Mendeley: o que é e como usar para organizar referências
Mendeley é um gerenciador de referências gratuito que organiza seus artigos e gera citações automaticamente. Saiba o que ele faz bem e onde ele tropeça.
Gerenciar referências à mão é um erro de iniciante
Vamos lá. Toda pesquisadora que já tentou montar a lista de referências de uma dissertação na última semana antes da defesa sabe o que acontece. Você vai procurar a página de um artigo que leu há seis meses, não vai encontrar nos favoritos, vai gastar mais tempo nisso do que escrevendo.
Gerenciador de referências existe para resolver esse problema. Mendeley é um dos mais usados, especialmente no Brasil.
O objetivo deste post é dar uma visão honesta do que o Mendeley faz, como funciona, e onde ele apresenta limitações que você precisa saber antes de confiar nele com toda a sua bibliografia.
O que o Mendeley faz na prática
O Mendeley tem três funções principais que justificam usá-lo.
Organiza sua biblioteca de artigos. Quando você baixa um PDF de artigo científico e arrasta para o Mendeley, ele lê os metadados e extrai automaticamente título, autores, ano, revista, DOI. Você passa a ter todos os artigos que leu em um lugar, com busca por autor, tema, palavra-chave.
Gera citações automaticamente. Com o plugin do Word (ou a integração com LibreOffice), você clica em um botão, escolhe a referência que quer citar, e ele insere a citação no texto no formato que você configurou, ABNT, APA, Vancouver, ABNT NBR 6023, o que for. A lista de referências ao final do documento também é gerada automaticamente e se atualiza quando você adiciona ou remove citações.
Sincroniza entre dispositivos. Sua biblioteca fica na nuvem. Você acessa do computador do laboratório, do notebook em casa e, via app móvel, de onde estiver.
Essas três funções juntas eliminam um volume considerável de trabalho repetitivo.
Como começar: o fluxo básico
Criar uma conta em mendeley.com e baixar o aplicativo desktop. O processo de instalação é padrão.
Depois de instalar, você precisa instalar o plugin do Word separadamente. O Mendeley tem um guia para isso. É o passo que muita gente pula e depois não entende por que as citações não aparecem no documento.
Adicionando artigos à sua biblioteca:
A forma mais direta é arrastar PDFs para o Mendeley. Ele tenta extrair os metadados automaticamente. Para artigos bem indexados, funciona bem. Para alguns PDFs com metadados ruins, você vai precisar corrigir os dados na mão.
Uma forma mais eficiente: quando você encontra um artigo no Google Scholar ou em uma base de dados, procure o botão de exportar para Mendeley ou baixe o arquivo .ris ou .bib e importe. Esses formatos trazem os metadados corretos.
Organizando por pastas:
Você pode criar pastas para cada projeto, disciplina ou capítulo da dissertação. Um artigo pode estar em várias pastas ao mesmo tempo, sem duplicar o arquivo.
Inserindo citações no Word:
Com o plugin instalado, aparece uma aba do Mendeley no Word. Você posiciona o cursor onde quer a citação, clica em “Insert Citation”, busca o artigo pelo título ou autor e confirma. Pronto. A referência aparece no formato que você configurou.
Para mudar o estilo de citação, você altera nas configurações do Mendeley e todas as citações do documento atualizam automaticamente.
O que o Mendeley faz bem
Algumas coisas funcionam particularmente bem.
A extração automática de metadados de PDFs com DOI é sólida. Para artigos de revistas indexadas, raramente você precisará corrigir as informações manualmente.
A interface de organização é clara. Pastas, grupos, tags, listas de leitura: há opções suficientes para quem precisa de mais estrutura sem ser excessivamente complexo.
A integração com o Word no Windows funciona de forma confiável para a maioria dos usuários. É o ambiente para o qual o Mendeley foi mais bem desenvolvido.
Para grupos de pesquisa, o Mendeley permite criar grupos compartilhados onde todos os membros contribuem e acessam a mesma biblioteca. Isso facilita revisão sistemática e trabalhos colaborativos.
Onde o Mendeley tropeça
Honestidade importa aqui. O Mendeley tem pontos fracos que você precisa conhecer.
