Pesquisador Sem Vínculo: O Cientista Fantasma
Existe um grupo de pesquisadores que a academia produz mas não absorve. Eles pesquisam, publicam e orientam sem vínculo formal. Isso tem nome e tem consequências.
O pesquisador que o sistema formou e não absorveu
Olha só. Existe uma figura que a academia brasileira produz sistematicamente mas não reconhece como problema: o pesquisador sem vínculo.
Não é uma figura marginal. Quem circula em congressos, grupos de pesquisa e redes acadêmicas conhece essas pessoas. O doutor que terminou o pós-doc e está há dois anos tentando entrar em concurso. A pesquisadora que orienta TCCs como colaboradora voluntária em uma instituição particular, sem contrato, sem salário, “construindo currículo”. O cientista que publica artigos com afiliação de uma universidade onde já não tem vínculo, porque a instituição nunca atualizou o sistema.
Pesquisadores sem vínculo. Cientistas fantasmas.
O que cria essa figura
O sistema de pós-graduação brasileiro formou cada vez mais doutores ao longo dos últimos trinta anos. As agências de fomento (CAPES, CNPq, FAPs estaduais) financiaram esse crescimento como política de desenvolvimento científico.
O problema é que o crescimento da oferta de doutores não foi acompanhado por expansão equivalente na absorção. Universidades públicas abriram poucos concursos. O setor privado de ensino superior não valoriza pesquisa na proporção necessária. O mercado não-acadêmico para doutores, embora exista e esteja crescendo, não absorve todos os pesquisadores formados para a pesquisa científica.
O resultado é uma geração de pesquisadores altamente qualificados, que fizeram formação longa e custosa (para eles e para o Estado), sem lugar formal no sistema que os formou.
O que “sem vínculo” significa na prática
A ausência de vínculo institucional não é só simbólica. Ela tem consequências concretas que afetam a capacidade do pesquisador de continuar pesquisando.
Sem vínculo, o pesquisador não pode coordenar a maioria dos projetos financiados por agências públicas. O CNPq exige vínculo institucional para que um pesquisador seja coordenador principal de projeto. Quem não tem esse vínculo fica excluído do principal mecanismo de financiamento da ciência brasileira.
Sem vínculo, o pesquisador não tem acesso institucional a bases de dados e periódicos científicos. A assinatura do Portal de Periódicos da CAPES, que dá acesso gratuito a milhares de revistas científicas, está vinculada à filiação institucional. Quem está de fora paga por acesso ou navega pelo que está disponível em acesso aberto.
Sem vínculo, o pesquisador não tem espaço físico, infraestrutura de laboratório, suporte administrativo. Pesquisar em casa, sem equipamentos e sem equipe, é possível para algumas áreas e para alguns projetos. Para outros, é inviável.
E sem vínculo, o pesquisador não tem os direitos trabalhistas que qualquer trabalhador tem: férias, INSS, fundo de garantia, licença saúde. A pesquisa é feita como voluntariado, como favor, como sacrifício por amor ao conhecimento.
O pós-doutorado como antecâmara do limbo
Uma figura especialmente problemática nesse contexto é o pós-doutorado. Formalmente, o pós-doc é uma etapa de formação avançada para pesquisadores que já concluíram o doutorado e querem desenvolver uma linha de pesquisa independente antes de ingressar em posições permanentes.
Na prática, no Brasil, virou uma categoria de espera. Pesquisadores que não conseguem posição permanente fazem um pós-doc, depois outro, depois às vezes um terceiro. Em cada um, recebem bolsa (sem vínculo empregatício, sem INSS, sem direitos trabalhistas), produzem ciência, orientam estudantes, participam de projetos, colaboram com a instituição. E ao final, voltam à estaca zero do ponto de vista de carreira.
Esse ciclo não é acidente. É uma forma de manter pesquisadores qualificados produzindo ciência a custo reduzido para o sistema, sem os custos de um contrato de trabalho permanente.
A produção científica sem remuneração
Tem algo que poucos dizem abertamente: uma parte significativa da produção científica brasileira é feita por pessoas que não são pagas para fazer pesquisa no momento em que a fazem.
O professor substituto que mantém a produção em paralelo ao trabalho temporário. A doutora que trabalha como consultora durante o dia e pesquisa à noite. O pesquisador autônomo que mantém uma linha de pesquisa à custa de horas que outros ocupam com lazer ou descanso.
