Pesquisa Explicativa: Conceito, Diferenças e Exemplos
Entenda o que é pesquisa explicativa, como ela se diferencia de outros tipos de pesquisa e veja exemplos práticos para aplicar na sua dissertação ou tese.
Pesquisa explicativa não é só “fui mais fundo”
Pesquisa explicativa é o tipo de pesquisa que investiga as causas de um fenômeno, ou seja, que tenta responder por que algo acontece, não apenas o quê ou como. É o nível mais aprofundado dentro da classificação por objetivos, e vem depois das pesquisas exploratória e descritiva na maioria dos textos de metodologia.
Mas tem um problema com a forma como esse conceito circula no meio acadêmico: muita pesquisadora acha que “pesquisa explicativa” é sinônimo de “pesquisa aprofundada” ou “pesquisa com muita revisão de literatura”. Não é.
A distinção é específica e importa na hora de defender sua metodologia para a banca.
O que define uma pesquisa como explicativa
Pesquisa explicativa é aquela que estabelece relações de causalidade, ou que investiga os mecanismos que explicam por que um fenômeno ocorre.
O critério central não é o quanto você escreveu, nem o quanto você leu. É se o seu problema de pesquisa está formulado em torno de causas e determinantes.
Compare:
- “Quais são as características dos programas de pós-graduação com altas taxas de evasão?” Pesquisa descritiva.
- “O que explica as altas taxas de evasão nos programas de pós-graduação stricto sensu no Brasil?” Pesquisa explicativa.
A diferença está na pergunta. A primeira mapeia. A segunda quer entender o porquê.
Quando uma pesquisa precisa ser explicativa
Nem toda pesquisa precisa chegar ao nível explicativo, e é importante entender isso antes de definir sua classificação.
A pesquisa exploratória faz sentido quando você está mapeando um território pouco estudado, quando a literatura ainda não tem consenso sobre os conceitos básicos, ou quando você está construindo categorias para uma pesquisa maior. A pesquisa descritiva faz sentido quando você quer caracterizar uma população, um fenômeno ou uma situação sem se preocupar com causas.
A pesquisa explicativa entra quando o seu problema de pesquisa exige que você vá além da descrição, quando a pergunta tem um “por quê” ou um “quais fatores influenciam” que você precisa responder com evidências.
Escolher “pesquisa explicativa” na metodologia sem que o problema de pesquisa exija esse nível é um erro que a banca vai perceber. O delineamento precisa ser coerente com o objetivo declarado.
Exemplos práticos por área
A pesquisa explicativa aparece em contextos bem diferentes dependendo da área. Alguns exemplos concretos ajudam a tornar o conceito menos abstrato.
Em educação: uma pesquisa que investiga quais fatores do ambiente de orientação explicam a produção científica de doutorandos. O pesquisador não está descrevendo a produção, está buscando o que a determina.
Em saúde pública: um estudo que analisa os determinantes socioeconômicos da adesão ao tratamento em pacientes crônicos. A pergunta é causal: o que faz alguns pacientes aderirem e outros não?
Em psicologia organizacional: uma investigação sobre como características do estilo de liderança influenciam o engajamento das equipes. Não é só descrição do engajamento, é explicação do que o gera.
Em todos esses exemplos, a pesquisa precisa de um delineamento que permita identificar relações entre variáveis ou entre fatores e fenômenos. Pode ser experimental, quasi-experimental, correlacional ou, no caso qualitativo, um estudo de caso explicativo.
Pesquisa explicativa e o estudo de caso qualitativo
Aqui fica a dúvida mais comum: posso ter pesquisa explicativa com abordagem qualitativa?
Sim. O estudo de caso é o exemplo mais claro. Quando você usa um estudo de caso para explicar como e por que determinado fenômeno ocorreu naquele contexto específico, você está fazendo pesquisa explicativa de base qualitativa.
Robert Yin, um dos principais autores sobre metodologia de estudo de caso, distingue explicitamente os estudos de caso explicativos dos descritivos e exploratórios. O tipo explicativo busca traçar ligações causais ao longo do tempo, entender mecanismos, identificar o que levou ao que.
A confusão surge porque associamos “causalidade” a números e experimentos. Mas você pode construir um argumento causal com dados qualitativos, desde que o delineamento e a análise estejam alinhados com esse objetivo.
Como declarar isso na metodologia
Na seção de metodologia da dissertação ou tese, quando você classifica sua pesquisa como explicativa, a banca vai esperar que o seu problema de pesquisa, sua pergunta e seus objetivos estejam todos apontando para causas ou determinantes.
Uma classificação coerente soa assim:
“Quanto aos objetivos, a pesquisa é de natureza explicativa, pois busca identificar os fatores que influenciam [X]. Para isso, utilizou-se um delineamento [tipo de delineamento], com coleta de dados por [instrumentos].”
Uma classificação incoerente soa assim:
“A pesquisa é explicativa porque aprofundou a análise sobre o tema.”
