Posicionamento

Pesquisador Voluntário: Trabalhar de Graça é Normal?

A figura do pesquisador voluntário na universidade brasileira: quando trabalho acadêmico sem remuneração virou norma e o que isso diz sobre como valorizamos ciência.

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O trabalho que existe mas não é contado

Vamos lá. Tem uma categoria de trabalhador acadêmico que as universidades precisam mas não querem nomear como trabalhador: o pesquisador voluntário.

Ele está lá. Frequenta o laboratório. Orienta alunos. Produz artigos que saem com o endereço institucional. Participa de projetos financiados. Aparece nos relatórios que sustentam a nota da CAPES.

E não recebe nada.

Isso não é situação excepcional. É uma estrutura que sustenta parte significativa da produção científica brasileira, especialmente em programas que não têm vagas docentes para absorver quem se formou nos próprios cursos de doutorado e pós-doutorado.

Minha posição é clara: normalizar o trabalho acadêmico não remunerado é um problema estrutural que precisamos nomear, não romantizar.

Como essa figura se formou

A trajetória para chegar ao voluntariado acadêmico segue um caminho mais ou menos previsível.

Você entra no mestrado. Termina o mestrado. O doutorado era o próximo passo natural, então você entra. Termina o doutorado. Faz pós-doutorado porque o currículo precisa de mais um nível antes de ter chance real numa seleção para professor efetivo. O pós-doutorado acaba e não tem vaga no edital. Há um próximo pós-doc disponível, mas o edital é no exterior e a vida pessoal não permite. Então você fica.

Para manter o acesso à biblioteca, às bases de dados, ao laboratório, ao grupo de pesquisa, ao e-mail institucional, à possibilidade de orientar alunos e publicar com afiliação, você formaliza o vínculo como voluntário.

Não como estratégia escolhida. Como a única opção disponível que permite continuar.

Isso é diferente de ser voluntário num projeto social porque você acredita na causa. É trabalho especializado, treinado durante anos, executado num ambiente que se beneficia economicamente desse trabalho, sem compensação.

O que a universidade ganha com isso

Preciso ser direta sobre o que está acontecendo.

A universidade pública brasileira, pressionada por contingenciamentos orçamentários, congelamento de cargos e corte de vagas para concursos, encontrou numa mão de obra altamente qualificada e sem poder de barganha uma forma de manter sua produção científica.

Os números de publicações sobem. As notas da CAPES se sustentam. Os projetos continuam. A instituição aparece nos rankings.

O pesquisador voluntário não aparece na folha de pagamento. Não conta para os custos. Mas conta para o output.

Essa é a economia política do voluntariado acadêmico. E ela é conveniente para quem não precisa pagar.

Não estou dizendo que os gestores sentam numa sala e planejam isso de forma maquiavélica. Estou dizendo que o sistema foi construído de um jeito que torna possível e legal extrair trabalho acadêmico sem remuneração, e que isso se normalizou a ponto de parecer natural.

Não é natural. É uma escolha estrutural.

A pressão que mantém o voluntariado

Por que pesquisadores altamente qualificados continuam nessa situação?

Parte da resposta é o mercado. O Brasil forma muito mais doutores do que tem vagas para professor efetivo. A proporção não fecha. Quem ficou fora do concurso recente, ou não conseguiu aprovação no programa de pós-doc que pagaria bolsa, enfrenta uma escolha binária: voluntariado ou saída do sistema acadêmico.

Sair do sistema acadêmico, para muita gente, significa anos de formação que ficam sem aplicação profissional direta. Significa redes de colaboração que se desfazem. Significa publicações que param porque sem afiliação institucional o acesso às ferramentas some.

Então a pessoa fica. Continua produzindo. Continua aparecendo nas estatísticas de produtividade do programa. E vai para casa sem receber.

A outra parte da resposta é cultural. O ambiente acadêmico tem uma relação particular com a ideia de vocação. “Você faz ciência porque ama, não por dinheiro.” Essa narrativa, que tem alguma verdade, é também instrumentalizada para tornar aceitável o que não seria aceitável em qualquer outra profissão.

Um advogado voluntário trabalhando para um escritório grande seria escândalo. Um pesquisador voluntário num programa de pós-graduação conceituado é quase um elogio.

O argumento do networking e do currículo

A justificativa mais comum para aceitar o voluntariado acadêmico é que ele constrói currículo e mantém as redes de contato.

Faz sentido como estratégia de curto prazo. Se você tem uma chance real num concurso no próximo ciclo, manter o vínculo e continuar publicando durante esse período pode fazer diferença.

Mas quando o voluntariado se estende por dois, três, quatro anos sem perspectiva clara de mudança, a lógica se inverte. Você não está construindo currículo para um cargo que virá. Você está financiando sua própria exclusão: pagando, com trabalho não remunerado, o custo de continuar num sistema que não encontrou espaço para te contratar.

