Jornada & Bastidores

O dia em que quase desisti (e a ligação que mudou tudo)

Quase desistir do mestrado ou doutorado é mais comum do que você imagina. Conte a história real de quem esteve no limite e o que mudou a direção.

desistir-mestrado motivacao-academica saude-mental-pos-graduacao jornada-pesquisadora apoio-pos-graduacao

Tinha chegado na minha hora de sair

Olha só: existe uma data específica que eu nunca esqueci. Um dia de agosto, segundo ano do doutorado, por volta das 19h. Eu estava sentada no chão do escritório, encostada na parede, com o computador no colo mostrando um documento que eu não conseguia escrever fazia semanas.

Naquele momento, eu não estava deprimida. Não estava em crise aguda. Estava, simplesmente, convicta de uma coisa: não era para mim. Que eu tinha errado de caminho. Que ia ligar para o meu orientador na manhã seguinte e pedir para sair.

Eu tinha um roteiro mental pronto: diria que havia repensado minha trajetória, que meu interesse havia mudado. Educado. Sem drama.

E então meu celular tocou.


Quase desistir é mais comum do que seu programa admite

Antes de contar o que aconteceu naquela ligação, preciso dizer uma coisa que os programas de pós-graduação raramente falam em voz alta: a vontade de desistir não é exceção. É regra.

Estudos com pós-graduandos de diferentes países mostram que a maioria passa por momentos de dúvida intensa. Não o tipo passageiro de “hoje não estou com vontade de trabalhar”. Estou falando da dúvida que te faz questionar se você deveria estar ali, se o sacrifício faz sentido, se existe um futuro naquilo que você escolheu.

Só que ninguém comenta isso na reunião de grupo. Ninguém coloca no status do WhatsApp. A academia criou uma cultura onde admitir dificuldade parece falha de caráter, e desistir parece derrota pessoal.

O resultado é que milhares de pesquisadores carregam esse peso sozinhos, convencidos de que são os únicos que sentem isso.

Não são.

Você não é.


O que normalmente precede o pensamento de desistir

Quando ouço de colegas ou orientandas que estão no limite, reconheço um padrão. Não é um evento isolado que quebra a resistência. É uma soma de coisas menores que se acumulam até que a estrutura não aguenta mais.

Isolamento que foi crescendo sem você perceber. Nos primeiros meses da pós, você ainda mantinha contato com amigos de fora, família, vida social. Aos poucos, as demandas foram engolindo os fins de semana. As saídas foram diminuindo. O mundo foi encolhendo para a tela do computador e o corredor do departamento.

Um evento específico que funcionou como gatilho. Pode ser uma revisão cruel de periódico. Uma banca de qualificação que foi além do esperado. Um feedback do orientador que ficou ecoando por semanas. Uma comparação interna com colega que parecia avançar mais rápido. O gatilho por si só raramente seria suficiente, mas ele aparece em terreno esgotado.

A sensação de que o trabalho não avança. Semanas escrevendo e reescrevendo o mesmo parágrafo. Meses coletando dados que parecem não encaixar no que você previa. A dissertação que cresce de um lado e some de outro, sem nunca parecer mais completa.

E, por fim, a pergunta que ninguém quer fazer em voz alta: para quê, afinal?

No dia em que quase desisti, eu tinha vivido todos esses pontos. Não de forma dramática. Só de forma acumulada, silenciosa, persistente.


A ligação

O celular era minha mãe. Ela não sabia nada do que estava acontecendo. Ligou para perguntar se eu ia ao aniversário de um primo naquele fim de semana.

A conversa foi completamente banal. Durou uns dez minutos. Falamos de comida, de trânsito, de quem ia aparecer na festa.

Mas no meio dessa conversa, ela perguntou: “Tá bem? Tá parecendo cansada.”

Eu disse que estava bem. E aí ela fez o que mães fazem, às vezes: ficou em silêncio. Um silêncio que não cobrava resposta, que não pressionava, que simplesmente ficou ali.

E eu comecei a chorar.

Não dramaticamente. Só um choro manso, aquele que sai quando você finalmente tem permissão de não estar bem.

Contei tudo. O documento parado. A sensação de não saber mais por que estava fazendo aquilo. O roteiro que tinha preparado para a manhã seguinte.

Minha mãe não me deu conselho nenhum. Não disse “você consegue”. Não usou nenhuma frase motivacional. Ela disse: “Então descansa hoje. Você decide amanhã.”


Por que aquilo funcionou

Porque ela não tentou me convencer de nada.

Existe uma armadilha bem-intencionada que as pessoas caem quando alguém diz que quer desistir: a tentativa imediata de contra-argumentar. “Mas você chegou tão longe!” “Pensa no que você já investiu!” “Vai passar, todo mundo sente isso!”

Todas essas frases são verdadeiras. E nenhuma delas funciona quando você está no limite, porque o que uma pessoa exausta precisa não é de argumento. É de espaço.

