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Mentoria entre Pares na Pós: Por Que Funciona

O que é mentoria entre pares na pós-graduação, por que ela complementa a orientação formal e como encontrar ou criar essas relações na sua trajetória acadêmica.

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O que seu orientador não pode te dar (e não deveria ter que dar)

Olha só: existe uma expectativa silenciosa que muitos pesquisadores colocam na figura do orientador — que ele seja ao mesmo tempo guia metodológico, suporte emocional, modelo de carreira, leitor atencioso, conselheiro de vida e interlocutor intelectual permanente.

Isso é demais para uma só relação, especialmente considerando que orientadores têm dezenas de orientandos, pesquisas próprias, encargos administrativos, e uma vida fora da academia.

Não estou dizendo que orientadores não devem apoiar seus orientandos. Devem. Mas parte do problema que muitos pesquisadores vivem na pós-graduação vem de colocar numa relação só o que precisaria de várias relações diferentes.

Mentoria entre pares existe exatamente para preencher o que a orientação formal não foi feita para preencher.

O que é mentoria entre pares, de fato

Mentoria entre pares — peer mentoring — é uma relação de apoio e troca entre pessoas em estágios próximos ou similares da trajetória. Não necessariamente idênticos: o mais comum é que haja alguma assimetria de experiência — alguém que passou pela qualificação no semestre passado e alguém que vai passar agora, alguém que publicou seu primeiro artigo e alguém que está tentando pela primeira vez.

O que diferencia mentoria entre pares da orientação formal é exatamente a horizontalidade. Não há hierarquia institucional. Não há avaliação. Não há relação de poder que complique o que pode ser dito ou como pode ser dito.

Isso cria um tipo de conversa que simplesmente não acontece com o orientador: a conversa honesta sobre estar perdido, sobre não entender algo que deveria entender, sobre ter medo da qualificação, sobre não saber se é capaz. Com um par, você pode dizer “não sei” sem temer julgamento sobre sua competência. Com o orientador, essa conversa tem peso diferente.

Por que funciona: o que a experiência recente oferece

Há algo específico que um pesquisador que passou recentemente pelo que você está vivendo pode oferecer, e que ninguém mais pode.

O orientador passou pela qualificação há décadas. Lembra dos princípios, mas pode ter esquecido a sensação de estar sentado naquela cadeira. Um colega que qualificou no semestre passado lembra dos detalhes: como preparou, o que a banca perguntou, o que desejou ter feito diferente.

Isso é conhecimento tácito, prático, específico ao contexto atual do programa. Não está nos guias institucionais. Não aparece nas reuniões de orientação. Circula entre pesquisadores, nas conversas de corredor, nas mensagens no WhatsApp, nas conversas depois de seminários.

Mentoria entre pares é uma forma de acessar esse conhecimento de forma mais intencional.

Tipos de mentoria que funcionam na prática

A mentoria entre pares não tem um formato único. Existem variações que funcionam bem dependendo do contexto.

Mentoria vertical entre pares é a mais clássica: alguém um ou dois anos à frente na mesma área ou programa apoia alguém mais recente. A assimetria de experiência é clara, mas não há a assimetria de poder da orientação formal. O mais experiente pode compartilhar o que já sabe; o mais recente traz perspectiva nova e perguntas que fazem o mais experiente articular coisas que talvez não tivesse articulado.

Mentoria horizontal acontece entre pessoas no mesmo estágio. Um grupo de colegas na mesma fase da dissertação que se reúnem para compartilhar avanços, dificuldades e estratégias. Não há quem ensina e quem aprende — todo mundo ensina e todo mundo aprende.

Mentoria de área para área acontece quando pesquisadores de campos diferentes se apoiam mutuamente. Pode parecer contraintuitivo, mas às vezes é exatamente a perspectiva de fora da sua área que revela o que você não consegue ver por dentro.

Como se torna uma relação de mentoria

Relações de mentoria raramente começam com um contrato formal. Elas emergem de conversas que se aprofundam ao longo do tempo.

Você vai a um seminário e tem uma conversa interessante com um pesquisador que está dois semestres à frente. Você manda uma mensagem depois com uma dúvida específica. Ele responde com generosidade. Você passa a conversar com mais frequência. Isso é mentoria, mesmo que nunca tenha sido nomeado assim.

O que você pode fazer de forma mais ativa: identificar pessoas na sua trajetória cujas experiências são relevantes para onde você está, chegar com perguntas concretas em vez de pedidos vagos, e retribuir quando puder — mesmo que você esteja no início, há algo que você sabe que a outra pessoa não sabe.

Não espere que a relação apareça espontaneamente. Às vezes aparece. Mas você pode criar as condições para que apareça.

O que pedir e o que oferecer

Uma conversa de mentoria entre pares funciona melhor quando você vai com perguntas específicas do que com problemas nebulosos.

