Pesquisa em saúde: conceitos e abordagens para iniciantes
Entenda o que caracteriza a pesquisa em saúde, suas principais abordagens metodológicas e por que a escolha do método começa pela pergunta que você quer responder.
Pesquisa em saúde: por onde começa
Olha só: se você está em um curso da área da saúde e está chegando no TCC, ou se está ingressando na pós-graduação numa área como enfermagem, medicina, fisioterapia, farmácia ou nutrição, provavelmente já encontrou o termo “pesquisa em saúde” em algum contexto. Mas o que isso significa, na prática, como campo específico?
A pesquisa em saúde é um campo amplo que inclui investigações sobre doenças, tratamentos, diagnósticos, comportamentos relacionados à saúde, sistemas de saúde, políticas públicas, determinantes sociais e muito mais. O que une todas essas investigações é o objeto: a saúde humana, em suas múltiplas dimensões.
Isso também significa que a pesquisa em saúde usa uma variedade grande de metodologias. Não existe “o método” da pesquisa em saúde. Existe o método adequado para a pergunta que você está fazendo.
Os dois grandes grupos: pesquisa quantitativa e qualitativa em saúde
A divisão mais básica na metodologia de pesquisa em saúde segue a distinção entre abordagens quantitativas e qualitativas.
A pesquisa quantitativa trabalha com dados numéricos, mensuração, comparação de grupos, análise estatística. É a abordagem típica de ensaios clínicos, estudos epidemiológicos, pesquisas de prevalência e incidência, avaliações de eficácia de tratamentos. Aqui importam amostras representativas, controle de variáveis, análise estatística rigorosa.
A pesquisa qualitativa trabalha com compreensão, significados, experiências, percepções e contextos. É a abordagem típica de estudos sobre experiência do paciente, percepção de profissionais de saúde sobre determinada prática, análise de políticas, processos organizacionais em serviços de saúde. Aqui importam profundidade, riqueza dos dados, análise interpretativa.
As duas abordagens não são opostas. São complementares. Um problema de pesquisa pode ser investigado das duas formas, com perguntas diferentes, e os resultados podem se iluminar mutuamente. Isso é o que se chama de triangulação metodológica.
Tipos de estudo em pesquisa quantitativa em saúde
Dentro da pesquisa quantitativa em saúde, existem vários tipos de estudo com características e finalidades específicas.
Estudos epidemiológicos descritivos caracterizam a distribuição de doenças ou condições de saúde numa população: quem adoece, onde, quando. Fornecem dados de prevalência e incidência.
Estudos de coorte acompanham grupos de pessoas ao longo do tempo para observar quem desenvolve determinada condição. São prospectivos (para frente) ou retrospectivos (olhando dados do passado). Permitem estabelecer relações temporais entre exposição e desfecho.
Estudos de caso-controle comparam pessoas que já têm a condição (casos) com pessoas que não têm (controles), buscando identificar exposições passadas que diferem entre os grupos. São úteis para doenças raras.
Estudos transversais coletam dados em um único momento, obtendo um “retrato” da situação. São rápidos e menos custosos, mas não permitem estabelecer causalidade.
Ensaios clínicos randomizados são o padrão ouro para testar intervenções. Participantes são aleatoriamente alocados em grupo de intervenção e grupo controle, permitindo comparar efeitos com controle de viés.
A escolha entre esses tipos depende da pergunta de pesquisa, dos recursos disponíveis, do tempo e das questões éticas envolvidas.
Pesquisa qualitativa em saúde: quando faz sentido
A pesquisa qualitativa em saúde é muitas vezes subestimada ou mal compreendida em campos com forte tradição quantitativa. Mas ela responde perguntas que os números não conseguem.
Por que determinados pacientes não aderem ao tratamento? O que significa para uma pessoa viver com uma doença crônica? Como os profissionais de saúde tomam decisões em situações de incerteza clínica? O que dificulta a implementação de um protocolo em uma unidade de saúde?
Essas perguntas pedem compreensão, não mensuração. E para respondê-las, abordagens como fenomenologia, etnografia, teoria fundamentada (grounded theory) e análise de conteúdo oferecem ferramentas adequadas.
Uma revisão sistemática qualitativa, chamada de meta-síntese, pode inclusive sistematizar os achados de múltiplos estudos qualitativos para produzir sínteses sobre experiências e perspectivas em saúde.
O Método V.O.E. trabalha com pesquisadoras da área da saúde justamente esse ponto: a clareza sobre qual pergunta você está fazendo determina qual abordagem você vai usar. Não existe hierarquia de métodos. Existe adequação.
