O que a pós-graduação brasileira pode aprender com outros países
Uma análise honesta do modelo de pós-graduação no Brasil comparado ao de outros países: o que fazemos bem, o que podemos aprender e o que não faz sentido importar.
Uma comparação que precisa ser honesta
Olha só: comparações entre sistemas de educação são tentadoras e perigosas ao mesmo tempo. Tentadoras porque sempre parece que o lugar que você não está é melhor. Perigosas porque sistemas acadêmicos são profundamente ligados a contextos históricos, econômicos e culturais. O que funciona na Suécia pode não fazer nenhum sentido no Brasil, e vice-versa.
Mesmo assim, há aprendizados genuínos que podemos tirar ao olhar para fora. Não para copiar, mas para questionar o que tomamos como natural.
Este post não é uma lista de críticas ao sistema brasileiro. É uma tentativa de entender o que fazemos bem, o que poderíamos fazer diferente e o que não vale a pena importar.
O que o Brasil faz bem (e às vezes não percebe)
Antes de falar sobre o que falta, é importante nomear o que temos e que não é trivial.
Sistema público e gratuito em escala. Os programas de pós-graduação públicos no Brasil oferecem mestrado e doutorado sem cobrança de mensalidade. Nos EUA, programas que incluem financiamento (bolsa + isenção de mensalidade) competem por candidatos talentosos, mas existem muitos programas onde o estudante paga tudo do próprio bolso. No Brasil, um pesquisador sem renda familiar elevada tem acesso a pós-graduação de qualidade sem se endividar em escala absurda.
Avaliação sistemática e padronizada. O sistema CAPES de avaliação dos programas, com toda a sua imperfeição, criou um mecanismo de accountability que não existe em muitos países. A nota CAPES funciona como um indicador de qualidade mínima que orienta tanto estudantes quanto pesquisadores. Países com sistemas mais descentralizados frequentemente têm mais variação de qualidade entre programas.
Abrangência territorial. O Brasil tem programas de pós-graduação distribuídos por todas as regiões do país, incluindo universidades federais em estados com baixa tradição acadêmica histórica. Isso não elimina as desigualdades regionais, mas é uma conquista que muitos países em desenvolvimento não têm.
O que vale questionar no modelo brasileiro
A estrutura de disciplinas no doutorado. No modelo brasileiro, o doutorado inclui um volume significativo de créditos em disciplinas obrigatórias e optativas antes de a pesquisa ser o foco principal. Em muitos países europeus e no modelo britânico, o doutorado começa diretamente pela pesquisa: o estudante vai para o laboratório, para o campo ou para os arquivos desde o primeiro semestre.
Não há resposta certa aqui. Há compensações. O modelo com disciplinas dá uma base teórica mais ampla. O modelo sem (ou com poucas) disciplinas acelera a imersão na pesquisa e pode ser mais eficiente para quem já tem formação sólida. Mas vale questionar: em quais cursos as disciplinas são realmente necessárias para o desenvolvimento do pesquisador, e em quais elas são mais inércia institucional do que valor formativo?
A relação de dependência com o orientador. Em muitos países, especialmente no modelo anglo-saxão, o estudante de doutorado tem um comitê de orientação, não apenas um orientador individual. Isso distribui a responsabilidade, reduz o risco de conflitos sem saída e dá ao estudante mais perspectivas sobre a pesquisa.
No Brasil, o modelo de orientador único cria uma relação de poder que, quando funciona bem, é profundamente formativa. Quando funciona mal, não tem escape fácil. A presença de um comitê ou de co-orientadores formalizados (algo que alguns programas já fazem) pode mitigar os riscos sem eliminar a relação central com o orientador principal.
A pouca ênfase em habilidades de transferência. Em universidades britânicas, canadenses e australianas, os programas de pós-graduação oferecem formação explícita em habilidades que vão além da pesquisa: comunicação científica, gestão de projetos, integridade em pesquisa, preparação para o mercado de trabalho fora da academia. Isso reconhece que a maioria dos doutores não vai seguir carreira acadêmica e que essas habilidades têm valor real.
No Brasil, essa formação existe de forma fragmentada e dependente de iniciativas individuais. Não é parte estrutural do doutorado na maioria dos programas.