Minha mãe me deu espaço. E naquele espaço, eu dormi.

No dia seguinte, ainda estava cansada. Ainda tinha dúvidas. Mas a convicção de que era hora de sair tinha sumido. O que restou foi um conjunto de problemas concretos, que tinham nomes e possíveis encaminhamentos.

Não liguei para o orientador pedindo para sair. Liguei para marcar uma conversa sobre o andamento da pesquisa.

Essa conversa, por sinal, foi uma das mais produtivas que tivemos.


O que aprendi sobre o limite

Desde então, já ouvi muitas histórias parecidas. De pesquisadores que chegaram ao limite e depois concluíram. De outros que chegaram ao limite e decidiram, com clareza e cuidado, que não era aquilo mesmo. E de muitos que nunca contaram para ninguém e carregaram em silêncio por anos.

Uma coisa ficou clara para mim: o maior erro não é querer desistir. É tomar a decisão no pico da exaustão, sem dormir, sem comer bem, sem conversar com ninguém.

Exaustão distorce a percepção. Faz parecer permanente o que é provisório. Faz parecer enorme o que tem solução. Faz parecer inevitável o que ainda é uma escolha.

Isso não significa que desistir é errado. Às vezes é a decisão mais sensata e corajosa que alguém pode tomar. Mas essa decisão merece ser tomada em estado de clareza, não de colapso.


Se você está nesse lugar agora

Quero ser direta, sem romantizar o que você está sentindo.

Primeiro: o que você sente é válido. A exaustão é real. A dúvida é real. O cansaço acumulado é real. Não vou te dizer que é fácil, que você é forte o suficiente ou que vai passar logo.

Segundo: não tome nenhuma decisão definitiva hoje. Não mande o e-mail agora. Não marque a reunião para amanhã cedo. Dê a si mesmo pelo menos uma noite de sono antes.

Terceiro: fale com alguém. Não precisa ser alguém da academia. Pode ser um amigo de fora, um familiar, um parceiro. Se você sentir que a situação está indo além do esgotamento pontual, considere buscar suporte psicológico. Muitas universidades oferecem esse serviço gratuitamente, e buscar ajuda não é fraqueza.

Quarto: identifique se o problema tem nome. Orientação insuficiente? Finanças apertadas? Isolamento? Tema que perdeu sentido? Cada problema desses tem caminhos diferentes. Quando o problema tem nome, ele deixa de ser uma nuvem e vira algo que pode ser enfrentado.

Quinto: se depois de tudo isso a decisão de sair ainda fizer sentido, ela será uma decisão sua, feita com clareza. E essa é uma decisão respeitável.


O doutorado que aconteceu depois

Terminei o doutorado dois anos depois daquela noite no chão do escritório. Não foi linear. Teve mais momentos difíceis, mais dias parados, mais dúvidas.

Mas nunca mais fui ao limite sem reconhecer o que estava acontecendo. Nunca mais acumulei em silêncio por tanto tempo. Aprendi a identificar os sinais antes que chegassem ao ponto crítico. Aprendi, especialmente, que pedir ajuda não atrasa o doutorado. Às vezes, é o que o mantém em pé.

Se você tiver interesse em entender mais sobre como estruturar seu processo de escrita de forma que ele não te destrua, você pode conhecer o Método V.O.E.. Não é promessa de que vai ser fácil. É um método para que o processo seja mais claro e menos solitário.

E se quiser continuar essa conversa, estou por aqui.


Este post faz parte do pilar Jornada e Bastidores do blog doutoranathalia.com.br, onde eu conto histórias reais da vida na pós-graduação: sem romantizar, sem minimizar, sem fórmulas prontas.

Perguntas frequentes

É normal querer desistir do mestrado ou doutorado?
Sim, é muito mais comum do que parece. Pesquisas indicam que sentimentos de dúvida e vontade de desistir afetam a maioria dos pós-graduandos em algum momento. Isso não significa fraqueza, mas sim que você está dentro de um processo exigente e, muitas vezes, solitário.
O que fazer quando bate o pensamento de desistir da pós-graduação?
O primeiro passo é não tomar a decisão no pico da crise. Converse com alguém de confiança, seja um colega, familiar, ou profissional de saúde mental. Tente identificar se o problema é específico (orientação, tempo, finanças) ou difuso (esgotamento). Cada causa tem encaminhamento diferente.
Como saber se devo realmente desistir ou só precisar de uma pausa?
Pergunte a si mesmo: você ainda se importa com a pergunta de pesquisa? Ainda acredita que o tema tem valor? Se a resposta for sim mas o cansaço for enorme, é esgotamento, não falta de vocação. Se nem lembrar mais por que começou, vale uma conversa honesta com seu orientador e, quiçá, com um psicólogo antes de qualquer decisão definitiva.
<