Por que pesquisadores de países emergentes publicam menos
A desigualdade na publicação científica não é sobre competência. É sobre acesso, recursos e um sistema que favorece quem já está dentro.
O número que ninguém explica direito
Olha só: quando você olha para os rankings de produção científica mundial, os mesmos países aparecem no topo. Estados Unidos, China, Reino Unido, Alemanha, Japão. O Brasil aparece, mas não onde muitos gostariam.
Esse dado é apresentado frequentemente como se fosse autoexplicativo. “Países emergentes publicam menos.” Ponto final. Como se isso fosse uma questão de competência ou dedicação dos pesquisadores.
Não é.
A diferença na produção científica entre países não é sobre talento. É sobre condições. E entender essas condições é o primeiro passo para parar de culpar indivíduos por problemas que são estruturais.
O dinheiro faz diferença (e quanta diferença)
A relação entre investimento em ciência e produção científica não é mistério. Países que investem mais em pesquisa e desenvolvimento produzem mais. E a diferença de investimento entre países do Norte e do Sul Global é brutal.
Os Estados Unidos investem centenas de bilhões de dólares por ano em P&D. A Coreia do Sul investe mais de 4% do seu PIB. O Brasil, segundo dados do MCTI, investe em torno de 1,1 a 1,3% do PIB, e esse percentual não tem crescido de forma consistente.
Isso não é abstração. Isso se traduz em laboratórios com equipamento defasado, bolsas de valor insuficiente, bibliotecas com acesso limitado a periódicos, e pesquisadores que precisam dividir o tempo entre a pesquisa e outras atividades para complementar a renda.
Um pesquisador que recebe R$ 2.100 de bolsa de mestrado e precisa se preocupar com aluguel, alimentação e transporte está em condições diferentes de um pesquisador europeu com bolsa que cobre suas necessidades básicas com folga. Esperar a mesma produtividade dos dois é ignorar a realidade.
A barreira do idioma (que é barreira de acesso)
A ciência global fala inglês. Os periódicos de maior impacto publicam em inglês. As conferências mais valorizadas são em inglês. Os revisores esperam textos em inglês.
Para um pesquisador cuja língua nativa é o inglês, isso não é uma barreira. É simplesmente escrever. Para um pesquisador brasileiro, é um obstáculo adicional que consome tempo, energia e, muitas vezes, dinheiro (se precisa contratar revisão de idioma).
Não estou dizendo que aprender inglês não é importante. É. Mas a expectativa de que todo pesquisador do mundo produza em inglês com a mesma fluência de um nativo cria uma desigualdade que raramente é reconhecida.
A qualidade de uma pesquisa sobre saúde pública no Nordeste brasileiro não depende de ter sido escrita em inglês perfeito. Mas a visibilidade dessa pesquisa, no sistema atual, depende. E isso é um problema do sistema, não do pesquisador.
O viés na revisão por pares
Existe um fenômeno documentado na literatura sobre publicação científica: artigos de pesquisadores de países do Sul Global têm taxas de rejeição mais altas em periódicos internacionais.
As razões são múltiplas. Revisores podem ter vieses implícitos sobre pesquisas vindas de contextos que não conhecem. Temas relevantes para países emergentes (doenças tropicais negligenciadas, desigualdade social em contextos específicos, políticas públicas locais) podem ser considerados “pouco universais” por editores e revisores de países do Norte.
Há também a questão da rede. Pesquisadores que fizeram doutorado ou pós-doutorado em universidades do Norte Global costumam ter mais contatos editoriais, conhecem melhor o “jogo” da publicação internacional, e têm acesso a colaborações que aumentam a visibilidade do trabalho.
Nada disso é sobre qualidade da pesquisa. É sobre acesso e familiaridade com um sistema que foi construído, historicamente, por e para pesquisadores de um grupo específico de países.
O que os periódicos regionais representam
Nesse contexto, periódicos regionais como os da SciELO exercem um papel que vai além da publicação. Eles são espaço para pesquisa que fala sobre realidades que os periódicos do Norte Global muitas vezes ignoram.
Pesquisa sobre educação pública brasileira, sobre o SUS, sobre comunidades ribeirinhas, sobre política educacional no Nordeste: esses temas encontram nos periódicos regionais uma casa que periódicos internacionais nem sempre oferecem.
O problema é que, no sistema de avaliação da CAPES e de muitos programas de pós-graduação, publicar em periódico regional de acesso aberto pode “valer menos” do que publicar em periódico internacional com paywall. Isso cria uma contradição: a ciência feita para resolver problemas locais é menos valorizada pelo sistema que deveria incentivá-la.
A SciELO, em particular, tem feito um trabalho importante para aumentar a qualidade e a indexação dos periódicos da América Latina, mas a percepção de que “publicar na SciELO é publicar em periódico menor” persiste em muitos ambientes acadêmicos.
O que os pesquisadores brasileiros fazem mesmo assim
Apesar de todas essas barreiras, a produção científica brasileira é significativa. O país forma milhares de mestres e doutores por ano. Pesquisadores brasileiros contribuem para áreas que vão da medicina tropical à engenharia, da linguística à computação.
Muitos desses pesquisadores produzem em condições que seriam impensáveis para colegas de países com mais recursos. Sem laboratório próprio, sem bolsa suficiente, sem acesso a periódicos pagos, e ainda assim publicam, orientam, formam novos pesquisadores.
Isso não deveria ser motivo de orgulho. Deveria ser motivo de indignação. Porque demonstra que o potencial existe, e que o que falta é investimento e condições adequadas.
E vale mencionar: quando pesquisadores brasileiros conseguem acesso a recursos comparáveis, como em programas de doutorado sanduíche ou em colaborações internacionais com laboratórios bem equipados, a produção científica que resulta é de qualidade compatível com qualquer centro de pesquisa do mundo. O problema nunca foi a capacidade. Sempre foi a estrutura. E confundir uma coisa com a outra é perpetuar uma narrativa que culpa o indivíduo por falhas do sistema.
O que pode mudar (e o que você pode fazer)
No nível institucional, algumas mudanças fariam diferença. Políticas de apoio à publicação internacional (revisão de inglês subsidiada, financiamento de APCs), fortalecimento e valorização de periódicos regionais de qualidade, critérios de avaliação que reconheçam o impacto social da pesquisa e não apenas o fator de impacto do periódico.
No nível individual, pesquisadores podem buscar colaborações internacionais (que frequentemente melhoram a visibilidade do trabalho), depositar preprints para antecipar a disseminação, e aprender a navegar o sistema de publicação com mais estratégia.
No Método V.O.E., trabalhamos a escrita acadêmica como processo. E parte desse processo é entender para onde direcionar o trabalho. Saber que o sistema tem desigualdades não é motivo para desistir de publicar. É motivo para fazer escolhas mais informadas sobre onde e como publicar.
A ciência global precisa de todos os pesquisadores
Faz sentido? A ciência que ignora metade do mundo não é ciência completa. Problemas globais como mudanças climáticas, pandemias e desigualdade social exigem perspectivas diversas, de diferentes contextos, de diferentes realidades.
Quando o sistema de publicação dificulta a participação de pesquisadores de países emergentes, não são só esses pesquisadores que perdem. É a ciência como um todo que fica mais pobre.
A responsabilidade de mudar esse cenário não é individual. É coletiva: de agências de fomento, de universidades, de periódicos, de comunidades científicas. Mas começa por reconhecer que a desigualdade existe e que ela não é sobre quem pesquisa, mas sobre as condiç