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Pesquisa em Enfermagem: Guia Completo para Iniciantes

Entenda como funciona a pesquisa em enfermagem, quais são as abordagens metodológicas mais usadas e o que diferencia o bom trabalho científico na área.

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Pesquisa em enfermagem: por que isso importa para a prática

Vamos lá. A pesquisa em enfermagem não é uma exigência burocrática da graduação ou da pós. É o que sustenta a prática baseada em evidências — a ideia de que o cuidado de enfermagem deve ser orientado pelo que os estudos mostram funcionar, não apenas pela tradição ou pelo “sempre foi assim.”

Isso significa que cada TCC, cada dissertação e cada artigo produzido na área tem o potencial de influenciar protocolos clínicos, formação profissional, políticas de saúde. A pesquisa de qualidade em enfermagem não fica na gaveta — ela circula, é citada, informa decisões.

Entender como fazer essa pesquisa bem é, portanto, uma competência profissional, não só acadêmica.

As grandes questões que a pesquisa em enfermagem investiga

A produção científica em enfermagem orbita em torno de algumas grandes questões:

O que funciona no cuidado? Intervenções de enfermagem, protocolos de assistência, tecnologias em saúde. Pesquisas experimentais e ensaios clínicos se encaixam aqui.

Como os sujeitos do cuidado vivem a experiência? A perspectiva de pacientes, familiares e cuidadores sobre adoecimento, hospitalização, tratamento. Pesquisas fenomenológicas e etnográficas estão nesse campo.

O que acontece nos serviços? Gestão de unidades, clima organizacional, dimensionamento de pessoal, cultura de segurança. Pesquisas descritivas e correlacionais respondem a essas perguntas.

Quais são as necessidades de saúde de populações específicas? Estudos epidemiológicos, levantamentos de saúde, análises de indicadores. Enfermagem tem produção importante em saúde coletiva.

Saber onde a sua pergunta de pesquisa se encaixa ajuda a escolher a metodologia adequada — e evita o erro de usar um método que não é adequado para o tipo de questão que você quer responder.

Metodologias mais usadas na pesquisa em enfermagem

Pesquisa quantitativa

A pesquisa quantitativa em enfermagem trabalha com dados numéricos e busca estabelecer relações entre variáveis, avaliar a eficácia de intervenções ou descrever prevalências.

Os desenhos mais comuns incluem: ensaios clínicos randomizados (gold standard para testar intervenções), estudos de coorte (acompanhamento ao longo do tempo), estudos de caso-controle (comparação entre grupos), e levantamentos transversais (foto do momento).

Para TCC e dissertações de mestrado, os levantamentos transversais e estudos correlacionais são mais viáveis em termos de tempo e recursos. Ensaios clínicos randomizados exigem estrutura que poucos programas de mestrado têm condições de oferecer.

Pesquisa qualitativa

A pesquisa qualitativa em enfermagem é extremamente rica e produz conhecimento que a pesquisa quantitativa não consegue capturar: o significado das experiências, os processos de cuidado, as dinâmicas relacionais.

As abordagens mais usadas em enfermagem são:

Fenomenologia: investiga a experiência vivida de um fenômeno. “Como é para o paciente com diabetes vivenciar a restrição alimentar?” é uma pergunta fenomenológica.

Grounded Theory: constrói teorias a partir dos dados, adequada para entender processos sociais. “Como os enfermeiros da UTI constroem estratégias para lidar com a morte recorrente?” pode ser uma pergunta de grounded theory.

Pesquisa-ação: envolve os participantes no processo de pesquisa e intervenção. Adequada para projetos que querem mudar uma realidade ao mesmo tempo que a investigam.

Análise de conteúdo e análise temática: métodos de análise dos dados, muito usados em pesquisas com entrevistas e grupos focais.

Revisões sistemáticas e integrativas

Revisões são uma categoria importante de produção científica em enfermagem. Em vez de coletar novos dados, você analisa criticamente os estudos existentes sobre uma questão.