Esse trabalho não aparece nas estatísticas de força de trabalho científico. Não é contabilizado como exploração, porque quem o faz frequentemente escolhe não reconhecê-lo como exploração: prefere chamá-lo de “paixão pela ciência” ou “investimento na carreira”.
Mas há algo problemático em um sistema que depende do entusiasmo individual e da disposição de trabalhar de graça para funcionar.
O que eu penso sobre isso
Tenho uma posição definida aqui.
Não é aceitável que o sistema forme pesquisadores por cinco, seis, oito anos de doutorado e pós-doutorado, usando recursos públicos, para depois não ter onde colocá-los. Isso é desperdício de investimento público e é, sobretudo, desperdício de vidas.
Pesquisadores que passaram anos desenvolvendo competência científica raramente têm outras opções de carreira tão estruturadas. Muitos entraram na pós-graduação com a perspectiva de permanecer na academia. Quando isso não se concretiza, o custo não é só financeiro. É identitário, relacional e de saúde mental.
O sistema precisa ser honesto sobre isso. E precisa criar mecanismos que reconheçam e remunerem adequadamente quem contribui para a produção de ciência, mesmo sem o título de professor efetivo.
Isso pode incluir: criação de carreiras de pesquisador nas universidades, separadas da carreira docente; modelos de financiamento que permitam vínculo de pesquisadores independentes a projetos de pesquisa com direitos trabalhistas; editais de agências de fomento acessíveis a pesquisadores sem vínculo institucional permanente.
Não são propostas novas. São reivindicações que pesquisadores e entidades representativas fazem há anos. O que falta é vontade política para encaminhar soluções estruturais.
Para quem está nessa situação agora
Se você está nessa situação, seja como pós-doutorando sem perspectiva clara, doutor em busca de posição ou pesquisador colaborador sem contrato, é importante nomear o que está vivendo.
Isso não é fracasso pessoal. É uma consequência de um sistema com problemas estruturais sérios. Você pode ter feito tudo certo, produzido bem, colaborado, publicado, e ainda estar sem vínculo. Porque o problema não está em você.
Manter isso claro na cabeça não resolve o problema material. Mas ajuda a não internalizar uma culpa que não é sua, e a ter energia para continuar buscando alternativas sem se destruir no processo.
E sim, alternativas existem: carreira fora da academia, posições em setor privado que valorizam pesquisa, consultoria, empreendimentos de ciência aplicada. Nenhuma delas é traição ao que você estudou. São caminhos reais que outros pesquisadores percorreram.
A invisibilidade nos dados
Há algo revelador na dificuldade de encontrar dados precisos sobre pesquisadores sem vínculo no Brasil. O sistema científico não os monitora porque, do ponto de vista formal, eles não existem como categoria.
As estatísticas de recursos humanos em ciência e tecnologia contam pesquisadores vinculados a instituições. Quem está fora não é contado como pesquisador, mesmo que continue produzindo ciência. Essa invisibilidade nos dados reproduz a invisibilidade política: o que não é contado não é reconhecido, e o que não é reconhecido não integra a agenda de políticas públicas.
Mudar essa situação começa por nomear e contar. Grupos de pesquisa sobre trabalho acadêmico e entidades de representação de pesquisadores têm feito esse esforço de mapeamento. Mas é um esforço fragmentado, sem financiamento institucional, conduzido muitas vezes por pesquisadores que estão eles mesmos na condição que estudam.
A afiliação que ninguém questiona
Existe uma prática comum que poucas pessoas discutem abertamente: usar afiliação institucional em publicações mesmo depois de encerrado o vínculo formal.
Um pesquisador completa o doutorado em janeiro, defende em junho, e submete um artigo em agosto usando a afiliação da instituição. Essa afiliação pode estar desatualizada. A instituição pode não saber ou pode não fazer nada sobre isso. E o artigo é publicado com a afiliação que não corresponde mais à realidade.
Isso acontece por múltiplas razões: o pesquisador ainda se identifica com aquele grupo de pesquisa, a afiliação aumenta as chances de aceitação do artigo, não há nenhum sistema que impeça. Não é necessariamente desonestidade intencional. É uma resposta adaptativa a um sistema que exige afiliação para existir.
Mas é um sinal de como o sistema está estruturado. Quando pesquisadores precisam usar afiliações desatualizadas para ter trabalho aceito, algo está errado no design.
Confira outros posts sobre posicionamento na carreira acadêmica aqui no blog e conheça a página sobre para entender a perspectiva que orienta este espaço.