Brasil entre os 3 países com mais revistas universitárias
Levantamento global mostra que o Brasil tem 1.530 revistas universitárias, atrás só dos EUA e Indonésia. Por que a herança CAPES explica o número.
Um estudo internacional acaba de mapear 19.414 revistas universitárias ativas em 148 países, e colocou o Brasil em terceiro lugar global, com 1.530 títulos. Acima estão só os Estados Unidos (2.188) e a Indonésia (2.131). O dado vem de artigo publicado na revista científica Scientometrics em janeiro de 2026, assinado por pesquisadores do Centro Leibniz de Informação para Ciência e Tecnologia, na Alemanha, e das universidades de Tampere, na Finlândia, e Hacettepe, na Turquia. O modelo de acesso aberto diamante é o regime editorial em que a revista não cobra dos autores nem dos leitores, sustentando-se com financiamento institucional, e ele é predominante entre essas publicações brasileiras. Se você está submetendo artigo, planejando publicação ou avaliando programas de pós-graduação, esse mapa global merece um lugar na sua estratégia.
O que aconteceu
O levantamento usou como fonte principal o Ulrichsweb, o diretório internacional de periódicos, complementado por Scopus, Web of Science, OpenAlex e o Diretório de Revistas de Acesso Aberto (Doaj). A primeira autora, Maryna Nazarovets, especialista em comunicação científica em pós-doutorado no Centro Leibniz, afirmou que 45,9% dos mais de 19 mil periódicos estão indexados no Doaj e três quartos deles operam no modelo diamante. A maior concentração temática está em ciências sociais e humanidades, com forte diversidade linguística: mais de um terço publica exclusivamente em idiomas que não o inglês.
Pra Nazarovets, a proeminência brasileira reflete uma combinação de fatores. O primeiro é o tamanho do sistema público de universidades, em que ter revista própria virou parte da infraestrutura acadêmica das instituições, ao lado de bibliotecas e laboratórios. O segundo é o papel do sistema CAPES de avaliação da pós-graduação, que criou demanda constante por canais de publicação e estimulou o crescimento de revistas vinculadas a universidades. O terceiro é o pioneirismo do programa SciELO, criado em 1996 com apoio da FAPESP, que consolidou cultura de acesso aberto antes da maior parte do mundo.
Sigmar de Mello Rode, ex-presidente da Associação Brasileira de Editores Científicos (Abec-Brasil) e professor da Unesp em São José dos Campos, lembra uma origem mais concreta. Na década de 1990, quando o Ministério da Educação avaliava programas de pós-graduação, uma das perguntas do formulário era literalmente: a universidade tem revista própria? Rode foi avaliador nesse período e relata que essa pergunta funcionou como indutor potente para que as instituições criassem periódicos. O movimento se intensificou entre 2000 e 2015 com o trabalho do Ibict, que treinou universidades no software livre Open Journal Systems (OJS) para criar revistas de acesso aberto.
Vale dizer que o estudo internacional pode estar subestimando a contagem brasileira. O portal Miguilim, do Ibict, registra 2.705 revistas científicas universitárias ativas no país, número bem maior que os 1.530 do mapeamento europeu. A divergência vem de questões técnicas: muitas revistas brasileiras menores não têm assinatura de DOI (Digital Object Identifier), o que impede sua entrada em bases internacionais. A foto, portanto, é positiva, mas ainda parcial.
Por que isso importa pra você
Vou te mostrar em três frentes.
Se você está submetendo artigo ou planejando publicação
- Considere revistas universitárias na sua estratégia, não como segunda opção. Muitas têm fator de impacto na faixa de 2 a 3 (caso do JAOS, da USP/Bauru), indexação SciELO e Scopus, e processo editorial rigoroso.
- Cheque o modelo de financiamento da revista. No diamante, você publica sem APC (taxa de publicação). Isso é vantagem real, especialmente em programas com fomento apertado.
- Olhe a política de endogenia. Revistas universitárias saudáveis mantêm o índice de publicações de pesquisadores da própria instituição em torno de 12 a 15%. Acima disso, sinal amarelo. O dado costuma estar transparente nas páginas editoriais.