A revisão sistemática segue protocolo rigoroso (PRISMA) e é reconhecida como alto nível de evidência. A revisão integrativa é mais flexível, permite incluir estudos de diferentes abordagens, e é muito comum em dissertações de mestrado em enfermagem.

Para um TCC de graduação, revisões integrativas são bastante adequadas — permitem produção científica rigorosa sem necessidade de aprovação no CEP, porque você está trabalhando com dados já publicados.

Bases de dados essenciais para a pesquisa em enfermagem

Saber onde buscar faz diferença. Para pesquisa em enfermagem, as bases mais importantes são:

LILACS: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde. Fundamental para encontrar publicações brasileiras e latino-americanas.

MEDLINE/PubMed: a maior base de dados de ciências da saúde do mundo. Indexa as principais revistas de enfermagem internacionais.

CINAHL: Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature. Especializada em enfermagem e áreas relacionadas. Acesso via Portal de Periódicos CAPES.

SciELO: muitos periódicos brasileiros de enfermagem estão indexados aqui e têm acesso aberto.

Para construir estratégias de busca eficientes, use os DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) — o vocabulário controlado do BIREME para a área da saúde.

O que torna uma pesquisa de qualidade em enfermagem

Além dos critérios metodológicos gerais (rigor, coerência, transparência), a pesquisa em enfermagem de qualidade se distingue por algumas características:

Relevância clínica: os resultados têm implicação para a prática de enfermagem? A pergunta de pesquisa parte de um problema real dos serviços?

Consideração das dimensões do cuidado: enfermagem cuida de pessoas, não apenas de doenças. Uma boa pesquisa na área leva em conta o contexto, as relações, os aspectos subjetivos.

Rigor ético: pesquisa com seres humanos, especialmente com populações vulneráveis (pacientes hospitalizados, crianças, idosos), exige cuidado redobrado com o processo de consentimento e com a proteção dos participantes.

Contribuição para a identidade profissional: a enfermagem tem lutado historicamente para consolidar sua base de conhecimento própria. Pesquisas que avançam o conhecimento específico da área — e não apenas aplicam modelos de outras ciências sem adaptação — são especialmente valorizadas.

Iniciando na pesquisa: o que fazer antes do TCC ou da seleção para o mestrado

Se você está começando, algumas ações práticas que fazem diferença:

Participe de um grupo de pesquisa. As universidades têm grupos de pesquisa em enfermagem cadastrados no CNPq. Participar como aluno de iniciação científica é a melhor forma de aprender a fazer pesquisa antes de precisar fazer sozinho.

Leia artigos regularmente nas revistas da área. Revistas como Escola Anna Nery, Revista Brasileira de Enfermagem, Texto & Contexto Enfermagem e Acta Paulista de Enfermagem são referências nacionais.

Entenda o processo de submissão e publicação. Saber como um artigo vai da pesquisa concluída até a publicação em periódico ajuda a calibrar expectativas e a entender o que as revistas valorizam.

Para organizar seu processo de escrita e garantir que a argumentação do seu projeto de pesquisa seja clara e coerente, o Método V.O.E. oferece uma estrutura que funciona bem para pesquisas em saúde — área em que clareza de objetivos e metodologia é especialmente importante. E a seção de recursos tem materiais complementares sobre metodologia e escrita acadêmica.

Como escolher entre pesquisa qualitativa e quantitativa em enfermagem

Essa dúvida aparece em praticamente todos os TCCs e projetos de mestrado em enfermagem. A resposta mais honesta: a escolha deve partir da sua pergunta de pesquisa, não do que você acha mais fácil ou do que o seu orientador faz.

Se a sua pergunta pergunta “quanto”, “com que frequência”, “qual a prevalência” ou “existe diferença entre grupos”, o caminho é quantitativo. Se a sua pergunta pergunta “como é”, “o que significa”, “quais são as experiências de” ou “como funciona esse processo”, o caminho é qualitativo.

Pesquisas mistas combinam os dois, mas são mais complexas de executar — e para TCCs de graduação, geralmente não fazem sentido. Para dissertações de mestrado, dependem do orientador e da proposta.

