Posicionamento

Pesquisa no Norte do Brasil: O que o Sudeste Ignora

A ciência produzida na Amazônia e no Norte do Brasil tem especificidade única e relevância global, mas segue invisível para os centros de poder acadêmico.

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O mapa da ciência brasileira tem um buraco no Norte

Vamos lá. Se você olhar para onde estão concentradas as universidades com maior produção científica no Brasil, onde estão os grupos de pesquisa mais consolidados, onde está a maior parte das bolsas de produtividade do CNPq, vai encontrar uma concentração muito clara no eixo São Paulo-Rio de Janeiro, com expansão para alguns estados do Sul.

O Norte do Brasil, que inclui a maior floresta tropical do mundo, povos com conhecimentos acumulados por séculos, desafios sanitários que não existem em nenhuma outra parte do país, e ecossistemas que toda a humanidade tem interesse em entender, aparece de forma marginal nesse mapa.

Não é coincidência. É estrutura. E vale a pena falar sobre isso sem eufemismos.

O que a pesquisa nortista está produzindo que o resto do país mal enxerga

Existe conhecimento sendo gerado no Norte que deveria interessar muito mais do que interessa ao campo científico nacional.

A pesquisa em saúde tropical na Amazônia, por exemplo, é de relevância global. Doenças como malária, leishmaniose, doença de Chagas, arboviroses, têm dinâmicas muito particulares no contexto amazônico, com vetores específicos, padrões de transmissão ligados ao desmatamento e às migrações, e populações que vivem em contextos de acesso extremamente limitado a serviços de saúde.

Pesquisadoras do Instituto Evandro Chagas, do Museu Paraense Emílio Goeldi e dos programas de pós-graduação da UFPA têm produção reconhecida internacionalmente sobre esses temas. Mas dentro do Brasil, essa produção raramente aparece como referência nos debates sobre ciência e saúde que acontecem nos grandes congressos nacionais.

A pesquisa em etnoconhecimento e saberes tradicionais é outro campo onde o Norte tem protagonismo incontestável. Conhecimentos de povos indígenas sobre plantas medicinais, ecossistemas, práticas de uso da terra, esses saberes estão sendo documentados e estudados por pesquisadoras que muitas vezes têm vínculos com as próprias comunidades. Isso não aparece quase nunca nos rankings de produtividade que a CAPES usa para avaliar programas.

E tem a pesquisa socioambiental, que olha para as tensões entre desenvolvimento, preservação, direitos territoriais e mudança climática a partir de dentro, com a complexidade que só quem está lá consegue ter.

O problema dos critérios de avaliação que replicam o centro

Parte do invisibilidade da pesquisa nortista não é acidente, é consequência direta de como o sistema de avaliação acadêmica foi construído.

Os critérios da CAPES para avaliar programas de pós-graduação valorizam métricas como publicação em periódicos Qualis A, internacionalização e impacto medido por citações em bases internacionais como Web of Science e Scopus.

Esses critérios foram desenhados a partir de um modelo de produção científica que replica a lógica das universidades europeias e norte-americanas. Não é coincidência que pesquisa em áreas como ciências da Amazônia, línguas indígenas, sistemas alimentares tradicionais, ou governança territorial de povos originários apareça sempre com desvantagem nessa régua.

Não é que essa pesquisa seja menos rigorosa. É que os critérios usados para medir excelência foram pensados para outro tipo de ciência, produzida em outro contexto, para outro público.

Isso tem consequências diretas. Programas do Norte encontram mais dificuldade de atingir notas altas na avaliação quadrienal, o que reduz o número de vagas, as bolsas disponíveis e o prestígio que atrai estudantes e docentes de fora. É um ciclo que se auto-alimenta.

A questão das bolsas e do financiamento

Outra dimensão da desigualdade é o acesso a financiamento.

As agências nacionais de fomento, CNPq, CAPES, FINEP, distribuem recursos de forma desigual pelo território. Os editais muitas vezes têm exigências de contrapartida institucional que favorecam instituições já consolidadas. As redes de pesquisadores que decidem o que vai ser financiado se formaram historicamente nos grandes centros.

Para uma pesquisadora baseada em Belém, Manaus ou Macapá, competir num edital nacional em igualdade de condições com um grupo de pesquisa da USP ou da UNICAMP é uma ficção. Os grupos do Sudeste têm mais recursos acumulados, mais estudantes, mais infraestrutura, mais conexões internacionais.