Aprofundar não é explicar. A banca sabe disso, e essa distinção vai aparecer na qualificação cedo ou tarde.
Erros que aparecem nas bancas de qualificação
A banca de qualificação é o momento em que a coerência metodológica é testada de verdade. Alguns padrões de erro aparecem com frequência quando a pesquisa é classificada como explicativa sem que o delineamento sustente essa classificação.
O mais comum é o objetivo geral formulado como causal, mas os objetivos específicos todos descritivos. Exemplo: o objetivo geral é “explicar os fatores que influenciam X”, mas os objetivos específicos são “identificar o perfil de Y”, “descrever as características de Z”, “mapear a distribuição de W”. Nenhum dos objetivos específicos tem caráter explicativo. A banca vai perguntar como você chegou à explicação com objetivos que só descrevem.
Outro padrão é usar instrumentos de coleta puramente descritivos mas classificar a análise como explicativa. Você entrevistou as participantes sobre suas percepções e depois diz que explicou as causas de um fenômeno. Percepção das participantes sobre causas não é o mesmo que análise causal dos determinantes do fenômeno.
Isso não significa que você não pode usar entrevistas em pesquisa explicativa. Você pode. Mas o roteiro, a análise e o argumento precisam estar alinhados com o objetivo de entender mecanismos causais, não só de descrever o que as pessoas acham que aconteceu.
Como apresentar pesquisa explicativa na revisão de literatura
A revisão de literatura de uma pesquisa explicativa tem uma função específica que vai além de “mostrar o que já foi estudado”. Ela precisa construir o argumento de que existe, de fato, uma relação a ser explicada e que o estudo que você está fazendo contribui para entendê-la melhor.
Isso significa que a revisão precisa apresentar as teorias ou modelos explicativos existentes sobre o fenômeno. O que já se sabe sobre os fatores que influenciam X? Quais hipóteses já foram testadas? O que ainda está em aberto?
Quando a revisão cumpre esse papel, ela deixa de ser uma lista do que outros estudaram para se tornar a base teórica do argumento que você vai desenvolver. A banca entende muito melhor o que você está fazendo quando a revisão já foi escrita com essa intenção.
Uma revisão de literatura descritiva numa pesquisa explicativa é aquela que mapeia os estudos sobre o tema sem conectá-los à questão causal que você está investigando. Funciona para pesquisa descritiva. Para pesquisa explicativa, falta a cola teórica.
Se você está reescrevendo a revisão de literatura da sua dissertação e percebe que ela não responde à pergunta “o que a literatura diz sobre os fatores que explicam X?”, é possível que esteja fazendo pesquisa explicativa com revisão de literatura descritiva. Isso aparece na qualificação.
O Método V.O.E. e a escolha metodológica
A fase de Organização do Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) cobre exatamente esse tipo de decisão: antes de escrever, você precisa ter clareza sobre qual caminho metodológico está tomando e por quê.
Muitas pesquisadoras chegam para escrever a seção de metodologia sem ter essa clareza, e aí copiam classificações de outros trabalhos sem verificar se fazem sentido para o delas. O resultado é uma metodologia de fachada que não aguenta questionamento da banca.
Se você ainda não tem clareza sobre a classificação da sua pesquisa, o momento de resolver isso é antes de escrever o capítulo, não durante.
A armadilha de usar o termo como status
Tem um comportamento que se repete com frequência, e eu preciso nomear: pesquisadoras escolhem “explicativa” porque soa mais sofisticado do que “descritiva”.
A lógica implícita é de que pesquisa descritiva parece superficial e pesquisa explicativa parece mais séria. Então se vai colocar “explicativa” no papel sem que o problema de pesquisa justifique isso.
O problema aparece na banca. “Sua pesquisa se propôs a explicar causas. Quais foram os mecanismos causais que você identificou?” Se a resposta for uma lista de características que você descreveu, você vai ter que explicar a incongruência.
Pesquisa descritiva bem conduzida é rigorosa e publicável. Não é um estágio inferior. É um tipo diferente de contribuição.
A escolha do tipo de pesquisa deve partir do problema, não do que parece mais impressionante no texto.
Antes de classificar sua pesquisa
Pergunte a si mesma: meu problema de pesquisa tem um “por quê” que eu preciso responder com evidências? Meu objetivo é identificar causas, determinantes ou mecanismos?
Se sim, pesquisa explicativa faz sentido. Se o que você está fazendo é caracterizar um fenômeno ou construir categorias para entendê-lo melhor, pode ser que descritiva ou exploratória seja a classificação mais honesta.
Não existe hierarquia de valor entre os tipos. Pesquisa exploratória bem feita é mais sólida do que pesquisa explicativa mal declarada. Faz sentido?
Esse é o ponto.
Perguntas frequentes
O que é pesquisa explicativa?
Qual a diferença entre pesquisa explicativa e pesquisa descritiva?
Pesquisa explicativa pode ser qualitativa?
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