IA & Ética

O que periódicos internacionais dizem sobre IA em 2026

As políticas editoriais sobre IA variam muito entre periódicos. Entenda o que os principais veículos científicos exigem sobre uso e declaração de IA nos artigos.

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As regras mudaram. Cada periódico fez a sua.

Olha só. Quando a IA generativa entrou de vez no cotidiano dos pesquisadores, lá por 2022-2023, o campo editorial científico foi pego desprevenido. As políticas sobre uso de IA eram inexistentes ou vagas, os editores não sabiam bem o que recomendar, e pesquisadores ficaram em um limbo: usar sem declarar, declarar sem saber como, ou evitar completamente.

Dois ou três anos depois, o cenário mudou, mas não de forma uniforme. Cada periódico desenvolveu sua própria política. Algumas são claras e detalhadas, outras ainda são genéricas demais para ser úteis. O resultado é que antes de submeter qualquer artigo hoje, você precisa verificar especificamente o que aquele periódico diz sobre IA.

Este post não é uma lista atualizada das políticas de cada periódico, porque essas políticas mudam. É um guia para você entender os padrões que surgiram e saber o que buscar.

O consenso que se formou: IA não é autora

O ponto em que praticamente todos os grandes periódicos convergem é este: inteligência artificial não pode ser listada como autora.

Autoria científica implica responsabilidade pelo trabalho, capacidade de responder por ele, e consentimento para publicação. Uma ferramenta de IA não tem nenhum dessas capacidades. Listar ChatGPT ou qualquer outro modelo como autor é considerado uma violação editorial na maioria dos veículos.

Isso inclui periódicos que permitem uso amplo de IA: o uso pode ser extenso, mas quem assina o artigo é o pesquisador, que assume responsabilidade por todo o conteúdo, incluindo o gerado com assistência de IA.

Declaração de uso: a norma emergente

A segunda convergência: quando IA foi usada de forma significativa na produção do manuscrito, a maioria dos periódicos exige algum tipo de declaração.

O que conta como “uso significativo” ainda não tem definição universal, mas a tendência é considerar uso significativo qualquer uso que tenha influenciado o conteúdo (não apenas ferramentas de verificação gramatical básica como Grammarly, que a maioria dos periódicos não exige declarar).

A estrutura típica da declaração inclui: identificar a ferramenta (nome, versão, desenvolvedor), descrever a finalidade (revisão gramatical, tradução, síntese de literatura, organização de ideias), e afirmar que os autores respondem pela precisão e integridade do conteúdo.

Onde essa declaração vai no artigo também varia. Alguns periódicos têm seção específica, outros pedem na seção de agradecimentos, outros aceitam em métodos. Verifique as instruções do periódico.

O espectro de políticas: do permissivo ao restritivo

A prática dos periódicos hoje vai de um extremo ao outro.

No lado mais permissivo: periódicos que permitem uso de IA em qualquer etapa do processo (pesquisa, análise, escrita) desde que declarado e desde que o pesquisador verifique e assuma responsabilidade pelo conteúdo.

No meio: periódicos que permitem IA para tarefas específicas (edição de linguagem, tradução, verificação gramatical) mas restringem o uso na análise científica, geração de hipóteses ou interpretação de resultados.

No lado mais restritivo: periódicos que proíbem IA generativa em qualquer parte da escrita do manuscrito, permitindo apenas para tarefas como verificação de código ou análise estatística com softwares específicos.

O periódico que você está considerando pode estar em qualquer ponto desse espectro. A única forma de saber é ler as políticas editoriais específicas.

Como encontrar a política de IA de um periódico

A maioria dos periódicos publica suas políticas na seção “Instructions for Authors” ou “Author Guidelines” do site. Busque por termos como “AI”, “artificial intelligence”, “ChatGPT”, “generative AI” dentro dessas páginas.

Se não encontrar nada explícito, isso não significa que não há política: pode significar que a política não foi publicada ainda ou que está em revisão. Nesse caso, o mais seguro é entrar em contato com o editorial office antes de submeter, perguntando especificamente qual é a política sobre uso de IA no manuscrito.

Alguns periódicos com sistemas de submissão online (ScholarOne, Editorial Manager) já incluem checkbox ou campo específico no processo de submissão para declaração de uso de IA. Quando isso existe, é obrigatório preencher.

O que isso significa para você pesquisador

Na prática, essa diversidade de políticas adiciona um passo ao processo de preparação da submissão: além de verificar o escopo, o Qualis e as normas de formatação, você precisa verificar a política de IA.

Isso leva poucos minutos e pode evitar problemas depois.

