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Pós em Administração: Academia e Mercado Juntos

Fazer pós-graduação em Administração é navegar entre dois mundos. Entenda como a pesquisa acadêmica e a prática de gestão podem coexistir de verdade.

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A pós em Administração tem uma tensão embutida

Vamos lá. Se você está pensando em fazer mestrado ou doutorado em Administração, ou se já está no meio disso, você provavelmente conhece aquela sensação estranha de estar num ambiente acadêmico falando sobre gestão, enquanto parte de você pensa: “mas na prática, não é bem assim.”

Essa tensão entre o que a academia produz e o que o mercado experimenta é real. Não é imaginação sua. E entender de onde ela vem, e o que você faz com ela, é uma parte importante de sobreviver bem na pós em Administração.

Não estou aqui para dizer que academia e mercado são a mesma coisa. Não são. Mas também não vou te vender a ideia de que são mundos incompatíveis que você precisa escolher entre um e outro. A realidade é mais interessante do que qualquer um dos dois extremos.

O que a pós em Administração realmente forma

A pós-graduação stricto sensu em Administração, seja mestrado acadêmico ou profissional, forma pesquisadores. Isso parece óbvio, mas muita gente entra nesse processo acreditando que vai sair de lá com mais ferramentas de gestão, novos frameworks aplicáveis, um MBA mais robusto.

Não é isso. Ou pelo menos não é só isso.

O que você desenvolve na pós, quando o processo funciona direito, é capacidade de olhar para um problema de gestão de forma sistemática, rigorosa e crítica. Você aprende a fazer perguntas que vão além da intuição. Aprende a coletar e analisar dados de formas que diminuem o risco de você só ver o que você quer ver. Aprende a dialogar com um campo de conhecimento que já pensou, testou e errou muito antes de você.

Isso é valioso para o mercado? Sim. Mas de uma forma indireta, lenta e às vezes frustrante para quem quer resultados rápidos.

A armadilha dos dois mundos

Existe um risco específico na pós em Administração que é diferente de, digamos, Letras ou Biologia. Como o campo de estudo é o ambiente organizacional, e como boa parte dos estudantes tem experiência profissional na área, há uma tentação constante de validar no mestrado o que você já acredita que sabe.

Isso não é pesquisa. É confirmação de viés com metodologia acadêmica.

Olha só: um dos erros mais frequentes que vejo em projetos de pesquisa em Administração é o estudante que escolhe um tema porque tem uma hipótese que ele já sabe que vai confirmar. Ele já viveu aquilo no mercado, ele tem certeza de que funciona assim. Aí ele desenha a pesquisa para confirmar, coleta dados que confirmam, escreve uma dissertação que confirma.

Só que pesquisa científica não é sobre confirmar o que você já sabe. É sobre investigar o que você ainda não sabe, com métodos que permitam que você esteja errado.

Quando você entende isso, o processo inteiro muda de chave.

O mestrado profissional e o que ele promete

Nos últimos anos, o mestrado profissional (MP) se expandiu muito em Administração no Brasil. Programas voltados para executivos, para profissionais da área pública, para gestores de saúde, de educação, de tecnologia.

O MP tem uma proposta legítima: produzir conhecimento aplicado, conectado com problemas reais de gestão. O trabalho de conclusão pode tomar formas diferentes da dissertação tradicional, como relatos de experiência, estudos de caso, propostas de intervenção.

Mas existe um problema: muitos programas de MP em Administração acabaram se tornando, na prática, MBAs com título de mestrado. A exigência de rigor metodológico é menor. A pressão por publicação é menor. E o resultado é que o aluno sai com um diploma de mestre, mas sem ter vivido o processo formativo que o mestrado deveria proporcionar.

Não estou dizendo que todo MP é assim. Há programas excelentes. Mas vale a pena pesquisar com cuidado antes de escolher. Olha a produção dos professores, olha as dissertações aprovadas, olha o Qualis das revistas onde o programa publica. Esses dados estão disponíveis na Plataforma Sucupira.

O que você ganha que o MBA não dá

Se o mestrado não é MBA, o que ele oferece que justifica o investimento de tempo e energia?

Primeiro, a capacidade de produzir conhecimento novo. Não de aplicar o que outros produziram, mas de investigar, sistematizar, contribuir para o campo. Isso é raro e valorizado em contextos muito específicos: consultoria de alto nível, docência universitária, pesquisa aplicada em grandes organizações.