ABNT tem detalhes que o Mendeley erra. A norma ABNT de referências bibliográficas é detalhada e tem peculiaridades. O estilo ABNT do Mendeley não está sempre atualizado com a versão mais recente da norma e pode gerar formatações incorretas em alguns tipos de referência, especialmente legislação, teses e capítulos de livros. Sempre revise as referências geradas antes de entregar qualquer trabalho.
Metadados errados aparecem. Para artigos mais antigos, em PDFs mal formatados ou em fontes que não são grandes revistas indexadas, o Mendeley frequentemente importa dados errados. Autor virado, ano errado, título incompleto. Corrija no momento que importar, não na véspera da entrega.
Pertence à Elsevier. Isso importa para alguns pesquisadores. A Elsevier é uma das maiores editoras acadêmicas comerciais. O Mendeley foi comprado por ela em 2013. Seus dados de biblioteca e hábitos de leitura ficam nos servidores deles. Se isso for uma preocupação para você, o Zotero, que é código aberto e sem fins lucrativos, é a alternativa.
O app mobile é limitado. Para leitura e anotação básica de PDFs funciona. Para gerenciar a biblioteca de forma complexa, menos. O uso produtivo do Mendeley continua sendo principalmente no desktop.
Mendeley versus Zotero: a comparação que todo mundo quer
Vou comparar os dois pontos que mais importam na prática.
Coleta de referências da web: Zotero tem vantagem clara aqui. O conector de navegador do Zotero captura referências de praticamente qualquer página de artigo, incluindo sites que o Mendeley não reconhece. Para quem pesquisa em bases de dados variadas, isso faz diferença.
Interface e facilidade inicial: Mendeley tem vantagem de percepção de facilidade no primeiro uso. A interface visual é mais polida. Zotero exige um pouco mais de configuração inicial mas recompensa com mais flexibilidade.
Estilos de citação: Os dois têm extensas bibliotecas de estilos. Para ABNT especificamente, nenhum dos dois é perfeito, mas existem versões atualizadas por comunidades de usuários brasileiros que melhoram bastante o resultado.
Dados e privacidade: Zotero é código aberto e seus dados ficam principalmente locais ou em servidores que você controla. Mendeley é propriedade da Elsevier.
Para a maioria dos iniciantes em gerenciamento de referências, qualquer dos dois serve. O importante é escolher um e usá-lo de verdade desde o início da pesquisa, não depois que a lista de referências já virou um problema.
O que acontece quando você não usa nenhum gerenciador
Vou pintar o cenário de quem não usa, porque às vezes ajuda a visualizar por que vale o esforço inicial.
Você anota as referências em um documento separado. No começo funciona. Com o tempo, você começa a esquecer de anotar. Quando vai escrever a dissertação, tem referências no documento de notas, outras nos marcadores do navegador, outras que você lembra vagamente mas não tem o dado completo.
Você precisa de 40 horas para montar a lista de referências no formato correto. Nessas 40 horas, você revisa cada referência manualmente, procura os dados que faltam, formata tudo no estilo que seu programa exige.
Esses erros aparecem nas bancas. Orientadores notam referências incompletas. Revisores de artigo notam. É um detalhe que comunica descuido.
Gerenciadores de referências existem exatamente para isso: tirar esse trabalho de cima de você e deixar você focada no que importa, que é a pesquisa em si.
Começar agora, mesmo no começo do mestrado
A melhor hora para começar a usar um gerenciador de referências é antes de você precisar. Quando você ainda tem poucos artigos, a curva de aprendizado é menor e você não vai ter que migrar uma biblioteca enorme depois.
Se você está na fase de revisão bibliográfica, o Mendeley vai funcionar como catálogo de tudo que você leu, com notas suas sobre cada artigo diretamente no PDF. Se você está na fase de escrita, vai inserir citações conforme escreve, sem interromper o fluxo para copiar dados de referência.
O Método V.O.E. parte de uma ideia: escrever com clareza requer ter clareza sobre o que você quer dizer. Não sobre como formatar. Ferramentas como o Mendeley existem para que a parte mecânica, a formatação das referências, não ocupe espaço mental que deveria estar com o argumento.
Instale, faça um teste com cinco artigos que você já leu, e avalie se é para você. Quinze minutos de configuração agora poupam muitas horas depois.