O número mede o sintoma, não a causa.

O que mães pesquisadoras trazem

Aqui está o argumento que a academia raramente formula: mães pesquisadoras trazem perspectivas, habilidades e formas de trabalhar que a academia precisa e que tende a perder quando essas mulheres saem.

Eficiência forçada. Quem pesquisa com tempo fragmentado aprende a usar o tempo disponível de forma diferente. Pesquisadoras que são mães com frequência desenvolvem capacidade de foco e de trabalho concentrado que pesquisadores com agendas abertas levam mais tempo para desenvolver ou nunca desenvolvem.

Perspectivas de pesquisa que só existem a partir de certas experiências. Áreas como saúde materno-infantil, educação, políticas de cuidado, desenvolvimento humano e psicologia do desenvolvimento têm mais a ganhar quando o conjunto de pesquisadores inclui pessoas com experiência direta desses contextos.

Habilidade de gestão em condições de complexidade. Coordenar uma família, uma pesquisa, uma agenda de ensino e orientações simultaneamente não é pouco. Essa capacidade de gestão não desaparece dos currículos de pesquisadoras mães: está incorporada.

Perder mães pesquisadoras é perder essas contribuições. E a academia perde quando não cria condições para que elas fiquem.

O que a estrutura atual faz com o tempo das mães

O modelo de carreira acadêmica foi construído, historicamente, em torno de um pesquisador que tem alguém em casa cuidando da logística da vida. Alguém que cuida da alimentação, da limpeza, das crianças, dos compromissos médicos. Esse alguém, por décadas, foi silenciosamente uma mulher.

Quando mulheres entram na academia em grandes números, esse modelo não muda automaticamente. O que muda é que agora existem pesquisadoras que precisam ser as duas coisas: a pesquisadora e o suporte que antes ficava em casa.

O resultado é uma jornada dupla que não é distribuída igualmente entre homens e mulheres pesquisadores. E o critério de produtividade, medido em volume de artigos e quantidade de orientandos, não ajusta para essa diferença.

Uma pesquisadora que publicou 8 artigos em cinco anos enquanto era a principal cuidadora de dois filhos está sendo avaliada pelo mesmo critério que um pesquisador que publicou 12 artigos no mesmo período com alguém assumindo a maior parte do cuidado. A comparação não é justa.

O que mudaria se a academia levasse isso a sério

Não estou propondo padrões diferentes de excelência. Estou propondo métricas diferentes de produtividade.

Avaliar pesquisadores por qualidade e impacto, não apenas por volume, já começou a mudar em algumas áreas. O movimento DORA (Declaration on Research Assessment) e outros esforços internacionais pressionam nessa direção.

Contar o período de licença maternidade como tempo produtivo de forma diferente, sem penalizar pesquisadoras por anos com menor produção por razões documentadas, é algo que algumas instituições começaram a implementar. Em editais de bolsas, incluir o período de licença como uma pausa que não conta contra a pesquisadora é uma forma concreta de ajuste.

Criar estruturas de apoio que funcionam: creches próximas ou subsidiadas para pesquisadoras, flexibilidade de horário real (não só no papel), eventos e reuniões em horários compatíveis com responsabilidades de cuidado. Essas mudanças custam, mas o custo de perder pesquisadoras formadas é maior.

E, mais fundamentalmente: parar de tratar maternidade como escolha individual com consequências individuais. Maternidade é uma função social. Criar as próximas gerações é trabalho real que beneficia a sociedade inteira. Tratar pesquisadoras que fazem esse trabalho como se estivessem pedindo um favor pessoal ao programa é uma inversão de lógica.

O que posso dizer da minha experiência

Sou pesquisadora. Sou mãe. Sei, de dentro, o que é navegar as duas coisas simultaneamente.

Sei também o que é encontrar, no ambiente acadêmico, a suposição de que você vai ter menos disponibilidade, ser menos comprometida, producir menos. Às vezes isso é dito explicitamente. Com mais frequência, é uma corrente subterrânea nas interações, nos convites que não chegam, nas oportunidades que ficam para outros.

O que posso dizer: minha pesquisa ficou mais clara depois que me tornei mãe. Minha capacidade de priorizar o que realmente importa, de recusar o que é só volume sem substância, de trabalhar com foco porque o tempo é escasso, ficou melhor.

Não estou romantizando a dificuldade. Foi e é difícil. Mas o difícil não cancela o que a experiência trouxe.

O que pesquisadoras mães precisam ouvir

Existe algo que raramente é dito explicitamente para mulheres pesquisadoras que estão na maternidade: você não está atrasada. Você está em um período diferente.

A trajetória acadêmica não é linear para ninguém, mas para mães pesquisadoras ela tende a ter um período de ritmo reduzido que depois frequentemente se recupera. Pesquisas sobre trajetórias de carreira de mulheres acadêmicas mostram que, passada a fase de filhos pequenos, a produção tende a aumentar novamente. Isso não aparece na fotografia de qualquer momento específico. Aparece quando você acompanha a trajetória ao longo do tempo.

Isso não significa que o período difícil não é difícil. É. Mas também não significa que ele define o final da carreira.

A posição que defendo

A academia precisa de mães. Não apesar das complicações que isso traz para as pesquisadoras, mas porque o tipo de pensamento, a perspectiva de vida e a eficiência que mães pesquisadoras desenvolvem são ativos reais.

E a academia que não consegue reter mulheres que são mães está perdendo pesquisadoras formadas, perspectivas de pesquisa e diversidade de experiência que a tornariam melhor.

Isso não é um argumento sentimental. É um argumento sobre qualidade da ciência. E sobre o tipo de academia que queremos construir, não só para as pesquisadoras de hoje, mas para as que virão depois.

Mudar vai exigir mais do que convicção individual de gestoras e orientadoras. Vai exigir mudanças estruturais: em financiamento, em critérios de avaliação, em infraestrutura de apoio. Essas mudanças são lentas.

Mas elas começam quando o problema é nomeado claramente. E este post é uma tentativa de fazer exatamente isso.

Às vezes o que a pesquisadora mãe mais precisa não é de estratégia de produtividade. É de alguém que diga: o que você está fazendo tem valor. Estou dizendo isso agora.

Faz sentido? A mudança começa quando a conversa começa.

Para ler sobre outros temas relacionados: maternidade e doutorado: é possível?, sobre mulheres na pós-graduação e direitos de bolsistas pesquisadores.

Perguntas frequentes

Maternidade prejudica a carreira acadêmica?
Dados mostram que a produção de artigos de mulheres cai mais do que a de homens após o nascimento de filhos. Mas esse número reflete menos sobre capacidade e mais sobre a divisão desigual de trabalho de cuidado e a falta de suporte institucional. Pesquisadoras que têm apoio adequado, incluindo parceiro que divide o cuidado e instituições com políticas de suporte, mantêm carreiras longas e produtivas.
Como mães pesquisadoras conciliam maternidade e pesquisa?
Não existe uma resposta única. O que aparece com mais frequência nos relatos: trabalho em blocos concentrados, ajuste de expectativas de produtividade no período perinatal, apoio de rede (parceiro, família, creche), e programas com políticas de afastamento que funcionam na prática.
A academia está melhorando para mães pesquisadoras?
Em alguns aspectos sim: há mais consciência sobre o tema, mais políticas formais de afastamento, e mais pesquisadoras em posições de liderança que mudam a cultura de dentro. Mas mudanças estruturais, como valorização de produção por qualidade e não só por volume e horários mais compatíveis com cuidado, ainda são lentas.
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