Um comportamento que está se tornando cada vez mais arriscado: usar IA extensamente na escrita e confiar que “vai ficar parecendo texto humano” depois da revisão. Detectores de IA são imperfeitos, mas editores e revisores experientes estão desenvolvendo sensibilidade para padrões de escrita que indicam uso não declarado. E se o uso for identificado depois da publicação, as consequências podem ser mais sérias do que um simples pedido de declaração.

A transparência é, como quase sempre, o caminho mais seguro.

O papel das associações científicas e do COPE

O COPE (Committee on Publication Ethics) é a organização de referência internacional para ética editorial. Suas diretrizes sobre IA foram atualizadas em 2023 e têm influenciado as políticas de muitos periódicos.

A posição do COPE é: IA pode ser ferramenta, não autora. O pesquisador é responsável por tudo no manuscrito, incluindo verificar a precisão do que a IA produziu. Uso deve ser declarado de forma transparente.

Muitas das políticas que os periódicos adotaram são variações dessas diretrizes. Quando um periódico diz “seguimos as diretrizes do COPE sobre uso de IA”, você pode consultar o site do COPE para entender o que isso implica.

Associações científicas de áreas específicas também começaram a publicar orientações próprias. A American Psychological Association, por exemplo, tem diretrizes para uso de IA em pesquisas publicadas em periódicos da APA. Se você publica em periódicos de uma associação específica, vale verificar se ela tem posição própria sobre o tema.

Um ponto que ainda gera confusão: o que é “revisão gramatical”

Existe uma zona cinza que muitos pesquisadores encontram: ferramentas como Grammarly, LanguageTool ou a função de revisão de texto do Word estão classificadas como IA por alguns periódicos e não por outros.

A maioria dos periódicos hoje ainda não inclui essas ferramentas nas exigências de declaração, tratando-as como equivalentes a usar um dicionário ou um correto ortográfico. Mas alguns periódicos mais restritivos sobre IA têm começado a ampliar a definição para incluir qualquer ferramenta de linguagem baseada em modelos de linguagem.

Se você usa Grammarly regularmente e está submetendo para um periódico que tem política muito restritiva sobre IA, vale a pena verificar se a política menciona explicitamente esse tipo de ferramenta.

Uma perspectiva sobre para onde isso vai

O campo ainda está em transição. As políticas de hoje não são necessariamente as de daqui a dois anos.

A tendência que parece mais sólida é a da transparência: declarar o uso, descrever a finalidade, assumir responsabilidade. Isso é consistente com o princípio geral da integridade científica e é difícil de argumentar contra.

A tendência mais incerta é sobre os limites do que é permitido. Alguns periódicos hoje restritivos podem relaxar as políticas à medida que a comunidade científica desenvolve mais consenso e melhores práticas. Outros podem endurecer se surgem casos de abuso que chamam atenção.

O que você pode fazer agora é trabalhar dentro das políticas existentes, declarar quando usar, verificar o que a IA produziu, e acompanhar as atualizações dos periódicos em que você publica regularmente.

Para uma visão mais ampla sobre como usar IA sem comprometer sua autoria intelectual, o post sobre como usar IA sem comprometer sua autoria vai mais fundo nessa questão. E se você quer entender o que configurou como plágio nesse novo contexto, o post sobre [plágio com IA](/blog/plagio

Perguntas frequentes

Os periódicos científicos permitem o uso de IA na escrita de artigos?
A maioria dos periódicos internacionais permite o uso de IA como ferramenta auxiliar, mas não aceita IA como autora e exige declaração de como ela foi utilizada. A política varia por periódico: alguns proíbem qualquer uso de IA generativa na escrita, outros apenas exigem divulgação transparente. Verifique sempre as diretrizes específicas do periódico antes de submeter.
O que acontece se eu usar IA sem declarar em um artigo?
Depende da política do periódico. Alguns consideram uso não declarado de IA como violação da política editorial, que pode resultar em rejeição ou retratação do artigo caso descoberto após publicação. Outros ainda não têm política clara. A prática mais segura é sempre declarar, mesmo quando a política não exige explicitamente.
Como escrever a declaração de uso de IA em um artigo científico?
A maioria dos periódicos pede que a declaração descreva: qual ferramenta foi usada, para qual finalidade específica (revisão gramatical, tradução, organização de ideias), e que o autor assume responsabilidade pelo conteúdo. Algo como: 'O ChatGPT (versão X, OpenAI) foi utilizado para revisão gramatical de seções do manuscrito. O conteúdo científico, a análise e as conclusões são de responsabilidade exclusiva dos autores.'
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