Pesquisa em saúde e o papel da revisão de literatura
Independente da abordagem, toda pesquisa em saúde começa com uma revisão da literatura. E em saúde, existem tipos formalizados de revisão que têm metodologia própria.
A revisão sistemática segue um protocolo rigoroso de busca, seleção e análise de estudos. Tem pergunta estruturada, critérios de inclusão e exclusão, avaliação de qualidade dos estudos incluídos e síntese dos resultados. É a forma mais rigorosa de sintetizar evidências.
A revisão integrativa é mais ampla: pode incluir estudos de diferentes tipos metodológicos sobre o mesmo tema. É menos rígida do que a revisão sistemática, mas ainda exige protocolo e rigor.
A revisão narrativa é mais livre e adequada para contextualizar o campo teórico sem pretensão de esgotar a literatura. É o tipo mais comum em introduções de artigos e em TCC de graduação.
Saber que tipo de revisão está fazendo, e ser honesto sobre isso, é parte do rigor metodológico.
Fontes de dados em pesquisa em saúde
Em pesquisa em saúde, os dados podem vir de fontes muito diferentes dependendo do desenho do estudo.
Dados primários: coletados diretamente pelo pesquisador com os participantes. Entrevistas, questionários, exames, observações. Exigem TCLE e aprovação do CEP.
Dados secundários: já existentes, coletados por outros para outros fins. Prontuários médicos, registros do SUS, dados do IBGE, bancos de dados epidemiológicos. Podem ou não exigir CEP dependendo da identificação e da forma de uso.
Bases públicas: DATASUS, Vigitel, SINASC, SINAN, entre outras. São ferramentas poderosas para pesquisa epidemiológica e em saúde coletiva, e muitas pesquisas de qualidade são feitas exclusivamente com esses dados.
Cada tipo de fonte tem implicações metodológicas, éticas e práticas que precisam estar explícitas no projeto de pesquisa.
O processo de submissão ao CEP
Pesquisas em saúde que envolvem seres humanos precisam ser submetidas ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) antes de começar a coleta de dados. A plataforma Brazil é o sistema nacional onde as submissões são feitas.
O projeto submetido ao CEP inclui: o projeto completo de pesquisa, o TCLE ou outros instrumentos de consentimento, os instrumentos de coleta (roteiro de entrevista, questionário), e documentos institucionais como declaração da instituição proponente.
O prazo de análise pelo CEP varia, mas geralmente leva de 30 a 90 dias. Para pesquisas multicêntricas ou que envolvem populações vulneráveis (crianças, gestantes, pessoas com incapacidade), pode ser necessária aprovação pelo CONEP além do CEP local.
Esse processo não deve ser visto como obstáculo. É parte da pesquisa responsável. Começar a coleta antes da aprovação invalida eticamente a pesquisa e pode inviabilizar a publicação dos resultados.
Publicar pesquisa em saúde
Pesquisas em saúde são publicadas em periódicos científicos especializados. A área da saúde tem periódicos de grande prestígio internacional, como Lancet, NEJM, JAMA, e uma produção nacional crescente em plataformas como Scielo.
Para publicar, é necessário que a pesquisa tenha sido aprovada pelo CEP, que o TCLE tenha sido devidamente coletado, e que o artigo declare esses aspectos na seção de métodos.
Periódicos da área da saúde geralmente seguem diretrizes de relato padronizadas: CONSORT para ensaios clínicos, STROBE para estudos observacionais, PRISMA para revisões sistemáticas, COREQ para pesquisas qualitativas. Verificar qual diretriz se aplica ao seu tipo de estudo antes de escrever o artigo poupa tempo e melhora a qualidade do texto.
Pesquisa em saúde como prática e como formação
Uma coisa que fica clara ao longo da formação em áreas da saúde: pesquisar e assistir são práticas diferentes, mas precisam se alimentar mutuamente.
O profissional de saúde que nunca questiona sua prática à luz de evidências está trabalhando com o que aprendeu na graduação indefinidamente. O pesquisador de saúde que não entende a prática clínica produz pesquisa que não dialoga com as questões reais do campo.
A formação em pesquisa em saúde, seja no TCC de graduação ou na pós-graduação, é o momento de desenvolver o hábito de questionar: por que fazemos isso desta forma? O que a evidência diz? O que ainda não sabemos?
Esse hábito não se abandona depois da defesa. Ele muda a forma de trabalhar.
Perguntas frequentes
Pesquisa em saúde precisa sempre de aprovação do comitê de ética?
Qual a diferença entre pesquisa clínica e pesquisa em saúde coletiva?
Posso fazer pesquisa em saúde no TCC de graduação em área da saúde?
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