Isso não é acusação a ninguém. É descrição de uma estrutura que foi se formando ao longo de décadas e que não vai mudar sem que seja intencionalmente questionada.

O que muda quando a pesquisa é feita de dentro

Tem uma diferença que vale nomear entre pesquisa feita sobre a Amazônia e pesquisa feita na Amazônia, por quem está lá.

Quando pesquisadoras de São Paulo ou Paris estudam a floresta Amazônica, elas chegam com agendas formadas em outros contextos. As perguntas que fazem, as categorias que usam, os resultados que consideram interessantes, tudo isso foi construído a partir de um olhar externo.

Pesquisadoras que moram e trabalham na região trazem perguntas diferentes. Perguntas sobre o que importa para as comunidades que estão lá. Sobre como o desmatamento afeta a saúde das populações locais, não apenas os indicadores globais de biodiversidade. Sobre como um novo porto ou uma hidroelétrica muda a vida de quem depende do rio.

Isso não quer dizer que pesquisa externa seja ruim. Quer dizer que ela é incompleta se não dialoga com a pesquisa feita por dentro.

E quando o sistema acadêmico concentra recursos e prestígio no Sudeste, ele está empobrece o campo científico como um todo, não apenas as regiões sub-representadas.

Por que isso deveria importar para qualquer pesquisadora no Brasil

Você pode estar lendo isso no Paraná, em Minas Gerais, em São Paulo e achando que isso não é o seu problema.

Mas tem uma dimensão aqui que é de todos.

O modelo de ciência que temos no Brasil replica desigualdades históricas. Concentra recursos onde já há recursos. Valida perspectivas que já são validadas. Invisibiliza o que não se encaixa nos padrões importados.

Isso empobrece o conhecimento produzido. Uma ciência nacional que não inclui ativamente as especificidades do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste, é uma ciência incompleta sobre o próprio país.

E tem uma dimensão global nisso. O Brasil tem responsabilidade sobre ecossistemas, povos e saberes que existem só aqui. Se a nossa ciência não está à altura de estudar, preservar e valorizar isso, quem vai fazer?

O que pode mudar

Não tenho receita mágica. Mas algumas coisas são identificáveis.

Uma reavaliação dos critérios de excelência da CAPES que leve em conta a especificidade regional, o impacto local e a relevância social da pesquisa, não apenas citações em bases internacionais.

Editais específicos para regiões sub-representadas, com contrapartidas adequadas à realidade de instituições menores.

Políticas de internacionalização que não sejam apenas “vá para fora”, mas que incluam trazer pesquisadoras internacionais para as regiões que precisam de maior reconhecimento.

E, talvez o mais difícil, uma mudança cultural dentro da academia que pare de tratar o conhecimento produzido no Norte como folclore regional e comece a tratá-lo como ciência de ponta sobre problemas de relevância global.

Isso é posicionamento. E é necessário.

Perguntas frequentes

Por que a pesquisa científica no Norte do Brasil é menos reconhecida?
Uma combinação de fatores estruturais: concentração histórica de recursos, bolsas e publicações no eixo Sudeste-Sul; critérios de avaliação de excelência que replicam modelos europeus e norte-americanos sem considerar especificidades regionais; menor quantidade de programas de pós-graduação bem avaliados na região; e uma narrativa cultural que associa produção de conhecimento com os grandes centros urbanos do país.
Quais são as universidades federais mais importantes para a pesquisa no Norte do Brasil?
A Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a Universidade Federal do Tocantins (UFT) e a Universidade Federal de Roraima (UFRR) são as principais instituições federais da região. A UFPA é a maior e tem os programas de pós-graduação mais consolidados, especialmente nas áreas de ciências da natureza, saúde tropical e ciências sociais aplicadas ao contexto amazônico.
Pesquisas sobre a Amazônia precisam ser feitas por pesquisadores de lá?
Não necessariamente, mas há uma diferença importante entre pesquisa feita com a Amazônia e pesquisa feita sobre ela de fora. Pesquisadoras que vivem e trabalham na região trazem perspectivas e questões que raramente aparecem em agendas de pesquisa elaboradas nos grandes centros. A ciência feita de dentro tende a fazer as perguntas que importam para quem está lá, e não apenas as que interessam ao mercado internacional de publicações.
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