Se você está construindo carreira acadêmica
- Edição é trabalho técnico subvalorizado. As revistas que dão prestígio à sua área dependem de gente que doa tempo, frequentemente sem contrapartida financeira (a editora-chefe da JAOS, por exemplo, é não remunerada). Reconhecer esse trabalho dentro da sua comunidade é parte do cuidado profissional.
- Conheça o portal da sua universidade. A Unicamp mantém 33 títulos ativos via Portal de Periódicos Eletrônicos Científicos. A USP tem 204 publicações ligadas a ela. Saber o que existe na sua própria instituição abre caminhos.
Se você está orientando ou coordenando programa
- Discuta estratégia de publicação com orientandos. Sair direto pra revista A1 internacional é caminho legítimo, mas existem outras rotas. Revista universitária de qualidade pode ser primeira publicação que abre caminho pras de impacto maior.
- Apoie a revista do seu departamento. Submissão, parecer, divulgação. Tudo conta. O ecossistema de revistas universitárias depende disso pra sustentação a longo prazo.
Por que esse número merece leitura cuidadosa
Quando li o levantamento, o que mais me bateu não foi a posição do Brasil. Foi o que ela cobra. O país construiu 1.530 títulos (e segundo o Ibict, possivelmente mais de 2.700) com base num induto institucional dos anos 1990, sustentado por trabalho voluntário ou semi-voluntário de pesquisadores que editam de graça, em paralelo às suas próprias pesquisas. A sustentabilidade financeira é o ponto frágil de quase todas elas. A Revista Dados, da Uerj, fundada em 1966, tem cinco colaboradores remunerados e depende de editais. A JAOS, da USP, custa R$ 386 mil por ano, sendo 74% bancados pela universidade. A Faperj, o CNPq e a CAPES financiam parte por meio de editais específicos, mas o cobertor é curto.
É aqui que o Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) ajuda a pensar a sua relação com esse ecossistema. Organização inclui escolher revistas onde sua produção tenha leitor real, não só selo de impacto. Velocidade no método é saber quando vale investir tempo em uma submissão a periódico universitário de qualidade e quando vale partir pra revista de fator maior. Execução Inteligente é reconhecer que o sistema editorial é frágil e que cada submissão sua é, em algum nível, voto pelo modelo de ciência que você quer ver sobrevivendo.
Por um lado, a posição brasileira é motivo legítimo de orgulho. A gente democratizou publicação científica numa escala que poucos países conseguiram. O pioneirismo SciELO, o acesso aberto majoritário, a diversidade temática e linguística são conquistas concretas. Por outro, esses números convivem com endogenia em revistas frágeis, dependência de fomento errático e indexação internacional incompleta. Não significa que o Brasil precisa imitar o modelo anglo-americano amanhã. Significa que vale ficar atento ao que sustenta esse panorama, porque o que sustenta hoje pode não sustentar daqui a cinco anos.
Próximos passos
Aqui vai um checklist do que dá pra fazer ainda essa semana:
- Ler a reportagem completa na Revista Pesquisa FAPESP e visitar o portal Miguilim do Ibict pra checar revistas da sua área.
- Listar 3 revistas universitárias da sua subárea que você nunca submeteu. Conferir indexação (Doaj, SciELO, Scopus) e política editorial.
- Olhar o portal de periódicos da sua universidade. Se sua instituição tem revista que se conecta com seu tema, considerar contato com a editoria.
- Conversar com seu orientador sobre estratégia de publicação dos próximos 12 meses, incluindo pelo menos 1 revista universitária qualificada.
- Se você tem interesse em editoração científica, perguntar à editora-chefe da revista do seu programa como contribuir, ainda que como avaliadora ad hoc.
Se você quer ir mais fundo na conversa sobre publicação científica e estratégia de carreira, dá uma olhada em
Fonte: Brasil ocupa 3º lugar entre os países com mais periódicos científicos universitários, Revista Pesquisa FAPESP
Perguntas frequentes
Quantas revistas científicas universitárias o Brasil tem?
O que é o modelo de acesso aberto diamante?
Por que o Brasil tem tantas revistas universitárias?
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