Isso não é construção de carreira. É adiar a necessidade de enfrentar que o sistema não tem vagas para você.

O que muda quando chamamos pelo nome

Tem um poder específico em nomear as coisas pelo que são.

Quando chamamos de “experiência de formação complementar” o que é trabalho não remunerado, estamos protegendo a narrativa de quem se beneficia da situação. Quando chamamos de voluntariado o que é, na prática, exploração de trabalho qualificado, estamos dando ao problema um nome que permite discuti-lo.

Isso não resolve a questão estrutural de falta de vagas. Mas muda a conversa.

Muda quem se sente responsável pela situação. Deixa de ser “a pessoa que não conseguiu emprego” e passa a ser “o sistema que extrai trabalho sem compensação.” Esses são problemas diferentes com soluções diferentes.

O primeiro é resolvido com o pesquisador trabalhando mais, publicando mais, melhorando o currículo. O segundo é resolvido com políticas públicas, financiamento, criação de vagas e regulamentação do trabalho acadêmico precário.

Uma conversa que a academia evita

A academia brasileira tem dificuldade com essa conversa porque ela implica reconhecer que a produção científica do país é parcialmente sustentada por trabalho não pago.

Isso contradiz a narrativa de que a universidade pública valoriza seus pesquisadores. Contradiz os discursos de gestores universitários em formaturas e eventos institucionais sobre o compromisso com a excelência acadêmica.

Não contradiz os números, porém. Você consegue rastrear, em qualquer programa de pós-graduação grande, o número de pesquisadores com vínculo sem bolsa ou sem cargo efetivo que aparecem na produção do programa. Eles estão nas publicações, nos projetos, nos relatórios.

Estão ausentes apenas nos contratos de trabalho.

Minha posição

Pesquisador voluntário que continua produzindo sem remuneração por falta de alternativa não é um problema de gestão de carreira individual. É um sintoma de um sistema acadêmico que cresceu em tamanho sem crescer em capacidade de absorver o que produziu.

Isso precisa ser dito com clareza porque a alternativa é continuar tratando o voluntariado como escolha de vida ou como fase temporária que vai se resolver com mais publicações.

Não vai. Vai se resolver com mudança estrutural no financiamento e nas políticas de criação de vagas para pesquisadores no Brasil.

Até lá, o mínimo que podemos fazer é parar de tornar a precariedade invisível ao chamá-la por outros nomes.

Se você quiser ler mais sobre como o sistema acadêmico trata o trabalho de pesquisadores, o post sobre pós-doutorado e o limbo da carreira acadêmica aborda uma fase adjacente com problemas parecidos.

O custo individual de uma questão coletiva

Antes de fechar, um ponto que não quero deixar de nomear.

A pessoa que está no voluntariado e está lendo isso provavelmente está carregando um peso duplo. Há o trabalho em si, que é real e exigente. E há o peso de se sentir responsável por uma situação que tem raízes estruturais fora do seu controle.

“Se eu publicasse mais, talvez tivesse conseguido o cargo.” “Se eu tivesse escolhido outra área, a demanda seria diferente.” “Se eu tivesse sido mais estratégico no pós-doc…”

Essas narrativas são compreensíveis. E em alguns casos, escolhas individuais têm peso no resultado. Mas o mercado acadêmico brasileiro não tem vagas suficientes para todos os pesquisadores qualificados que formou. Isso não é problema de currículo individual. É uma equação que não fecha independentemente da excelência de cada pessoa.

Reconhecer isso não é desistir. É redistribuir a culpa de onde ela não pertence.

E às vezes, redistribuir a culpa é o primeiro passo para conseguir tomar uma decisão mais lúcida sobre o próximo passo da carreira: insistir no sistema, explorar alternativas paralelas, ou construir algo novo fora dos muros da universidade.

Perguntas frequentes

O que é pesquisador voluntário nas universidades brasileiras?
Pesquisador voluntário é quem exerce atividades de pesquisa, orientação ou docência em universidades públicas sem vínculo empregatício e sem remuneração. A figura existe formalmente em diversas instituições, especialmente como fase de transição após o pós-doutorado ou para profissionais que querem manter vínculo institucional sem cargo efetivo.
É legal trabalhar como pesquisador voluntário sem receber nada?
Existe regulamentação específica para voluntariado em instituições públicas no Brasil (Lei 9.608/1998 e legislações complementares). O vínculo voluntário não gera direitos trabalhistas, mas a instituição deve formalizar o acordo. O problema não é necessariamente ilegalidade, mas a normalização de que produzir ciência não merece remuneração.
Por que tanta gente aceita ser pesquisador voluntário?
Porque o mercado acadêmico é pequeno demais para a quantidade de pessoas qualificadas. Manter o vínculo institucional, continuar publicando, preservar o acesso a bases de dados e orientar alunos exige estar na instituição. Sem um cargo efetivo e sem bolsa, o voluntariado vira a única opção para quem não quer sair do sistema.
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