Segundo, a credencial acadêmica, que abre portas na carreira docente e em programas de doutorado. Se você pensa em seguir para o doutorado, o mestrado é o caminho necessário.

Terceiro, e isso é o que muita gente subestima, o desenvolvimento da capacidade crítica. Depois de um bom mestrado em Administração, você lê um relatório de consultoria, um artigo de revista executiva ou um case de negócios de forma completamente diferente. Você consegue ver os pressupostos que estão escondidos, as limitações que não foram declaradas, as generalizações que não se sustentam. Isso é valioso em qualquer contexto.

Quando a pesquisa e a prática se alimentam

Existe um ponto em que academia e mercado param de se repelir e começam a se nutrir. Isso acontece quando a pergunta de pesquisa nasce de um problema real, investigado com rigor, e os resultados dialogam de volta com a prática.

Na minha experiência com o Método V.O.E., um dos padrões que vejo em pesquisas que funcionam bem é exatamente esse: o pesquisador tem experiência no campo que está estudando, mas aprende a olhar para essa experiência com estranhamento metódico. Ele não assume que sabe a resposta. Ele investiga.

Isso requer um tipo de humildade intelectual que é difícil de cultivar quando você tem 10 anos de mercado e acredita que sabe como as coisas funcionam. Mas é exatamente esse estranhamento que torna a pesquisa interessante, e os resultados, úteis.

Tem pesquisa em Administração que muda práticas de gestão. Tem pesquisa que influencia política pública. Tem pesquisa que desafia pressupostos que o mercado carregava há décadas sem questionar. Isso não é pouco.

O que você precisa decidir antes de entrar

Antes de se inscrever num programa de pós em Administração, vale ter clareza sobre algumas perguntas. Não porque existe resposta certa, mas porque a clareza vai te ajudar a fazer escolhas melhores.

Por que você quer o mestrado? Se a resposta for “para ter o título no currículo”, pense de novo. O título vai lá, mas o processo custa muito em tempo, energia e às vezes em saúde mental. Valem os anos que você vai investir só por um título?

Você quer seguir para a carreira acadêmica? Se sim, o mestrado acadêmico é o caminho. O mestrado profissional, em geral, não credencia para o doutorado da mesma forma.

Você tem um problema de pesquisa real que te interessa? Não um tema genérico, mas uma pergunta específica que você quer investigar. Porque você vai passar dois anos (ou mais) convivendo com esse problema.

Você tem ou está buscando um orientador com quem há conexão de interesses? A relação com o orientador é determinante. Um orientador distante, desinteressado ou com agenda muito diferente da sua vai tornar o processo muito mais difícil.

Essas perguntas não têm resposta obrigatória. Mas respondê-las com honestidade antes de entrar faz diferença.

A pós em Administração não resolve tudo

Quero terminar com algo que raramente se diz: a pós-graduação em Administração não vai te dar as respostas que o mercado quer. Ela vai te ensinar a fazer as perguntas certas, e isso é uma coisa muito diferente.

O gestor que sai de um bom mestrado não necessariamente toma decisões mais rápidas ou mais assertivas do que antes. Mas ele toma decisões com mais consciência das incertezas, dos limites do que ele sabe, e das consequências do que ele não sabe.

Em gestão, essa consciência tem valor real. Mas ela vem com um custo: você aprende a conviver com a dúvida, não a eliminá-la.

Isso é academia. E é isso que a pós em Administração, quando funciona bem, oferece para quem está disposto a entrar nesse processo de verdade.

Perguntas frequentes

Vale a pena fazer mestrado em Administração para quem trabalha no mercado?
Depende do objetivo. O mestrado acadêmico em Administração desenvolve capacidade de pesquisa e pode abrir portas para docência e consultoria especializada. O mestrado profissional (MP) é mais voltado para aplicação prática. Ambos exigem dedicação real e produção intelectual.
Qual a diferença entre mestrado acadêmico e mestrado profissional em Administração?
O mestrado acadêmico foca em contribuição teórica e produção científica, com dissertação tradicional. O mestrado profissional tem foco em aplicação e pode ter trabalho de conclusão em formatos alternativos, como relatos técnicos ou estudos de caso aplicados.
Como conciliar o mestrado em Administração com o trabalho no mercado?
É desafiador, mas possível. A chave está em escolher um orientador que entenda a realidade de quem trabalha, alinhar o tema da pesquisa com questões que você vivencia profissionalmente, e ser muito rigoroso com a gestão do seu tempo.
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