Uma dica prática: olhe para os artigos mais citados na sua área específica. Qual abordagem predomina? Isso dá uma ideia do que a comunidade científica da área considera mais adequado para o tipo de questão que você está investigando.

O papel da teoria de enfermagem nas pesquisas

Existe uma discussão importante (e frequentemente ignorada nos TCCs) sobre o uso de teorias próprias da enfermagem para embasar as pesquisas.

A enfermagem tem seu próprio corpo de teorias — Teoria do Autocuidado de Orem, Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Wanda Horta, Modelo de Adaptação de Roy, entre outras. Usar essas teorias como referencial teórico não é apenas uma questão de “estar usando enfermagem”, mas de inserir o trabalho dentro de uma tradição de conhecimento própria da profissão.

Isso não significa que teorias de outras áreas (psicologia, sociologia, educação) não possam aparecer. Mas o diálogo com as teorias de enfermagem quando pertinente fortalece a identidade científica do trabalho e é valorizado em bancas e programas de pós-graduação da área.

Pesquise as teorias mais relevantes para o seu tema. Muitos orientadores de enfermagem valorizam isso.

Publicar a pesquisa: por onde começar

Uma pergunta frequente entre estudantes de enfermagem que concluíram um TCC ou uma iniciação científica: é possível publicar o trabalho? A resposta, em muitos casos, é sim — desde que o trabalho tenha rigor metodológico e os resultados tenham relevância para a área.

O processo de publicação em enfermagem geralmente envolve adaptar o trabalho original para o formato de um artigo científico, escolher um periódico adequado ao escopo e nível da pesquisa, e seguir as normas de submissão do periódico.

Para iniciantes, periódicos de enfermagem com Qualis B ou C são ponto de entrada razoável. Com o tempo e refinamento da escrita, o objetivo pode ser periódicos melhor qualificados.

Publicar durante a graduação ou o início do mestrado tem vantagens concretas: pontua no currículo Lattes, contribui para o processo seletivo dos programas de pós-graduação e desenvolve habilidades de escrita científica que só se constroem na prática.

Mesmo que o TCC não seja publicado imediatamente, o exercício de transformá-lo em artigo — identificando o que precisa ser condensado, o que precisa ser explicado com mais clareza, e o que efetivamente contribui para o campo — é um aprendizado que vale em qualquer pesquisa futura.

A pesquisa em enfermagem é um campo amplo, metodologicamente diverso e socialmente relevante. Seja qual for o caminho que você escolha dentro dele — assistência, gestão, educação ou tecnologia do cuidado — a capacidade de investigar com rigor vai ser um diferencial ao longo de toda a carreira.

Perguntas frequentes

Quais são as principais abordagens de pesquisa usadas em enfermagem?
A pesquisa em enfermagem usa tanto abordagens quantitativas (experimentos, ensaios clínicos, surveys) quanto qualitativas (fenomenologia, grounded theory, pesquisa-ação) e mistas. A escolha depende da pergunta de pesquisa. Questões sobre eficácia de intervenções tendem a usar metodologias quantitativas. Questões sobre experiências de pacientes e processos de cuidado costumam ser mais bem respondidas com abordagens qualitativas.
Enfermagem precisa de aprovação do CEP para fazer pesquisa?
Sim, qualquer pesquisa que envolva seres humanos no Brasil precisa de aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), independente da área. Para enfermagem, isso inclui TCCs, dissertações e teses que coletam dados com pacientes, familiares ou profissionais de saúde. A submissão é feita via Plataforma Brasil. O processo pode levar de 30 a 90 dias, então planeje com antecedência.
Quais são os temas de pesquisa mais relevantes em enfermagem atualmente?
Entre os temas de maior relevância em 2026 estão: segurança do paciente e prevenção de eventos adversos, tecnologias e inteligência artificial no cuidado de enfermagem, saúde mental de profissionais de saúde pós-pandemia, cuidado à saúde da mulher e saúde perinatal, gestão em enfermagem e liderança, e cuidados paliativos. Temas com financiamento ativo costumam ter mais oportunidades de bolsas.

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