“Como você se preparou para a qualificação?” é mais produtivo do que “estou ansioso com a qualificação”. O primeiro convida uma resposta concreta. O segundo é um convite para uma conversa de apoio emocional, que tem valor, mas é uma coisa diferente.

O que você pode oferecer em troca depende de onde você está. Se é novo no programa, pode oferecer perspectiva sobre o que parece confuso de fora, pode oferecer leitura de textos, pode oferecer presença. Se está mais avançado, pode oferecer o que aprendeu no caminho, pode oferecer revisão de textos, pode oferecer conexões com pessoas que conheceu no campo.

Relações de mentoria que funcionam têm alguma reciprocidade — mesmo que assimétrica e mesmo que não seja imediata. Relações que se tornam unilaterais tendem a se esgotar.

O problema da solidão na pós (e o que mentoria faz a respeito)

Existe algo que pesquisadores experientes sabem mas raramente dizem: a pós-graduação pode ser um lugar de isolamento profundo, e esse isolamento tem consequências reais para o andamento da pesquisa e para a saúde mental do pesquisador.

Quando você está no estágio de escrita da dissertação, especialmente depois das disciplinas, a estrutura de contato regular com pares some. Você não tem mais turma. As interações com o orientador são espaçadas. E você pode ficar meses com a sensação de que ninguém ao seu redor entende pelo que você está passando.

Mentoria entre pares não resolve o isolamento estrutural da pós-graduação. Mas cria pontos de contato regulares com pessoas que entendem o que é escrever uma dissertação, o que é ter uma ideia bloqueada por semanas, o que é a mistura de exaustão e propósito que caracteriza a pesquisa.

Isso tem valor além da informação que é trocada. Tem valor pela normalização — a percepção de que o que você está vivendo não é fraqueza pessoal, é parte do processo que outras pessoas também estão navegando.

Quando a mentoria não funciona

Nem toda tentativa de mentoria entre pares dá certo. Algumas coisas que sabotam a relação:

Falta de reciprocidade consistente. Relações que são unilaterais desgastam quem está sempre do lado que dá.

Expectativas muito diferentes sobre o que a relação é. Se uma pessoa entende como amizade e a outra como parceria profissional, há um desalinhamento que precisa ser explicitado.

Conversas que ficam no desabafo sem avançar. Apoio emocional é parte importante, mas relações de mentoria que giram só em torno de dificuldades sem construção de saídas podem se tornar exaustivas para as duas partes.

Competição não reconhecida. Em contextos de alta competitividade acadêmica, às vezes o que parece mentoria tem uma corrente subterrânea de comparação e competição. Relações assim não são seguras para a vulnerabilidade que mentoria genuína exige.

Quando uma relação de mentoria não está funcionando, o mais honesto é reconhecer isso e não forçar. Há pessoas com quem você tem boas conversas esporádicas, sem que isso precise ser uma relação de mentoria formal.

Uma coisa que você pode fazer hoje

Se você está lendo isso e percebendo que não tem essas relações na sua trajetória, aqui está uma coisa concreta: pense em quem na sua rede acadêmica você admira, que está um ou dois estágios à frente de onde você está, e com quem você nunca teve uma conversa de verdade.

Mande uma mensagem. Diga que está navegando um desafio específico e que gostaria de ouvir a experiência dessa pessoa. Seja concreto. Seja genuíno.

Na maioria das vezes, a resposta vai surpreender você.

Perguntas frequentes

O que é mentoria entre pares na pós-graduação?
Mentoria entre pares é uma relação de apoio e troca entre pesquisadores em estágios próximos da trajetória acadêmica — geralmente alguém que passou por algo recentemente e alguém que está passando agora. Diferente da orientação formal, não há hierarquia institucional: é uma troca horizontal entre pessoas que compartilham desafios semelhantes e podem oferecer perspectiva, suporte e conhecimento prático umas às outras.
Como encontrar um mentor entre pares na pós-graduação?
Os melhores mentores entre pares raramente têm esse título. São colegas alguns semestres à frente no mesmo programa, pesquisadores de áreas afins que você conhece em eventos, pessoas que você acompanha nas redes e com quem desenvolve interlocução ao longo do tempo. A busca ativa — chegar para conversar, fazer perguntas concretas, propor trocas — é o que transforma conhecimento em relação de mentoria.
Mentoria entre pares substitui a orientação formal?
Não. São relações complementares, com papéis diferentes. A orientação formal tem função institucional e metodológica específica. A mentoria entre pares oferece algo diferente: perspectiva de quem acabou de passar pelo mesmo processo, suporte emocional sem a assimetria de poder da relação orientador-orientando, e conhecimento prático que muitas vezes não circula formalmente no programa.
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