A avaliação quase exclusiva por publicação. O sistema CAPES de avaliação criou um incentivo muito forte para que os programas priorizem publicações em periódicos, especialmente internacionais. O problema não é valorizar publicação. O problema é quando isso se traduz em pressão para que os estudantes publiquem em quantidade específica como requisito para defesa, sem necessariamente preocupação com a qualidade ou com o desenvolvimento do pesquisador.
O que não faz sentido importar diretamente
O modelo de endividamento norte-americano. Muitos programas de pós-graduação nos EUA, especialmente em humanidades e ciências sociais, não oferecem financiamento completo. Estudantes acumulam dívidas significativas para completar o doutorado, com perspectivas de emprego acadêmico incertas. Esse modelo não deveria ser um objetivo para o Brasil.
A competitividade extrema como valor. Em alguns ambientes acadêmicos anglo-saxões, a competição entre estudantes é intensa e normalizada. Isso pode gerar inovação, mas também gera ambientes hostis e taxas altas de abandono. A cultura de colaboração que existe em vários grupos de pesquisa brasileiros é um ativo, não uma fraqueza.
A terceirização completa do mestrado. Em alguns países, o mestrado é visto como produto separado do doutorado, com pouca pesquisa original. No Brasil, a dissertação de mestrado exige contribuição genuína para o campo. Isso é formativo e não deveria ser descartado.
O que o Brasil está aprendendo (e bem)
A internacionalização da pós-graduação brasileira avançou significativamente nas últimas duas décadas. Mais programas publicam em inglês, mais docentes têm colaborações internacionais, mais estudantes passam por experiências no exterior (doutorado sanduíche, estágio de pesquisa).
O uso de tecnologias na pesquisa também está sendo incorporado, incluindo ferramentas de IA com o início de regulamentação pelo CNPq, o que coloca o Brasil em posição de debate ativo sobre integridade científica na era digital.
E a diversificação do perfil dos pesquisadores, com políticas de ações afirmativas que ampliam o acesso de grupos historicamente sub-representados à pós-graduação, é uma direção que outros sistemas ainda não tomaram na mesma escala.
O tempo do doutorado: mais longo é pior?
Uma comparação frequente diz que o doutorado no Brasil demora mais do que em outros países. E, em média, é verdade.
O modelo britânico prevê 3 anos para o PhD, com início imediato na pesquisa após o mestrado. O modelo alemão prevê algo similar. Nos EUA, a duração oficial do doutorado é de 4 a 5 anos, mas em humanidades e ciências sociais o tempo real costuma ser 6 a 8 anos.
No Brasil, a duração formal é de 4 anos (às vezes 3), mas o tempo médio real de conclusão é frequentemente maior.
Existem explicações que não são desculpas. O financiamento insuficiente faz muitos estudantes trabalharem em paralelo. A estrutura de disciplinas no início consome tempo. O acesso a recursos (equipamentos, bases de dados, apoio técnico) é mais limitado em muitas instituições.
Mas também há uma questão de design. Sistemas que estruturam o doutorado com expectativas claras de entrega por ano, com feedback regular de comitês e não apenas do orientador, com datas de marco formalizadas, tendem a produzir conclusões mais previsíveis no tempo.
Não é que pesquisadores brasileiros sejam menos eficientes. É que o sistema não foi desenhado para criar urgência produtiva. E urgência produtiva, quando bem calibrada, é diferente de pressão destrutiva.
A pergunta que fica
A pós-graduação brasileira tem problemas reais: financiamento insuficiente, desigualdades regionais, problemas de saúde mental dos estudantes que não são adequadamente endereçados, orientações que às vezes beiram o abuso.
Mas tem também conquistas reais que não são neutras. Foram construídas politicamente, contra pressões de desmonte, por pesquisadores e gestores que acreditavam no valor do conhecimento científico produzido em solo brasileiro.
Aprender com outros países não significa abandonar o que funciona aqui. Significa ter clareza suficiente sobre o próprio sistema para saber o que vale reformar e o que vale preservar.
Se você está no processo de escolher entre fazer sua pós-graduação no Brasil ou no exterior, o post sobre doutorado sanduíche: como funciona e vale a pena? pode ajudar a pensar sobre formas de combinar os dois contextos.
E se ainda está na fase de escolher um programa, como usar a Plataforma Sucupira para pesquisar PPGs é um passo concreto que vale muito o tempo investido.